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Casper, a startup dos colchões, pode tirar o sono dos investidores

Empresa que vende colchões direto pela internet vai abrir o capital nos EUA e deve ser a primeira a testar o apetite do mercado por startups deficitárias. Avaliada em US$ 1,1 bilhão, especialistas duvidam do sucesso da operação. Neil Parikh, cofundador da empresa, detalha os planos ao NeoFeed

 

Os colchões da Casper são entregues em caixas de papelão do tamanho de um frigobar

A Casper, uma startup especializada em colchões, criou um modelo de negócio revolucionário para seguir à risca o velho ditado: criar a fama para deitar na cama. E com isso “despertou” grandes investidores.

Fundada em 2013, a companhia com sede em Nova York já levantou US$ 339,7 milhões com empresas do calibre da Target e celebridades como Leonardo DiCaprio, Ashton Kutcher e o rapper 50 Cent.

Mas agora, a startup que vende colchões embalados em pequenas caixas diretamente para o consumidor pela internet, tem talvez o maior desafio de sua vida: convencer os investidores de que seu modelo de negócio é viável.

No começo de janeiro, a Casper deu entrada com seus papéis para uma abertura de capital na Bolsa de Nova York. O problema é que a companhia é deficitária. Em 2018, ela faturou US$ 357 milhões e teve um prejuízo de US$ 91,9 milhões. Nos nove primeiros meses de 2019, segundo o prospecto, as perdas somaram US$ 67,3 milhões.

A Casper deve ser a primeira empresa a testar o humor dos investidores em 2020. No ano passado, as ações de empresas de tecnologia que foram à bolsa de valores subiram, em média, 8%, bem abaixo do índice Nasdaq Composite, que avançou 38%.

Entre nove companhias que captaram mais de US$ 1 bilhão, os papéis dos aplicativos de transporte Uber e Lyft terminaram 2019 sendo negociados com uma desvalorização superior a 30%. As ações da SmileDirectClub, por exemplo, desabaram mais de 60% em relação ao preço do IPO.

Ir à bolsa será mais um desafio para Philip Krim, um dos cofundadores da Casper. Ele desenvolveu um colchão com camadas de espumas e uma tecnologia patenteada que torna possível enrolar o produto e embalá-lo em uma caixa de papelão do tamanho de uma mini-geladeira.

“O que a Nike fez pelos esportes, a Whole Foods fez pelos alimentos orgânicos, queremos fazer pela indústria do sono”, disse Krim, em entrevista à CNN, no ano passado.

“O que a Nike fez pelos esportes, a Whole Foods fez pelos alimentos orgânicos, queremos fazer pela indústria do sono”, disse Krim, em entrevista à CNN, no ano passado

Além de maior facilidade de transporte e logística, o modelo da Casper ainda “corta” o intermediário e entrega preços mais competitivos. As opções de colchões disponíveis na página da Casper começam em US$ 356, mas eles podem passar de US$ 2 mil cada, dependendo do tamanho e do modelo escolhido.

Outra “sacada” que agradou em cheio o público foi os 100 dias de “teste”. Se durante esse período o usuário não aprovou o colchão Casper adquirido, a marca garante a devolução integral do dinheiro e ainda arca com os custos de envio para retornar a peça.

Todo esse ecossistema bem pensado fez com que a companhia já nascesse “de pé”. Em entrevista ao NeoFeed, o cofundador e chief strategist officer da Casper, Neil Parikh relembra que a startup vendeu 100% de seu inventário no primeiro dia que o site foi ao ar, em abril de 2014. “Tínhamos apenas 40 colchões, mas ficamos surpresos mesmo assim”, diz Parikh, eleito pela revista Fast Company uma das pessoas mais criativas do mundo.

Mesmo com a estreia acima da média, a equipe ainda mantinha os pés no chão e traçou a meta de vender US$ 1,8 milhão no primeiro ano. “Mas batemos essa marca em apenas dois meses”, afirma o cofundador da Casper.

A boa aceitação do mercado, contudo, deslanchou mesmo foi com um post no Instagram, em 2015. A mega influenciadora Kyle Jenner, irmã de Kim Kardashian, compartilhou na rede social uma foto em que aparece junto a uma caixa do colchão Casper. “A foto que ela (Kyle) postou teve mais de 850 mil likes e acho que chegou a derrubar nosso site”, relembra Parikh.

Além de ser deficitária, a Casper tem outros problemas para provar seu modelo de negócio. Antes reinando sozinha, a empresa de Krim hoje tem de enfrentar startups com o mesmo modelo de negócio, como a Leesa Sleep, que captou mais de US$ 30 milhões com grandes investidores, e a Purple Innovation, cujo valor de mercado beira os US$ 250 milhões. Tuft & Needle e Eight Sleep são outros dois players que vem ganhando espaço no segmento.

Paralelo a essas novatas, gigantes já consolidadas também querem seu lugar ao sol – ou melhor, na cama. A Walmart lançou sua própria marca de colchões com venda online, a Allswell. A Amazon, por sua vez, ampliou seu pool de opções vendendo também modelos da sua AmazonBasics e Rivet.

Esses ingredientes são fatores determinantes para que especialistas do mercado duvidem da capacidade de a Casper abrir o seu capital. O professor Scott Galloway, da Universidade de Nova York, em um extenso artigo publicado no site Business Insider, defende que o negócio da Casper não é algo para o mercado de ações e que, caso opte por esse caminho, seus papéis devem despencar 30% ou mais ainda no primeiro ano.

Galloway é uma voz bastante ouvida nos Estados Unidos. Nos últimos tempos, ele alertou os investidores sobre os riscos da abertura de capital da Uber e da WeWork. E, como se sabe, o especialista tinha razão. De acordo com ele, o caminho mais sensato da Casper seria a venda para uma companhia menor.

Em 2017, o Walmart tentou comprar a companhia por US$ 1 bilhão, mas o negócio não foi fechado. A gigante do varejo optou por ser apenas mais uma generosa investidora, colocando US$ 175 milhões no negócio.

De acordo com artigo publicado pelo New York Post, a cifra oferecida pela Walmart era um pouco menor: US$ 900 milhões. Krim declinou a proposta por ser “obcecado” pelo status de unicórnio, quando uma startup atinge ou ultrapassa o valor de US$ 1 bilhão.

Hoje, a Casper é avaliada em US$ 1,1 bilhão. O mesmo jornal, contudo, menciona que essa cifra pode derreter caso a companhia insista na ideia de IPO.

Para diversificar seu negócio e gerar mais possibilidade de receita, a Casper passou a vender também travesseiros e roupa de cama. Mas, pela matemática, a conta ainda não fecha.

Galloway ilustra que, para vender um colchão de US$ 1.362, a empresa de Krim perde US$ 349, porque investe US$ 761 na produção, US$ 480 em marketing e US$ 470 de custos administrativos.

Num momento onde os investidores estão particularmente impacientes com empresas sem perspectiva de lucro no horizonte, os especialistas acreditam que a Casper precisa fazer melhor sua lição de casa e recalcular essa trajetória. Para isso, nada melhor que um dia após o outro, com uma noite bem dormida no meio.

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