Como lidar com o tempo na era das demandas impossíveis, distrações implacáveis e crises globais

No instigante “Quatro mil semanas”, selecionado como o livro de 2021 pelo Financial Times, The Guardian e The Observer e que sai agora no Brasil, o escritor inglês Oliver Burkeman leva o leitor a refletir sobre a finitude e a se empenhar na melhor gestão do tempo que lhe resta

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Sabia que os primeiros humanos modernos apareceram nas planícies da África há pelo menos 200 mil anos e os cientistas estimam que a vida, em alguma forma continuará a existir por mais 1,5 bilhão de anos ou mais, até que o calor cada vez mais intenso do Sol condene à morte o último dos organismos? Mas, e quanto a você que nos lê? Quem tem o privilégio de chegar aos 80 anos, terá vivido cerca de 4 mil semanas. Se tem 40 anos, restam apenas 2 mil.

Com sorte, pode ir até os noventa anos e terá tido quase 4700 semanas. Ou acertar na loteria da vida, como aconteceu com a francesa Jeanne Calment, a mulher que, acredita-se, tinha 122 quando morreu, em 1997 – seria, portanto, a mulher mais velha de que se tem registro.

Ainda lúcida, Jeanne dizia que se lembrava de ter se encontrado com Vincent van Gogh e que ele cheirava a álcool. Mesmo assim, até mesmo ela só teve cerca de 6400 semanas, Certamente, foram inúmeras as vezes em que você se pegou pensando na finitude da vida e o que gostaria de fazer até lá, não é mesmo?

Para o escritor inglês Oliver Burkeman, de 47 anos de idade, colunista no The Guardian, a existência humana é “ridiculamente” curta. Segundo ele, confrontar o quanto vivemos — “e o pouco controle que temos sobre a existência” — pode ser visto como chave para uma vida prazerosa e significativa.

O primeiro passo nesse sentido é ler seu “Quatro mil semanas – Gerenciamento de tempo para mortais”, selecionado como o livro do ano passado pelos conceituados jornais Financial Times, The Guardian e The Observer. A obra é um daqueles achados que ficam na cabeça por muito tempo e chega ao Brasil este mês pela Editora Objetiva.

A edição tem sido descrita como uma reflexão inspiradora e realista sobre o caminho alternativo para as pessoas abraçarem seus limites em uma época em que precisariam pelo menos 40 horas por dia para conseguir relaxar. Na introdução, ele escreve: “Expressar essa questão em termos tão chocantes torna fácil entender por que filósofos desde a Grécia Antiga até os dias atuais consideraram a brevidade da vida o problema que define a existência humana”.

Ele lembra que foram concedidas aos humanos a capacidade mental para fazer planos quase infinitamente ambiciosos, mas nenhum tempo para colocá-los em ação. “Este espaço de tempo que nos foi dado passa tão veloz e rapidamente que todos, salvo muito poucos, encontram o fim da vida justamente quando estavam ficando prontos para viver”, lamentou Sêneca, o filósofo romano, na carta conhecida hoje sob o título Sobre a brevidade da vida, citado por Burkeman.

A intenção do autor é propor ao leitor uma reflexão e que passe a fazer uma gestão do seu tempo. “Numa definição ampla, (o tempo) deveria ser a principal preocupação de cada um de nós. Possivelmente, o ato de gerenciar o tempo é tudo que a vida é.

Mas todo mundo faz isso, não? Não da maneira correta ou ideal, escreve. “Essa disciplina moderna — assim como sua prima mais descolada, a produtividade — é um caso de deprimente estreiteza mental, focada em como avançar de forma mecânica por meio do máximo possível de tarefas de trabalho, como conceber a rotina matinal perfeita, como preparar todos os jantares da semana de uma só vez nos domingos”. Segundo o autor, essas rotinas importam em certa medida, sem dúvida, mas dificilmente são tudo que importa.

Oliver Burkeman: ser humano tem 4 mil semanas de vida

O que ele quer mesmo é chamar atenção para que se dê uma freada na rotina alucinada do dia a dia. O mundo, diz o jornalista, está repleto de maravilhas, porém é o “raro guru da produtividade” que parece ter considerado a possibilidade de que o principal objetivo de todo o nosso frenético fazer poderia ser experimentar mais dessas maravilhas. “O mundo também parece estar indo de mal a pior — nossa vida se tornou insana, uma pandemia paralisou a sociedade, e o planeta está ficando cada vez mais quente”.

