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ANÁLISE: Como a Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën podem trabalhar juntas

As quatro marcas podem se ajudar? Podem. Mas, ao contrário do que acontecerá na Europa, por aqui, a dupla Peugeot-Citroën primeiro terá que ser ajudada – e muito

 

O logo que representa o grupo resultante da fusão de FCA com PSA

Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën agora são marcas irmãs no Stellantis, grupo criado com a fusão entre a FCA, dona de Fiat e Jeep, e a PSA, dona de Peugeot e Citroën, resultando no quarto maior fabricante mundial de carros (8,7 milhões de carros em 2019). É líder também no Brasil, com 459 mil carros vendidos no ano passado, ou seja, 120 mil a mais que a GM e 131 mil a mais do que a Volkswagen.

Diante de números colossais, cabe uma pergunta: juntas, as quatro marcas podem se ajudar no Brasil? Podem. Mas, ao contrário do que acontecerá na Europa, por aqui, a dupla Peugeot-Citroën primeiro terá que ser ajudada – e muito.

Com quatro fábricas no Brasil, duas na Argentina e uma no Uruguai, o chefe de operações da Stellantis na América do Sul, Antonio Filosa (que era COO da FCA Latam) tem o desafio de lidar com marcas que trazem culturas muito diferentes – e elas se refletem nos produtos.

Portanto, Filosa terá que colocar as marcas Fiat e Jeep no piloto automático, pois elas vão bem, e dedicar um bom tempo para resgatar a Peugeot e a Citroën. Para quem só dava boas notícias para italianos e americanos da matriz, será uma mudança e tanto.

Peugeot e Citroën pagam caro por erros cometidos no passado e as vendas de 2020 foram muito ruins. Somadas, as duas marcas francesas venderam apenas 26,9 mil carros no ano inteiro, menos do que vendeu o Chevrolet Onix, da GM, num único mês (dezembro).

Para melhorar as vendas da dupla francesa, a primeira coisa a fazer é dar uma identidade própria e marcante para cada uma. Por incrível que pareça, a Peugeot e a Citroën fecharam o ano passado com apenas um carro de diferença entre elas: 13.477 para a Peugeot, 13.476 para a Citroën. Parece venda casada, não?

Os problemas da Peugeot são antigos. Nos últimos anos, Ana Theresa Borsari (que continua à frente das marcas Peugeot e Citroën) vem tentando reverter a imagem da Peugeot e promoveu uma revolução na rede de concessionários. Trouxe bons carros também, mas com pouco volume é difícil fazer milagre. Sob o grupo Stellantis, isso pode mudar. Muitos consumidores remoem o passado.

O maior erro aconteceu em 2008, quando uma nova geração do hatch 206 tinha sido lançada na Europa e mudado de nome para 207. No Brasil, a Peugeot fez a troca de nome e um facelift visual, mas manteve a carroceria do 206 (um carro que havia estreado em 2001). O público não perdoou.

Somadas, as duas marcas francesas venderam apenas 26,9 mil carros no ano inteiro de 2020, menos do que vendeu o Chevrolet Onix, da GM, num único mês (dezembro)

Um ano antes, a Peugeot estava em 6º lugar, vendendo 78 mil carros, contra 73 mil da Renault e 71 mil da Toyota. O mercado começou a crescer. Em 2008, a Peugeot subiu apenas 4 mil carros e foi para 82 mil. A Renault saltou de 73 mil para 115 mil. Em 2009, a Peugeot caiu para 81 mil e a Toyota havia subido de 71 mil para 93 mil.

Com essa estratégia, o Peugeot 206 ficou 13 anos em cartaz (sendo seis deles rebatizado de 207). Quando o novo 208 chegou, apenas dois anos depois de ter estreado na França, o estrago já estava feito. Comparado com 2010, o mercado de carros no Brasil ficou 41% menor em volume de vendas. Nesses dez anos, a Peugeot ficou 85% menor; a Citroën ficou 84% menor.

No caso da Citroën, a marca foi mal posicionada no segmento de luxo pelo importador Sergio Habib. A Peugeot, entretanto, tentava ser popular. Ocorreu no Brasil, um fenômeno único na história da PSA: a Peugeot posicionada como marca popular e a Citroën como marca aspiracional (na França sempre foi o contrário). Pior: quando a Peugeot decidiu ser uma marca aspiracional, as duas passaram a dividir o mesmo espaço (coisa que, tudo indica, fazem até hoje).

