Com dinheiro do BTG, Gran Cursos Online vai “prestar vestibular” para novas áreas

Considerada a “Netflix dos concursos públicos”, edtech vai investir em graduação e cursos de programação, após aporte de fundo de impacto do BTG Pactual. O fundador Gabriel Granjeiro explica a estratégia para avançar nessas novas frentes

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Gabriel Granjeiro, CEO e fundador da Gran Cursos Online

Ao longos dos últimos nove anos, a Gran Cursos Online criou um negócio que formou mais de 1 milhão de alunos em sua plataforma e conta, atualmente, com 366 mil estudantes de preparatórios para concursos públicos e provas profissionais, como exames da ordem dos advogados e de residência médica.

Essa expansão, acelerada com a pandemia, foi feita com recursos próprios da dupla de fundadores, os empreendedores Gabriel Granjeiro, que criou a empresa quando tinha 20 anos, em Brasília, e Rodrigo Calado. Sem investidores, eles criram uma empresa cujo faturamento estimado é superior a R$ 300 milhões pelo mercado.

Agora, a Gran Cursos Online, considerada a “Netfllix dos concursos públicos” por cobrar uma assinatura que dá acesso a milhares de cursos, quer “prestar vestibular” para novas frentes, após aporte do fundo de private equity de investimentos sustentáveis e de impacto do BTG Pactual, em maio deste ano, cujo valor não foi revelado.

“Queremos investir em graduação e em cursos de programação”, diz Granjeiro, ao NeoFeed. “Iremos para outros segmentos mas sem perder a fortaleza onde sempre nos destacamos.”

Na área de graduação, o alvo são cursos de gestão pública, de recursos humanos e de administração, áreas que são muito procuradas pelos brasileiros. Granjeiro diz que pode montar as estruturas do zero, como também não descarta adquirir ativos. De acordo com o fundador da Gran Cursos Online, várias negociações estão em andamento.

“O nosso diferencial vai ser trazer um conteúdo mais aplicado ao mundo real”, diz Granjeiro. “Uma dor dos estudantes é sair da faculdade e não conseguir emprego.”

É por esse motivo que uma das apostas da Gran Cursos Online vai ser os cursos de programação, uma área com grande carência de profissionais. O déficit estimado de desenvolvedores está em 408 mil profissionais até 2022, de acordo com pesquisa da Softex, uma organização voltada ao fomento da área de TI que integra o Projeto TechDev Paraná.

A edtech vai reforçar também a sua pós-graduação, que começa a dar os primeiros passos neste ano, um projeto em parceria com a Unimais. Novos cursos serão lançados em 2022, como direito, saúde, educação, tecnologia, entre outros. No total, serão 33 cursos.

Por que Granjeiro quer diversificar a área de atuação para além dos preparatórios para concursos públicos, um segmento que conta com 11 milhões de brasileiros interessados em fazer uma carreira pública, como delegado, bombeiro e promotor de Justiça?

A resposta é simples. O fundador da Gran Cursos Online quer aumentar o tíquete médio gasto pelos estudantes, bem como o tempo médio que um aluno fica em sua instituição. Hoje, o aluno fica em média 18 meses na Gran Cursos Online.

O estudante paga uma mensalidade que fica na casa dos R$ 99, e tem o direito de acessar todos os cursos disponíveis, um universo que contempla milhares de concursos de diversas esferas públicas, que vão de técnicos da Receita Federal, passando por carreiras no ICMBio  no Tribunal de Contas da União e na Polícia Militar de diversos estados.

Todos os alunos têm acesso às 142 mil videoaulas e a mais de 33 mil livros digitais. Um banco de dados com quase 1,6 milhão de questões auxiliam os estudantes a tirar suas dívidas.

“A nossa tese é da expansão pautada pela ideia do ensino continuado”, afirma Granjeiro. “O aluno faz uma preparação para um concurso de nível médio, passando por graduação, MBAs e especializações.”

A ideia, nessas novas áreas, é usar toda a infraestrutura construída ao longo dos últimos nove anos. A Gran Cursos Online conta com 17 estúdios de tevê, em Brasília, onde são gravadas as aulas. Os professores parceiros, que são mais de 600, têm também 50 home estúdios, para preparar os cursos de suas casas.

Estúdio da Gran Cursos Online

Para atrair os alunos, a Gran Cursos investiu pesado nas redes sociais e em aulas gratuitas por meio de seus canais online. O seu Instagram tem 1,9 milhão de fãs e o YouTube conta com 1,7 milhão de inscritos. Por este canal, a empresa faz, em média, 40 lives diárias com professores. A intenção é oferecer sempre a primeira aula sem nenhum custo e “fisgar” o aluno para o conteúdo pago via a assinatura.

A diversificação para além dos concursos públicos, no entanto, não será uma missão fácil. “O mercado está ficando cada vez mais difícil com a moda de cursos online depois da pandemia”, diz William Klein, CEO da consultoria Hoper Educação.

Além das faculdades tradicionais, muitas delas com capital aberto na bolsa de valores, como Cogna, Yduqs, Ser e Ânima (que também apostam no mundo online), a Descomplica, que recebeu aporte de R$ 450 milhões do Softbank em fevereiro deste ano, e começou a atuar nessa área.

Com os recursos, a Descomplica, comprou a UniAmérica, em junho deste ano, e atingiu 10 mil estudantes em graduação com o negócio. Em 2022, a meta é conquistar 50 mil. “A Descomplica conta com um marketplace que é perfeito para vender cursos de graduação”, diz Klein, referindo-se ao fato de a edtech ter milhares de alunos que estudam para o Enem, vestibular para muitas universidades públicas.

Outra fator de atenção para a Gran Cursos Online, na visão de Klein, é que o mercado de educação regulado exige também a construção de marcas fortes. “Quem atua com preparatório para concursos trabalha com a grande massa”, diz Klein. “O mercado regulado exige um conhecimento completamente diferente.”

Para Granjeiro, uma das vantagens da Gran Cursos Online, é o fato de ser geradora de caixa e lucrativa, o que permite investir nessas novas áreas. Além disso, com o aporte do BTG Pactual, a edtech está montando um time executivo experiente para tocar essa diversificação, além de ter recursos para fazer aquisições, o que pode acelerar a estratégia.

“Nossa visão sempre foi criar uma holding educacional, com o uso de tecnologia”, afirma Granjeiro. “O ensino regulado, de graduação e pós-graduação, é ensinado há séculos do mesmo jeito no Brasil.”

Granjeiro criou a Gran Cursos online depois de ser recusado em um estágio de um banco de investimento. Ele era estudante de finanças na Nova York University e estava no Brasil de férias.

Na época, seu pai era dono de um preparatório de concursos tradicional. Ele resolveu se unir a Rodrigo Calado, que cuidava da parte de tecnologia da escola familiar, e apostar as fichas no ramo em que a família tinha tradição. Só que de forma online.

No fim de 2012, o Gran Cursos Online estreava e se beneficiou de concursos públicos que foram anunciados em janeiro do ano seguinte. “Isso deu um gás para a gente”, afirma Granjeiro. Mas os primeiros anos, como diz o empreendedor, foram difíceis. A empresa avançou, apesar do negócio online, “tijolo a tijolo”, segundo as palavras do empreendedor.

A virada começou a acontecer em 2015, quando a Gran Cursos Online criou a assinatura ilimitada no estilo da Netflix. Agora, a edtech quer levar essa experiência para novas frentes. Será que vai gabaritar?

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