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“Basta de aceitar”, diz cofundador da Gol

Em artigo ao NeoFeed, Henrique Constantino, cofundador da Gol, conta por que decidiu escrever o livro em que revisita os 20 anos da história da companhia aérea, relembra vitórias e dificuldades, traumas e o esquema que levou ao seu afastamento dos negócios. E reforça: “Não cometam os erros que cometi”. Leia o primeiro capítulo com exclusividade

 

Henrique Constantino, cofundador da Gol

A pergunta que mais tenho recebido desde que resolvi publicar Desejo de Gol é: ‘por qual motivo você escreveu este livro?’ Confesso que a minha resposta tem sido dinâmica. A cada dia as razões aumentam, e me sinto mais confortável com a minha decisão.

Primeiro, eu apenas gostaria de escrever e colocar no papel tudo o que vivi, estimulado pelo meu psicanalista, que me orientava sobre como essa ação seria benéfica para mim. Sempre tive vontade de contar a saga da criação da GOL, junto com meus irmãos.

Havia um desejo de eternizar tudo o que vivenciamos desde a fundação da empresa. Além do legado, gostaria de registrar todos os momentos que marcaram a minha vida e mudaram o destino dos quatro fundadores e de nossas famílias.

Revisitei, sob a ótica de um empreendedor, o embarque na grande aventura de popularizar o transporte aéreo no Brasil, antes um privilégio para poucos, hoje uma possibilidade para muitos.

Durante essa saga que completou 20 anos em janeiro de 2021, mergulhamos em projetos enormes, apostas repletas de incertezas, tragédias humanas, disputas comerciais agressivas, ataques da concorrência, contra-ataques.

Cumprir essa missão nunca foi simples em um ambiente econômico e político turbulento por natureza. Assim é a vida de qualquer negócio no Brasil – grande, médio ou pequeno. Dedico muitos capítulos a essa história, mas meu relato vai além.

Compartilhei a minha vida pessoal naquilo que ela pôde expressar de melhor e também de mais doloroso. Participei de um empreendimento histórico, levei uma vida discreta no campo privado, fiz muitas coisas boas, mas fui conduzido a histórias diversas.

Episódios rocambolescos, como aquele em que um falsário se passou por mim, “um dos donos da GOL”, histórias trágicas como o acidente do voo 1907, episódios sobre amores e desamores societários, típicos no mundo empresarial, e uma história policial na qual fui o protagonista, num papel infelizmente nada edificante.

Desejo de Gol, Henrique Constantino (editora Citadel, 256 págs, R$ 44,90)

Até então, meu desejo de escrever tinha o sentido de registro pessoal. Mas esse sentido cresceu ao longo do tempo. Passou a ter um significado maior quando fui envolvido em um esquema que se desdobrou para uma operação de busca e apreensão em minha residência em 2016. Fui exposto pessoalmente e tive a privacidade da minha família invadida.

Nesse momento, pude enxergar o meu gol contra. Cedi a uma facilidade, cometendo um erro de aceitar o caminho mais curto, ainda que movido por uma intenção legítima e correta. Estou pagando um preço alto, que me levou ao afastamento do conselho das empresas nos últimos quatro anos, por escolha própria.

Basta de aceitar. Se não fizermos nada, o jogo continuará a ser jogado desse modo. Quero que minhas cicatrizes sirvam não como motivo de orgulho, mas como uma forma de aprendizado a todos que tiverem a oportunidade de ler o meu relato.

Compreendi que a minha história neste livro era mais do que uma trajetória empresarial que deu certo. Surgiu um desejo genuíno – quase ingênuo – de tentar mudar o País e buscar uma sociedade mais justa.

O relato poderia ser uma orientação para as futuras gerações e um estímulo para melhorarmos a forma de nos relacionar empresarialmente. Dividi experiências, vitórias e derrotas. Felicidades e tristezas. E busquei contribuir para um país melhor. Mesmo que isso não aconteça, a minha experiência me anima a fazer o meu melhor. E a transmitir a sensação de que o trabalho íntegro e persistente sempre vencerá.

É escancarando a força e a fraqueza humana, expondo sucessos com a mesma honestidade dos fracassos, dividindo e assumindo as falhas com a franqueza e a intensidade com que exibimos nossos melhores atributos, que acredito na construção de um país mais promissor, harmônico e próspero.

Ao escrever esse livro, transformei um trauma pessoal em uma experiência compartilhada e me libertei de um peso em minhas costas. É claro que isso não me traz a redenção, mas sim o conforto de que estou buscando o caminho certo.

