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ANÁLISE: Sem política industrial, carros elétricos serão privilégios de “ricos”

Nos próximos três anos, o Brasil vai ser invadido por carros híbridos e elétricos. Mas, neste primeiro momento, só com veículos importados. Em algum momento, o País terá que decidir se quer uma indústria automobilística que exporte para o mundo ou se permanecerá fabricando modelos à combustão como no século 20

 

Audi E-Tron, o veículo elétrico mais vendido do Brasil

Engana-se quem acredita que o Brasil ficará fora do mercado de veículos elétricos (EVs). Ainda que seja pela porta dos fundos, por falta de uma política industrial que vislumbre as vantagens de participar deste mercado como exportador, o Brasil já está colocando um pezinho no segmento de carros mais ecológicos.

Nos próximos 24 meses ou 36 meses, haverá uma avalanche de carros eletrificados no mercado brasileiro. Inicialmente com os híbridos. A partir disso, com veículos 100% elétricos. Mas, neste primeiro momento, serão os carros importados e de luxo que dominarão as vendas neste segmento.

Segundo o site BloombergNEF, já a partir de 2023, o custo por kWh das baterias será de US$ 101, tornando a produção de carros elétricos mais vantajosa do ponto de vista econômico em relação à fabricação de carros convencionais. Para ganhar dinheiro será necessário estar nesse jogo.

Para os fabricantes instalados no Brasil, será difícil ganhar dinheiro sem grandes volumes. Por isso, muitos estão se mexendo. Não será surpresa se a Ford encontrar seguidores em sua decisão de não fabricar no país.

Há cinco tipos de veículos eletrificados:

1) híbridos leves, no qual uma bateria extra auxilia o motor a combustão e melhora a economia de combustível;

2) híbridos com um motor a combustão e um motor elétrico (ou mais) em que o próprio carro decide qual motor usar em cada momento, carregando automaticamente a bateria;

3) híbridos plug-in, que podem ser carregados na tomada de energia de casa ou em postos de recarga, permitindo rodar em modo 100% elétrico;

4) totalmente elétrico, normalmente com dois ou três motores;

5) carros a hidrogênio, também chamados de veículos com célula de combustível.

No Brasil, já temos os quatro primeiros tipos rodando, mas os híbridos leves nem sequer entram nas estatísticas da eletrificação. Em 2020, o Brasil registrou 775 carros 100% elétricos vendidos. Foram apenas 19 modelos de 10 marcas. Com exceção do Renault Kangoo, do JAC iEV40 e do JAC  iEV60, todos os outros modelos são exclusivamente elétricos, ou seja, não possuem nenhuma versão híbrida ou convencional. A Audi já domina este mercado com o modelo E-tron.

No caso dos carros híbridos, o volume de vendas em 2020 foi bem maior: 17.987. Foram 31 modelos de 12 marcas e aqui já temos uma radiografia do que virá a seguir. Nada menos de 70% das vendas referem-se a veículos exclusivamente híbridos, ou seja, que não têm versões 100% elétricas ou convencionais. Veja o ranking.

Mas isso vai mudar rapidamente. Na Europa, nos Estados Unidos, no Japão e na China, a produção de carros elétricos aumenta com velocidade. Modelos que hoje são oferecidos somente com motor a combustão ou na configuração híbrida, também terão versões 100% elétricas. Três exemplos: Mini Cooper (que chega ainda neste semestre ao Brasil), Fiat 500 (idem) e Volkswagen Golf (importação a confirmar).

No segmento de luxo, não haverá mais automóveis convencionais em pouquíssimo tempo. A exceção ficará por conta de carros esportivos de alta performance, como Porsche 911, Ford Mustang e Chevrolet Camaro.

Os consumidores de veículos importados criarão a base deste mercado no Brasil. Pagando um alto custo, é verdade, porque o país não oferece incentivo para a venda de veículos elétricos. “Em três anos, no máximo, o mercado de carros de luxo no Brasil estará totalmente dominado por híbridos e elétricos”, diz Cássio Pagliarini, consultor associado da Bright Consulting. “Os carros já têm preço exorbitante, então fica mais fácil administrar o custo incremental.”

Diante desse panorama, marcas como BMW/Mini, Volvo e Audi/Porsche/Volkswagen estão criando suas próprias redes de recarga. No total, o Brasil conta com cerca de 350 pontos de recarga.

O trio Audi/Porsche/Volkswagen investe R$ 10 milhões numa rede de 200 postos de recarga que cobrirá, até 2022, uma área equivalente a 70% da Alemanha, cobrindo parte dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina.

Em quantidade de pontos, evidentemente, será menor (na Alemanha há 28 mil estações), mas permitirá que donos de carros 100% elétricos façam algumas viagens interestaduais.

As duas tabelas acima também mostram que apenas três marcas atuam nos segmentos de carros 100% elétricos e de carros híbridos: Audi, Mercedes e Porsche. A BMW em breve se somará a elas. Isso significa que algumas não pretendem fazer um “estágio” no segmento de híbridos.

É o caso, por exemplo, da Renault, da Nissan e da Chevrolet. Elas podem, claro, terem carros híbridos em algum momento, mas o foco é total nos EVs. Outras, como a Toyota, apostam no mercado de híbridos. “Vai existir um mercado de híbrido ou elétrico na faixa de R$ 150 mil, no rastro do RAV4 e Corolla híbrido, porém o volume será restrito pelo poder de compra do brasileiro”, afirma Pagliarini.

Em janeiro, a GM anunciou nos EUA que até 2035 só produzirá carros elétricos nos principais mercados

Em janeiro, a GM anunciou nos EUA que até 2035 só produzirá carros elétricos nos principais mercados. O Brasil não está entre eles. Na semana passada, a consultoria Focus2Move divulgou o ranking mundial de vendas globais e o que mais chamou atenção foi o crescimento espetacular da Tesla: 46,8%, com 533,8 mil carros vendidos.

Todos os carros da Tesla são 100% elétricos, estratégia que foi adotada desde a criação da empresa e que fez a marca de Elon Musk se tornar a fabricante de automóveis mais valiosa do mundo, avaliada em US$ 806 bilhões, quase quatro vezes mais do que a japonesa Toyota.

O novo Tesla Model S tem mais de 1.000 cavalos de potência e é capaz de rodar 830 km com apenas uma carga de bateria. Daqui a dois ou três anos, quando o custo da bateria baixar de US$ 100/kWh, os carros elétricos passarão a ter o mesmo preço do que os carros com motor a combustão interna.

O Brasil não tem um mercado interno capaz de absorver toda sua capacidade de produção. Por isso, precisará exportar. Em algum momento o País terá que decidir se quer uma indústria automobilística que exporte carros para o mundo inteiro ou apenas para aqueles que permanecerão no século 20.

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