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As dez impressões de Candido Bracher, do Itaú Unibanco, sobre a crise

O presidente do Itaú Unibanco falou sobre o papel dos bancos, o tamanho da recessão e fez uma análise sobre o que o Covid-19 tem de diferente em relação a outras crises do passado

 

Candido Bracher, presidente do Itaú (Crédito: Guilherme Magalhães)

O presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, começou a trabalhar no mercado financeiro em maio de 1981.

Desde então, já enfrentou todas as crises e planos econômicos possíveis. Desde a crise da dívida externa, nos anos 1980, passando pelos planos Cruzado, Bresser, Collor e Verão. Sem esquecer das crises asiática, russa, argentina e o colapso financeiro global, em 2008.

Aos 59 anos, Bracher, no entanto, tem uma certeza. A crise do coronavírus carrega um componente que a difere daquelas que a precederam.

“Todos os episódios que eu citei foram crises financeiras. Essa não. É da saúde”, afirmou Bracher, durante uma live realizada pelo Itaú Unibanco, na segunda-feira, 6 de abril. “E impacta não apenas no campo financeiro, mas todos os segmentos. Fábricas, lojas serviços. Como não se viu em nenhuma outra.”

O executivo destacou que esse contexto traz, como resultado, outro elemento distinto. “Ela coloca o sistema financeiro, que sempre foi objeto das crises, num papel diferente”, disse Bracher. “Agora, ele tem que ser parte da solução, muito mais que parte da crise.”

Na transmissão, Bracher deu alguns exemplos de como os bancos estão cumprindo esse papel e falou, entre outros temas, sobre como o Itaú Unibanco está lidando com o desafio de manter suas operações.

O NeoFeed selecionou 10 pontos que refletem a visão do presidente do Itaú Unibanco sobre essa crise do coronavírus. Confira:

1 – O que a crise do Covid-19 tem de diferente
A experiência acaba nos ensinando que o mundo não acaba e, de algumas maneiras, as crises passam e as pessoas se recuperam. Agora, essa crise tem uma dimensão diferente de todas as demais. Todas as outras foram crises financeiras, iniciadas por problemas de crédito, de alavancagem excessiva. Essa não. É de saúde. E impacta toda a economia não apenas no campo financeiro. Mas na produção, nas lojas, nos serviços. Existe uma interrupção de faturamento como não se viu em nenhum outro momento. E que coloca o sistema financeiro num papel diferente. O setor, que sempre foi objeto da crise, hoje é chamado e tem que ser parte da solução, muito mais que parte da crise.

2 – Papel do setor
O primeiro papel é permanecer sólido. As pessoas confiam seus recursos aos bancos e é bom que em uma crise tão profunda todos possam se sentir seguros de que seus recursos estão bem guardados. Não foi sempre assim. De 2008 para cá, as exigências de capital sobre o setor financeiro foram enormes. Os bancos foram se capitalizando para que pudessem ter instituições muito mais sólidas. Esse primeiro papel está sendo cumprido. O segundo é permitir que as pessoas façam suas transações normalmente. Fornecer canais digitais para que possam fazer isso sem sair de casa. E manter agências abertas para as pessoas que não são digitalizadas, o que tem sido desafio muito grande.

3 – Irrigar a economia
O terceiro papel é irrigar a economia. E isso acontece de formas visíveis, como a rolagem de vencimentos. E outras menos visíveis. Por exemplo, as oscilações de ativos financeiros nessa crise excederam todos os cenários de estresse que eu conheço. E, no entanto, eu não tenho notícia de fundos que tenham fechado as portas. Que tenham dito para os depositantes que não dava para sacar. As pessoas foram aos fundos para resgatarem seus investimentos e os fundos tiveram que vender seus papéis. Foram os bancos os compradores desses papéis. O Banco Central insistiu para que fosse feito assim. E é fato que não houve fundo que tenha dito que o cliente não poderia resgatar.

4 – Colaboração
Uma coisa especialmente boa nessa crise é o grau de cooperação entre os bancos. É um momento de sobreviver, ajudar a sociedade e colocar as suas armas de lado. Muito do que está sendo feito foi sugerido por algum dos bancos e adotado pelos demais: doação de 5 milhões de testes de Covid-19, vindos da China, e de R$ 50 milhões em máscaras.

5 – Linha de crédito
Os bancos discutiram entre si e levaram a ideia para o governo de uma linha para financiar a folha de pagamento. Os últimos detalhes estão sendo fechados. Essa linha permitirá às empresas que faturam até R$ 10 milhões por ano pagarem sua folha, limitado a 2 salários mínimos por funcionário, com 36 meses de carência, desde que a companhia não demita por 60 dias. Se avançarmos o prazo de dois meses, a economia voltará rápido. As empresas e Estados mais endividados. E os bancos com carteira de crédito com nível de risco maior. Mas todos poderemos partir para a reconstrução da economia.

6 – Recursos fiscais
No caso do Brasil, a extensão da crise depende de duas variáveis. A primeira é a duração da quarentena. A segunda, quantos recursos fiscais serão investidos na economia para atenuar os efeitos da crise e com que eficiência eles serão irrigados. Quanto mais recursos fiscais forem investidos pelo governo, menor será o impacto econômico imediato e mais rápido sairemos da crise. Sairemos mais endividados como nação. Mas todas sairão.

Quanto mais recursos fiscais forem investidos pelo governo, menor será o impacto econômico imediato e mais rápido sairemos da crise. Sairemos mais endividados como nação. Mas todas sairão.”

7 – Tamanho da recessão
Nosso economista-chefe no Itaú Unibanco, Mário Mesquita, construiu uma matriz que correlaciona a duração da quarentena com a velocidade de retomada, o que dá como resultado qual seria o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). No cenário mais otimista, mas pouco provável, a quarentena termina em 14 de abril, a recuperação será de 100% no terceiro trimestre e o recuo do PIB é de 0,5%. No mais pessimista, a quarentena vai até 26 de maio e a recuperação será só de 25% no terceiro trimestre. Nesse caso, o PIB cairá 6,4%. Continua havendo muita incerteza. Mas estamos falando de algo que dificilmente será menor que 2,5%.

8 – Conselho aos clientes
É preciso administrar as energias e recursos nesse período. Sobreviver. É, de certa maneira, o que o País tem que fazer. Por que estamos tendo todo esse impacto? Porque estamos em quarentena. Porque precisamos sobreviver em termos de saúde. É uma hierarquia de prioridades. É a primeira delas. E é preciso fazer isso também como cidadão econômico. Dosar recursos e estar preparado para a retomada.

9 – Medidas internas
Nós colocamos 40 mil pessoas em home office, demos férias antecipadas às pessoas do grupo de risco que trabalham em agências. Depois, garantimos que não haverá demissões durante a crise e também antecipamos o 13⁰ salário. Nós conseguimos colocar muitos dos que trabalham no call center também em home office, de maneira a tornar o ambiente muito mais espaçado. Nas agências, reduzimos o horário de funcionamento e desde quinta-feira até esta quarta-feira, 100% desses funcionários terão recebido máscaras.

10 – Digitalização
A abertura de contas correntes digitalmente aumentou 50% nesses dias. Essa crise vai ser o catalisador da adoção dos recursos digitais por parte dos clientes.

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