Fiquei mais leve, mesmo sabendo que isso pode me trazer um nível de exposição que nunca foi nem será uma zona de conforto. Não pretendo ser reconhecido por este livro. Mas espero que ele aumente na sociedade o desejo de fazer muitos gols, sempre a favor.

Nota da redação – Em 1º de julho de 2016, o empresário foi alvo da Operação Sépsis, que investigava esquema de propina na Caixa Econômica Federal operado por Lúcio Funaro para beneficiar políticos, entre eles o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (MDB-RJ). Um financiamento de R$ 300 milhões para obras de infraestrutura que uma de suas empresas pleiteava à Caixa Econômica Federal só deixou de ser barrado após pagamento de R$ 4,5 milhões ao operador do esquema. Em 2019, o empresário fez um acordo de colaboração premiada com o Ministério Público Federal do Distrito Federal.

Leia abaixo o primeiro capítulo do livro Desejo de Gol, Henrique Constantino (editora Citadel, 256 págs, R$ 44,90)

“Aqui é a Polícia Federal. Abre a porta!”

Dia 1º de julho de 2016, uma sexta-feira, seis horas da manhã.

Ouvi o barulho de uma campainha, lá no fundo. Pela intensidade, não era um toque comum. Pior. Vinha acompanhado de alguns gritos e batidas fortes. Meio sonolento, entre o sono da manhã e o despertar, os ruídos pareciam distantes num primeiro momento – faziam parte do sonho ou vinham da porta de entrada do apartamento? Os gritos e as batidas prosseguiam, pareciam mais intensos. Era real. E, sim, pela estridência e proximidade do barulho, só poderiam ser na porta do meu apartamento, em São Paulo.

Olhei o celular, vi as horas, recobrei a consciência. Algum funcionário de casa esqueceu as chaves?, pensei comigo mesmo. Não, está muito cedo. Eles chegam normalmente às sete horas. A rispidez e a intensidade do barulho confirmavam: era algo mais sério. A campainha continuou tocando de forma acelerada. Vanessa, minha esposa, também despertou, me olhou preocupada e perguntou, inquieta:

– Está escutando essa gritaria? O que houve? – questionou, com visível tensão.

A faceta sombria daquele despertar se revelou quando abri a porta do meu quarto e passei a ouvir os gritos de forma mais clara e mais forte.

– Polícia Federal. Abre a porta ou vamos arrombar – foi a frase definitiva, dita com uma voz masculina nada amigável, enquanto socos eram dados na porta de forma agressiva.

Parecia mais de um.

Percorri atordoado o corredor dos quartos que levavam à sala de estar. Os gritos prosseguiam.

– Polícia Federal. Abre logo a porra dessa porta ou iremos invadir – repetiu a mesma voz.

Escutei então uma segunda voz, igualmente agressiva:

– Somos da Polícia Federal, e se não abrirem logo a gente vai derrubar essa porta.

O recado não podia ser mais claro. Mas fiquei me questionando se aquela situação era real e se, de fato, aqueles homens eram mesmo da Polícia Federal. O elevador do prédio onde eu morava na época tinha bloqueio de segurança digital para acessar o andar, e os porteiros recebiam recomendação expressa, claro, para não deixar ninguém subir sem autorização de cada morador.

Aquela agressividade toda também não cheirava bem, um destempero e uma gritaria que tornavam irreal aquela situação. Pelo menos da forma como eu estava entendendo até aquele momento. Era uma situação atípica e inusitada para mim.

– Não vou abrir – disse-lhes com firmeza, respirando fundo, mas já desesperado com aquilo tudo. – O que me garante que vocês são realmente policiais?

Foi quando ouvi uma voz conhecida, até ali calada:

– Sr. Henrique, aqui é o segurança Sales. Pode abrir, que estou com eles e são mesmo da Polícia Federal.

Ainda muito confuso com toda aquela situação, resolvi abrir a porta. Mas antes lhes pedi para que ficassem calmos.

– Vou abrir, mas não precisam agir dessa forma. Acalmem-se.

Meu apelo foi inútil:

– Abre logo, ou vamos arrebentar – reagiram, voltando a bater com toda a força na porta, que chegava a balançar, como se fosse quebrar a qualquer instante com a pressão que faziam.

Abri. E, em seguida, entraram dois homens de supetão, mas com a força de um grupo cinco vezes maior. A porta não os acalmou, ao contrário. Entraram aos trancos e gritando:

– Henrique, onde estão armas?
– E os documentos?
– Cadê o dinheiro? Mostra o dinheiro!
– Quem mais está aqui?
– Preciso dos celulares. Me dê todos os celulares, rápido.

