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ANÁLISE: Futuro da Honda no Brasil passa pelo novo Civic (obrigatoriamente)

A montadora japonesa apresentou a nova geração do seu sedã mais vendido, que chegará ao Brasil só em 2022. Mas há dúvidas no mercado se ele será fabricado no Brasil ou importado. Saiba as opções que estão na mesa da Honda

 

Nova geração do Honda Civic será lançada dia 28 de abril nos EUA

Qual será o futuro do Honda Civic no Brasil? A nova geração do sedã japonês foi apresentada esta semana e chegará ao mercado dos Estados Unidos no dia 28 de abril. E no Brasil? Sabemos que ele “desembarcará” em 2022, mas ninguém sabe ao certo como. A Honda diz que não comenta sobre futuros lançamentos. Portanto, ela pode seguir produzindo o Civic localmente ou desistir do carro e trazê-lo apenas como importado.

Agora com um desenho mais comportado, a Honda tem novos desafios para o Civic. Quando chegar ao mercado brasileiro, em 2022, enfrentará um Corolla com quatro anos de vantagem na corrida dos carros híbridos. E essa foi uma questão-chave colocada para a Honda: investir ou não na tecnologia híbrida com carros nacionais?

A 11ª geração do Honda Civic mostra que a marca deu um passo atrás na questão do design. A geração atual, que é fabricada no Brasil, tem um estilo bastante ousado e praticamente deixou o Toyota Corolla isolado no design conservador. Durante todo o seu ciclo de vida, o Civic da 10ª geração jamais conseguiu se aproximar das vendas do Corolla, mesmo quando a Toyota estava com um carro defasado tecnicamente.

Mas as vendas do Honda Civic não foram ruins. Em seus primeiros quatro anos, a atual geração vendeu 100 mil unidades, uma média de 25 mil por ano. Seu melhor ano foi 2019 (antes da pandemia), quando atingiu 27,3 mil vendas. Em 2020, as vendas recuaram para 20,4 mil. Agora, com 4,4 mil emplacamentos no primeiro trimestre, o Honda Civic pode fechar o ano com os mesmos 20 mil. Se mantiver a média do primeiro trimestre (que costuma ser o mais fraco), fará 17,6 mil carros.

Apesar da venda limitada, o Honda Civic é um carro de alto valor (R$ 117 mil a R$ 159 mil). Está dentro da faixa que a indústria automobilística considera rentável. Portanto, apesar dos rumores de que a Honda deixará de fabricar o Civic no Brasil, parece difícil que ela entregue esse filão de 20 mil carros de bandeja para o Toyota Corolla, líder da categoria com 41 mil vendas. Até porque a decisão de investir ou não na fabricação de uma nova geração do Civic foi tomada quando o carro estava em crescimento.

Mas nem tudo é tão simples. No caso da Honda, a estratégia passa também pela questão da eletrificação. Globalmente, a Honda está totalmente focada na fabricação de carros totalmente elétricos. Tanto que esta será sua última temporada como fornecedora de motores híbridos para a Fórmula 1. Ao mesmo tempo, a Honda acaba de apresentar sua nova tecnologia de carros híbridos, cuja sigla e:HEV significa “veículo híbrido próximo do elétrico”.

Traduzindo: os carros híbridos da Honda terão um motor a combustão interna e dois motores elétricos, mas um dos elétricos fica disponível apenas para tração. O sistema é mais evoluído do que o da Toyota, que também tem três motores, mas só roda no modo 100% elétrico em baixas velocidades. O primeiro Honda e:HEV será o novo Accord, que estreia no Brasil em julho. Na família Honda, o Accord é um sedã de luxo (categoria D, grande), superior ao Civic (categoria C, médio).

Por que isso deixaria o novo Civic sob dúvida? Porque a Honda do Brasil já disse que lançará três modelos híbridos no país até 2023 – e que todos serão importados. Além do Accord, deverá chegar como híbrido o novo CR-V (um SUV que cresceu tanto que passou da categoria C para a D). Accord e CR-V serão caríssimos, em conformidade com o atual panorama do mercado brasileiro de automóveis. Resta um. Será o Civic? Ou será o HR-V, que também mudará de geração?