Antonio Filosa (que era COO da FCA Latam) agora comanda a Stellantis na América do Sul

A missão de Filosa é mudar tudo isso. A médio prazo, Peugeot e Citroën podem abandonar a produção dos motores 1.6 aspirado e 1.6 turbo, feitos no Brasil e na Argentina, para adotar os novos motores turbo flex 1.0 e 1.3 que serão fabricados ainda este ano na fábrica da Fiat em Betim (MG). Isso dará o ganho de escala que a Stellantis procura e deixará os carros franceses mais econômicos e mais competitivos.

O público não se incomoda muito com a potência dos carros, mas não gosta de modelos pouco econômicos. Recentemente, a PSA não quis investir num novo motor 1.2 turbo que poderia equipar a nova geração do Peugeot 208 (ótimo carro em termos dinâmicos) e um novo SUV compacto da Citroën, baseado no novo C3 europeu, que será lançado este ano.

Se foi uma estratégia, errou. Se já previa o acordo que daria vida ao grupo Stellantis, fez bem. Esses motores também poderão melhorar a eficiência do Peugeot 2008 e do Citroën C4 Cactus (dois SUVs compactos).

O modelo C3, que já foi um sucesso de vendas, hoje vende pouco

Como se vê, a Citroën não terá um novo C3. O que fará com o velho? Ninguém sabe. As vendas mensais são pífias (166 unidades antes da pandemia, 26 em dezembro e apenas 15 em janeiro). O cobiçado Porsche 911, que custa a partir de R$ 712 mil, vendeu três vezes mais neste primeiro mês de 2021. O C3 está na mesma geração desde 2012. Porém, por mais estranho que seja, talvez a Citroën deva apostar nele mesmo.

Há duas saídas. Uma é mudar as partes frontal e traseira, dar uma nova identidade e modificar também tudo que é visível por dentro – fazer do atual C3 uma espécie de Citroën 2CV brasileiro. O país precisa de um carro compacto e acessível. A outra é deixar como está e entrar de cabeça nas vendas diretas para motoristas de Uber.

Se o Fiat Mobi, que é um carro ruim e apertado, tem conseguido sucesso assim como os cansados Volkswagen Gol e Voyage, por que não o C3? Bem, isso afetaria a imagem da marca, que tenta vender tecnologia. Na França, ok; no Brasil, não dá. Carlos Tavares, CEO global da Stellantis, sabe disso e pediu que os chefes de operações regionais façam carros que a população local possa comprar.

A Peugeot pode focar na qualidade do 208, inclusive com uma versão 100% elétrica para agradar alguns consumidores que se identificam com as inovações dos carros franceses, enquanto a Citroën pode assumir o seu lado popular e dar um passo atrás para depois dar dois adiante, seguindo a sabedoria chinesa popular.

A Peugeot tem ainda a caminhonete Landtrek, que será feita no Uruguai. Do México virá um motor muito potente a gasolina, mas isso é nicho. Para ganhar participação num setor de alta rentabilidade, mas já bem congestionado com seis modelos (Toyota Hilux, Chevrolet S10, Ford Ranger, Volkswagen Amarok, Mitsubishi L200 e Nissan Frontier), é preciso ter um motor a diesel bastante potente.

Por enquanto, a Peugeot conta apenas com um motor 1.9 feito no Uruguai e que teria, segundo informações, apenas 150 cv. Mas, para a sorte da marca francesa, a solução pode vir de uma melhora no motor italiano que equipa as versões 4×4 da Fiat Toro e dos Jeep Renegade e Compass. Ele vai passar de 170 cavalos de potência para 200 cavalos de potência e pode colocar a Peugeot no jogo das picapes.

Assim, o time de picapes da Stellantis terá uma linha incomparável: Fiat Strada (pequena), Fiat Toro (compacta), Peugeot Landtrek (média), Ram 1500 e 2500 (grandes). No futuro, se tudo der certo, a Fiat e a Jeep poderão utilizar a nova e moderna plataforma que a Peugeot e Citroën dividem em Porto Real (RJ) para apenas dois carros. Por enquanto, é preciso melhorar as vendas da dupla francesa.

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