As perguntas e ordens se sucediam sem respiro, e eu não tinha nenhum tempo para respondê-las. Ou sequer para refletir sobre o que pediam ou perguntavam.

Um deles era franzino e um pouco menor. O outro era forte e truculento. Calculei terem entre 27/28 e 35 anos. Depois eu viria a saber que o mais franzino era delegado. O outro, um agente. O mais forte carregava uma metralhadora. Seu olhar e seus gestos emitiam um recado claro: estava pronto para atirar no inimigo. Ou, no mínimo, bater, se fosse o caso.

O inimigo ali era eu. E, para eles, naquele momento, eu era um bandido ameaçador. Pronto para ser abatido.

O grupo bufava de forma nervosa e, poucos segundos depois de entrarem, ainda enquanto faziam uma pergunta atrás da outra, entraram mais três pessoas – uma mulher e outros dois agentes.

Tentando manter o controle emocional, mas com o coração já saindo pela boca, pedi-lhes novamente que mantivessem a calma, pois eu precisava entender melhor o que estava acontecendo.

– Essa é uma operação de busca e apreensão – o delegado me explicou, com um tom um pouco menos brutal que aquele do início. – Precisamos de suas armas, dinheiro, documentos e celulares.

Me apressei em reforçar o pedido de calma:

– Fiquem tranquilos, não tenho a menor intenção de atrapalhar o trabalho de vocês. Só não precisam me tratar dessa forma. Não sou um bandido e entregarei tudo o que for preciso de forma pacífica.

Eles me olhavam com ceticismo. Continuei:

– Não há necessidade de ficar apontando essa arma pra mim. Não tenho arma em casa e qualquer bem de valor vai ser apresentado a vocês. Só peço calma.

Eu estava tão atordoado que nem sequer pedi para ver o documento do mandado. Só fui vê-lo de fato no final da apreensão. Até ali eu não sabia se se tratava de uma operação de prisão, de condução coercitiva ou de busca e apreensão, como de fato foi.

Quando pareciam que caminhariam para realizar o trabalho com mais calma, ouvimos um barulho vindo do meu quarto. Era minha esposa, levantando-se para ver a gritaria de perto. Tudo parecia longo demais, mas haviam se passado apenas alguns poucos minutos.

A tensão voltava à tona.

– Que barulho é esse? Quem você está escondendo? Tem mais alguém em casa? – perguntou um deles.

Expliquei que era minha esposa. Ela, felizmente, era minha única companhia naquele dia, pois, por felicidade do destino, nenhum dos nossos quatro filhos estava em casa.

A explicação, porém, não surtiu muito efeito. Depois de me ouvir, o agente saiu apressadamente pelo corredor dos quartos, aos gritos:

– Quem está aí?
Vanessa respondeu:
– Estou trocando de roupa e usando meu banheiro. Quem está perguntando?

O desespero era tanto que só deu tempo mesmo de colocar um roupão e sair o mais rápido possível.

Para buscar uma solução rápida para aquela gritaria, intervim na conversa. Disse a Vanessa que havia agentes da Polícia Federal em casa. Pedi-lhe para se trocar e sair assim que possível. O mais rápido que pudesse. Em seguida, reafirmei ao delegado:

– Peço calma, por favor. Não somos bandidos, não vamos causar dificuldade – pontuei, ressaltando em seguida que era obrigação deles tratarem qualquer cidadão de forma respeitosa e educada. Aquela maneira ofensiva era totalmente desnecessária.

Mesmo assim, o delegado insistiu, grosseiramente, que ela saísse logo do banheiro. Deu ordens para a imediata apreensão do telefone celular da minha esposa. E, por fim, me informou que apreenderia todos os equipamentos existentes no apartamento. Mesmo aqueles que não fossem meus.

– Onde está o celular? Os computadores? Os pen drives? – perguntou.
– Eu tenho o meu celular. Mas ele é meu – ela respondeu, com firmeza.
– Não importa – retrucou o delegado. – Estão apreendidos quaisquer aparelhos eletrônicos que estiverem dentro desta casa.
– Isso não faz o menor sentido, eu tenho minhas coisas pessoais – reagiu Vanessa.
– Entrega logo tudo antes que eu tome mais providências – endureceu o delegado.

Nesse momento, resolvi intervir de novo. Pedi que reduzisse o tom, pois entregaríamos tudo o que quisessem. Em seguida, pedi à minha esposa que entregasse o seu aparelho também.

– Ainda bem – respondeu o delegado, aliviado. Mas não inteiramente satisfeito. – Preciso de todas as senhas também. Quais são as senhas de cada celular?

