Caso Carrefour: vidraças quebradas vão além das fachadas das lojas

O boicote de uma parcela dos consumidores, organizados ou não, é inevitável e será sentido nos próximos balanços. A companhia já começa a receber punições institucionais

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É impressionante como as instituições se apressam em sair em defesa dos bens privados no Brasil, muitas vezes priorizando-os em relação às vidas humanas. Não por acaso, desde 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, a polícia tratou logo de proteger as lojas do Carrefour e reprimir os protestos contra a morte de João Alberto Silveira Freitas, asfixiado na noite anterior por seguranças de um supermercado da rede em Porto Alegre.

E mesmo a imprensa preocupou-se em rapidamente separar o que era manifestação pacífica e o que era vandalismo. De fato, a sociedade tem medo da revolta. O que implicitamente revela a própria admissão de que está construída sobre uma estrutura social injusta, que perpetua desigualdades de toda a natureza e alimenta modelos mentais de segregação, como o racismo, o machismo e outras fobias.

As vidraças quebradas das lojas do Carrefour representam nosso pavor em reconhecer a nós mesmos como propagadores dessa realidade. A pedras arremessadas literalmente quebram o encanto do mito da sociedade brasileira pacífica e ordeira. O encanto que até o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, ele próprio com feições de mestiço, tenta preservar, ao dizer que não há racismo no Brasil.

A morte de João Alberto, um consumidor negro de 40 anos, na frente de sua esposa e das câmeras de testemunhas no estacionamento de um supermercado, foi ainda mais chocante justamente por ser um ato explícito. A verdade nua e crua ao alcance de todos. Pode-se investigar como começou, mas não é preciso procurar indícios de racismo, pois o fim trágico é de conhecimento público.

Contido e asfixiado por intermináveis quatro minutos sem qualquer intervenção para interromper sua agonia. E, como frisou a Anistia Internacional, a ação violou os princípios da legalidade, necessidade e proporcionalidade. Diria ainda, e de humanidade.

Lembro-me do post que publiquei em junho: Mitos e Verdades sobre racismo, machismo e ativismo corporativo, quando da revolta gerada nos Estados Unidos com a morte de George Floyd. Por infeliz ironia (não coincidência), reconheci a carga cultural racista e machista que carrego por ter me tornado adulto no Rio Grande do Sul. No artigo, reproduzi a fala de uma jovem ativista americana, Tamika Mallory:

“Estamos queimando [lojas] porque as pessoas aqui de Minnessota estão dizendo para as pessoas em Nova York, na Califórnia, em Memphis, em todos o país: ‘Já basta’. E não somos responsáveis pela doença mental infligida ao nosso povo pelo governo americano e por aqueles que têm poder. Não dou a mínima que eles queimem o Target porque o Target deveria estar nas ruas conosco, pedindo a justiça que o nosso povo merece”.

E a rede de supermercados Target nem estava diretamente envolvida na morte de George Floyd. Metaforicamente falando, as vidraças do Carrefour mal começaram a quebrar. No atual contexto social, os danos reputacionais da companhia no Brasil são irreparáveis no curto e no médio prazos. Talvez, depois de uma longa jornada de ações transformacionais, seja possível enxergar esse acontecimento como um marco de mudança de práticas empresariais.

O boicote de uma parcela dos consumidores, organizados ou não, é inevitável e será sentido nos próximos balanços. A companhia já começa a receber punições institucionais. Foi, por óbvio, excluída por tempo indeterminado da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, plataforma que reúne 73 organizações no Brasil.

Importante ressaltar que os temas de Direitos Humanos são os mais antigos da agenda de responsabilidade social. Portanto, fracassar em Direitos Humanos é a demonstração de um atraso colossal. E esse risco paira sobre muitas outras empresas brasileiras. É de se imaginar que todas, sem exceção, revisem imediatamente seus procedimentos e treinamentos de ponta a ponta. A própria avaliação de performance ESG expõe as rachaduras em suas vidraças.

A hoje badalada avaliação da performance ESG precisa também provar que é realmente séria. É inadmissível que as ações do Carrefour subam 0,49% na sexta-feira, dia seguinte ao crime. Os analistas e gestores de investimentos não foram capazes de começar a estimar os danos gerados à reputação da companhia e, por consequência, à sua licença social para operar, derrubando seu valor de mercado.

É bem possível que isso ocorra em breve, mas dificilmente será na proporção e maturidade esperadas, pois o mercado de capitais brasileiro adere ao movimento global ESG sem ainda ter plena consciência das implicações dessa nova realidade.

O Carrefour precisa demonstrar uma grande transformação, indo muito além do pedido de desculpas do CEO do Brasil, Noel Prioux, à sociedade, em anúncio transmitido na tevê aberta no sábado, ou da promessa de medidas rigorosas de Abilio Diniz, um dos principais acionistas no Brasil. O empenho da palavra dos líderes é bem vindo e importante, mas é preciso muito mais.

Causou péssima impressão, por exemplo, visitar o site do Carrefour no final de semana e encontrar o usual ambiente de e-commerce, com ofertas de produtos e promoções. Esperava ver uma tela preta em luto e a reprodução do pedido de desculpas à sociedade brasileira. Quando estamos consternados, toda a nossa energia é drenada por esse sentimento, nada é mais importante. Assim são as pessoas, assim devem ser também as organizações.

Qualquer perda no curto prazo não se compara com o dano que somente se agrava com o passar das horas e dias. A empresa precisa deixar claro qual é a sua prioridade. A meu ver, deveria ser recuperar a credibilidade e a licença social para operar diante de toda a sociedade brasileira, mas principalmente, diante da maioria de negros e pardos do Brasil.

(Correção: a primeira versão deste artigo continha a informação de que o Carrefour fazia parte do índice ISE, da B3. A empresa, na verdade, não faz parte)

Álvaro Almeida é jornalista especializado em sustentabilidade. Diretor no Brasil da consultoria internacional GlobeScan, sócio-fundador da Report Sustentabilidade, agência que atua há 17 anos na inserção do tema aos negócios. É também organizador e curador da Sustainable Brands São Paulo, integra o Conselho Consultivo Global desta rede de conferências e participa da Comissão de Sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

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