Pesquisas confiáveis, prossegue ele, demonstram que estamos nos sentindo mais pressionados em relação ao tempo do que jamais estivemos. É o que chamam de epidemia de ocupação, uma pressão por encaixar quantidades sempre crescentes de atividade numa quantidade não crescente de tempo diário. Uma mudança de comportamento nesse sentido é que a atenção a tudo encolheu a tal ponto que mesmo aqueles que devoravam livros quando crianças agora lutam para completar um parágrafo sem experimentar um impulso de pegar o celular.

Isso deve ser visto como preocupante porque representa um fracasso em fazer o melhor uso possível de um pequeno suprimento de tempo. O isolamento provocado pela pandemia ao menos fez aos pessoas repensarem não apenas na brevidade como na fragilidade da vida. “Em 2020, com nossas rotinas normais suspensas, muita gente relatou ter sentido que o tempo estava se desintegrando por completo”, fez surgir a desorientadora impressão de que os dias estavam, de algum modo, passando correndo e ao mesmo tempo se arrastando interminavelmente.

O tempo nos dividiu, diz ele, ainda mais do que antes. “Para os que tinham emprego e filhos pequenos em casa, não havia tempo bastante; para os licenciados ou desempregados, havia tempo demais”. Segundo suas palavras, as pessoas se viram trabalhando em horas estranhas, apartadas dos ciclos de luz diurna e escuridão, curvadas sobre notebooks em casa ou arriscavam a vida em hospitais e supermercado ou em sistemas de entrega a domicílio. “Era como se o futuro tivesse sido posto em modo de espera, deixando muitos de nós emperrados, nas palavras de um psiquiatra, ‘num novo tipo de eterno presente’”.

Surgiu um ansioso limbo de mídia social, com “desconexas chamadas pelo Zoom e insônia, no qual parecia ser impossível fazer planos significativos ou “mesmo enxergar com clareza como seria a vida após o próximo fim de semana”. Por causa de toda essa tecnologia que pretende nos ajudar a ter o controle do tempo, por qualquer lógica sã, num mundo com lavadoras de louças, micro-ondas e motores a jato, o tempo deveria parecer mais expansivo e abundante, graças a todas as horas liberadas. Ninguém, porém, tem essa experiência real. Em vez disso, a vida se acelera, e todos ficam mais impacientes.

O escritor criou uma obra que acaba por se adequar ao esforço de se compreender esses tempos de pandemia. “Vivemos na era de demandas impossíveis, escolhas infinitas, distrações implacáveis e crises globais. E a maioria dos conselhos sobre produtividade, assim como outras mensagens modernas sobre o tempo, só piora as coisas”. Para ele, a busca por uma ilusória negação de limites deixa todos mais ocupados, distraídos e isolados uns dos outros, “Ao mesmo tempo, “adiamos as partes verdadeiramente importantes da vida para algum lugar no futuro, que parece nunca chegar”.

E o livro segue com reflexões sobre contradições e absurdos, como o fato de que durante quase toda a história, a questão de ser rico era não ter que trabalhar tanto. Só que isso nunca acontece. Ao contrário. Burkeman observa que escreveu um livro que quer fazer o leitor enxergar a importância de se reconsiderar sua relação com o tempo e construir vidas que façam justiça à ultrajante brevidade — e às maravilhosas possibilidades — de o tempo médio que todos podem alcançar: quatro mil semanas.

Um livro admiravelmente honesto, definiu Mark Manson, autor do best-seller “A sutil arte de ligar o f*da-se”. Na obra, completa ele, o autor construiu “uma avaliação crucial sobre as absurdas suposições de nossa cultura em relação ao trabalho, à produtividade e à vida significativa”.

Serviço:
Quatro mil semanas: Gestão de tempo para mortais
Oliver Burkeman
Editora ‎ Objetiva
286 páginas
R$ 74,90
Lançamento 27/6

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