Pegamos um papel e anotamos todas as senhas de acesso de ambos os celulares.

Aquilo me parecia algo claramente abusivo. Mas eram as ordens.

Tive a sensação, em alguns momentos, de que pareciam estar excessivamente pilhados. A adrenalina era muito grande.

Aos poucos, os ânimos foram se acalmando. Depois dos agentes, ainda apareceu também um promotor do Ministério do Público – este, um pouco mais velho, entre quarenta e cinquenta anos. Eles se acalmaram conforme viram que não tínhamos armas em casa, nem nos oporíamos a mostrar tudo. Oferecemos-lhes água e lanche. Mostramos as gavetas. E assim, diante de nossa atitude colaborativa, eles próprios passaram a se sentir mais seguros.

O próprio delegado chegou a pedir desculpas. Contou depois que toda ação de busca e apreensão é sempre bastante tensa, razão pela qual eles agiam dez tons acima do que qualquer um estaria acostumado. A truculência era a regra, até segunda ordem.

– Já enfrentamos situações em que um cara do outro lado da porta saiu atirando – explicou o delegado. – Logo, a gente nunca sabe o que vai de fato encontrar. A gente precisa então estar preparado pro pior.

O relato foi razoavelmente esclarecedor para mim, que definitivamente não estava acostumado à liturgia dessas operações policiais. E muito menos me imaginei sendo alvo de uma delas. Mas não apaga o exagero das ações e reações, afinal, mesmo diante da nossa clara disposição em ajudar, eles permaneciam excessivamente pilhados.

Policiais precisam aprender a lidar com os momentos de tensão, que fazem parte da rotina. Ações incertas e segredos fazem parte do cotidiano de muitos deles.

O delegado me contou que, em geral, eles não sabem ao certo o que farão. São convocados a estarem na sede da Polícia Federal às quatro horas da manhã. Às vezes passam a noite confinados. A partir daí, são informados dos endereços onde precisarão estar. Ou seja, só têm conhecimento da missão em cima da hora. E, invariavelmente, grupos distintos são informados sem saber que diversos endereços (e quais) fazem parte da mesma operação.

Na rotina da Polícia Federal, a instituição pode deflagrar uma operação apenas para coletar mais provas, sem necessariamente prender pessoas. A prática é feita por meio de mandados de busca e apreensão. Com eles, agentes podem entrar em residências, escritórios e empresas para apreender itens como documentos, notas fiscais, celulares, computadores ou quaisquer outros bens que a polícia julgue importante levar.

Eu não sabia naquela manhã, mas, no meu caso, foram três buscas: minha residência, meu escritório em São Bernardo do Campo e a casa da minha ex-mulher – algo surpreendente para mim, pois estávamos separados havia seis anos! Até o delegado se constrangeu ao saber disso:

– Nossa, que coisa chata – resumiu.

Busquei demonstrar compreensão com aquilo tudo, mas sem deixar de expor minha insatisfação com o jeito desnecessariamente incisivo e truculento. Mas, depois do sentimento de que estava ali como alvo de agressão excessiva, baixei a guarda. Não deve ser fácil também para eles.

***

Em momentos difíceis é que é possível conhecer melhor as pessoas. Aquele 1º de julho de 2016 foi especialmente educativo para mim. Foi ali que percebi a nobreza de minha esposa, que, mesmo passando por um dos piores traumas de nossas vidas, portou-se de maneira serena. Com seu olhar para mim, demonstrava que queria me matar naquela hora – de raiva, decepção, frustração. Por outro lado, no calor da situação, e depois do momento de maior tensão, fez de tudo para minimizar o impacto daquela situação. Vanessa se segurou de uma forma especial, o que fez com que os agentes inclusive pedissem desculpas ao final dos trabalhos.

Foram horas pavorosas e intermináveis. Da chegada violenta às seis da manhã até por volta das onze horas, quando eles deixaram meu apartamento, passamos por um momento traumático. Os policiais abriram rigorosamente todas as gavetas de todos os quartos. Retiraram todas as roupas, inclusive as íntimas, como cuecas, calcinhas, pijamas. Mexeram nos ternos. Abriram as camas. Avançaram sobre cofres e até mesmo geladeiras. Vistoriaram os carros e os armários. Vasculharam os livros e os relatórios. Com agilidade, mas sem pressa, fizeram uma grande devassa no meu apartamento. Invadiram a vida pessoal de nossa família – mesmo meus filhos não estando em casa, seus quartos foram profundamente mexidos e analisados. Não deixaram um centímetro da casa imune.

Com o perdão do clichê, me vi em uma cena cinematográfica, daquelas saídas de filmes policiais. Emocionantes, intensas, apavorantes.