Se for o Civic, dificilmente a versão híbrida conseguirá concorrer com o Corolla híbrido, pois o Honda será importado, enquanto o Toyota é fabricado no Brasil. Isso significa que o Civic deixará de ser fabricado no Brasil? Não necessariamente. Ela pode fabricar o Civic com motores a combustão no Brasil e importar o híbrido. A resposta começa a ficar mais clara no dia 28 de abril, quando o novo Civic tiver suas configurações reveladas nos Estados Unidos. Pelo menos por enquanto, não está prevista uma versão híbrida e sim motor 1.5 turbo de 182 cavalos, 2.0 aspirado de 155 cv e 1.5 aspirado de 129 cv.

Além do Civic e do HR-V, os modelos Fit (monovolume) e City (compacto) também estão trocando de geração fora do Brasil. Na verdade, com todos os seus produtos completando o ciclo de vida quase ao mesmo tempo, a Honda precisou tomar uma série de medidas estratégicas num momento em que o cenário do mercado brasileiro estava bastante nebuloso.

Uma coisa é certa: a Honda não abrirá mão do HR-V e do Fit, dois modelos que a diferenciam da concorrência. Se desistir do Civic, será para apostar também em um City hatchback além do atual sedã. Vale a pena sair de um segmento de carros quase exclusivos e entrar num outro congestionado, com fortes concorrentes? Um City teria que brigar com Chevrolet Onix, Volkswagen Polo, Fiat Argo, Hyundai HB20 e Peugeot 208.

Uma coisa é certa: a Honda não abrirá mão do HR-V e do Fit, dois modelos que a diferenciam da concorrência

Outro problema é que os carros atuais não preenchem sequer uma fábrica, quanto mais duas. Os sedãs Civic e City são fabricados em Sumaré (SP), junto com os motores 1.5, 1.8 e 2.0, todos aspirados (e um tanto defasados). Já os utilitários esportivos HR-V e WR-V são fabricados em Itirapina (SP). O Fit, monovolume, é produzido nas duas fábricas, que operam em um turno com capacidade de 120 mil automóveis por ano.

Com dois turnos, a capacidade instalada é de 240 mil veículos. Nenhum modelo da Honda, entretanto, tem potencial para aumentar muito o volume, de forma que ter duas fábricas continua sendo um ônus. Nesse cenário, o mais provável é que o City Hatch entre no portfólio sem tirar o lugar de ninguém.

O Brasil é um mercado importante para a Honda. Muitos consumidores têm uma relação emocional com a marca. A montadora japonesa começou por aqui com as motos, especialmente a pequena CG 125, que se transformou num case mundial. A Honda chegou a ter 90% de participação no mercado de motos. Depois, veio com as vitórias no automobilismo. Primeiro na Fórmula 1, com os títulos mundiais de Nelson Piquet (1987) e Ayrton Senna (1988, 1990 e 1991). Mais tarde na Fórmula Indy, com dois títulos de Gil de Ferran (2000 e 2001).

Atualmente a Honda ocupa o 8º lugar no ranking brasileiro, com 4,2% de participação, atrás da Toyota (6,7%) e à frente da Nissan (3,4%), também marcas japonesas. Em 2020, a Honda vendeu 84 mil carros no Brasil, ou seja, 70% de sua capacidade de produção atual e 35% de sua capacidade instalada. Já foi melhor. Em 2012, a Honda ocupou o 6º lugar no ranking com 134,9 mil vendas e 3,7% de participação, à frente da Toyota (3,1%). Naquele ano, com 50 mil unidades vendidas, o Honda Civic ficou apenas 6 mil unidades atrás do Toyota Corolla.

*Sergio Quintanilha é editor-chefe do site Guia do Carro. Twitter: @QuintaSergio

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