Vanessa deixou o apartamento antes dos policiais.

– Conversamos melhor à noite – ela me avisou.

Quando eles foram embora, tomei um banho e segui para o meu escritório, que fica no bairro Vila Olímpia, na zona sul de São Paulo. Ali o delegado e os agentes apareceram por volta das treze horas. Foi uma visita mais tranquila do que o rompante da manhã. Pareceram mais gentis, e também mais cansados. Eu não tinha o que esconder e compartilhei um contrato que lhes interessaria. Colocaram tudo dentro de um envelope pardo, tipo malote, aquele costumeiramente usado em bancos e empresas que fazem transporte de arquivos importantes. Lacraram e partiram.

Para minha sorte, se é que se pode falar em sorte diante de uma situação daquelas, era uma sexta-feira. O fim de semana a seguir me ajudaria a me recompor, ou pelo menos reduzir o altíssimo grau de ansiedade. Estava assustado. Quando uma coisa dessas acontece, a sensação ao andar na rua é de que todos o reconhecem. Seu rosto e seu nome estão nos jornais e nas páginas da internet – e não pelos motivos mais nobres. Meu prédio foi filmado e fotografado. A sensação de julgamento e condenação pública é imediata e clara.

Ao longo do dia, conversei com meus filhos por telefone. Os dois filhos de Vanessa são os mais velhos; os meus, os mais novos. Conversei primeiro com os de Vanessa, que estavam em São Paulo. Pedi a eles que me apoiassem e confiassem em mim. Eu iria resolver da melhor forma possível. Meus erros, prometi-lhes, não iriam contaminá-los. Todos os quatro reagiram bem. Tiveram seus traumas. Conviveram com as sequelas naturais do caso, mas me apoiaram e seguiram a vida adiante. Com firmeza.

De volta a casa, naquela sexta-feira, Vanessa foi positiva e companheira, porém, bastante dura. Sem medir palavras, disse-me:

– Se você tiver intenção de fazer algo errado, a gente se separa agora mesmo.

Mas demonstrou apoio e se manteve firme e serena. Naquele dia. No fim de semana. Nos meses e anos seguintes.

***

Episódios assim deixam marcas severas no coração e na mente de alguém que não nasceu para ser criminoso. Depois daquela data, até hoje, todos os dias em que estou em São Paulo acordo às seis horas da manhã – o mesmo horário em que fui acordado com gritos e truculência atrás da porta.

Invariavelmente desperto, olho o relógio do celular e escuto as batidas na porta do apartamento. Passados vários anos, continuo com a lembrança daquele dia traumatizante. Daqueles momentos de tensão e pavor. Daquela sensação de impotência, deflagrada pela ordem de um juiz – no caso, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, atendendo a um pedido do então procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Com uma simples assinatura, Teori conseguiu virar minha vida do avesso, de um dia para o outro. Mais duro é saber que isso foi feito sem nenhum pedido prévio. Com um documento oficial, eu teria dado todas as informações de que precisavam. Bastava terem pedido, bem antes de mais uma operação espetaculosa que se espalhava país afora e envolvia diversas frentes. Mas, na dúvida, em se tratando de operações especiais e sigilosas, as atitudes daquele momento, certas ou não, eram tratadas de forma truculenta e na surdina.

Com tal rito, não importam os meios, e sim os fins. Todos éramos tratados como culpados por liminar. No fim, talvez eu compreenda que estavam desempenhando suas funções, mas, ao meu ver, a forma de atuação poderia ser diferente, já que a qualquer momento eu teria tido, como tive de fato, total desejo de colaborar com as investigações. O fato se consumou, mas as dores e cicatrizes serão eternas.

Admito: jamais serei a mesma pessoa após aquele 1º de julho de 2016. Acordar diariamente com o mesmo susto, como se repetisse aquele mesmo pesadelo todas as manhãs, é e continuará a ser a maior das minhas penas. É duro sentir a dor de ver sua companheira desolada e sua intimidade exposta violenta e aleatoriamente. Constatar a dignidade de minha família sendo questionada, como se todos fossem culpados pelos meus atos.

A sociedade costuma ser impiedosa nesses casos, e, por mais que eu me defenda, estarei condenado desde aquela indesejada visita. Ali, do dia para a noite, tudo o que já fiz de bom virou pó.

Mas reafirmo: fiz muitas coisas boas, mesmo sendo lembrado por esse episódio que levou policiais a minha casa. Por essa razão resolvi contar a história do maior empreendimento de que já participei – e comecei a história justamente com essa grande e radical guinada de minha vida.

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