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Compreendendo os “detalhes tão pequenos” do Rei Roberto Carlos

Roberto Carlos faz 80 anos. O cantor mais popular do Brasil segue no pedestal que construiu para si próprio – com apoio dos fãs. Dois livros revelam os últimos detalhes desconhecidos do gênio vocal

 

Roberto Carlos em ação: o cantor e compositor faz sucesso há mais de seis décadas (Foto: Silvana Garzaro/Estadão Conteúdo)

Quando uma pessoa completa 80 anos, e passou 64 destes em exposição pública, pouco ou nada há para dizer sobre ela, em especial quando se trata de um ídolo popular do porte do cantor Roberto Carlos – chamado desde os anos 1960 no Brasil de Rei da Jovem Guarda, ao feitio do título de Elvis Presley, o Rei do Rock.

Mas, por mais que esses títulos soem exagerados e fantasiosos, a efeméride também assinala o momento para o balanço da carreira e da contribuição do artista, além de uma ocasião para revelar detalhes de vida que possam ter passado despercebidos ao longo dos anos.

Nas comemorações que mobilizam o público brasileiro e sua memória afetiva, uma série eventos acontecem a partir de 19 de abril, a data em que Roberto Carlos Braga nasceu, em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, no ano de 1941, quarto filho da costureira Laura Moreira Braga (a Lady Laura homenageada em uma canção de sucesso) e do relojoeiro Robertino Braga.

Dessa vasta quantidade de festas, destacam-se dois lançamentos que se propõem apresentar, com rigor e seriedade, uma revisão da carreira: a biografia “Roberto Carlos: Por isso essa voz tamanha”, de Jotabê Medeiros, e o ensaio “Querem Acabar Comigo”, de Tito Guedes. As duas pesquisas, cada uma a seu modo, ajudam a compreender melhor Roberto, a partir de perspectivas que abrangem uma longa duração.

Roberto amealha hoje um acervo de mais de 500 canções (algumas clássicas), 43 discos de carreira (muitos célebres), 140 milhões de discos vendidos, centenas de apresentações que acontecem continuamente desde 1966, além de aparições em rádio, televisão, internet e redes sociais que não permitem que o público se esqueça dele. Seria injusto, não? Afinal, ele nunca deixou de expandir o seu universo.

A investigação de Medeiros, um admirável repórter cultural devotado à música, sem deixar de valorizar o jornalismo investigativo e baseado em fontes primárias, é mais ambiciosa. Ele retrata o percurso criativo a partir de um momento de virada na formação do artista, e investiga as vivências e gostos juvenis que se tornariam determinantes na consolidação de sua carreira.

Apoiado em centenas de entrevistas e enorme documentação, Medeiros retoma o método que adotou para publicar duas outras biografias de sucesso: a dos cantores Belchior e Raul Seixas.

“Acredito que toda pessoa sempre possui, em sua trajetória, um momento crucial em que ela faz certas escolhas e é colocada frente a uma espécie de encruzilhada”, diz Medeiros. “Parece autoajuda, mas sempre que iniciei a pesquisa em torno de um personagem, cheguei a esse vislumbre.”

Foi assim que ele ressaltou a influência da experiência como frade franciscano na carreira de Belchior, e detectou a dualidade de Raul Seixas, dividido entre o artista transgressor e o produtor de gravadora pragmático, em busca do sucesso. “Ele descobriu que era, ao mesmo tempo, o médico e o monstro”, diz Medeiros sobre Raul.

Roberto Carlos viveu não um, mas alguns momentos cruciais na sua formação

Durante o levantamento de fontes e a realização de entrevistas, Medeiros descobriu que Roberto Carlos viveu não um, mas alguns momentos cruciais na sua formação. “Ele se relaciona com a turma da Rua do Matoso [os amigos do subúrbio do rock do Rio, entre eles Tim Maia] de uma forma distanciada, como se fosse um observador, mas absorve de seus companheiros elementos cruciais para o desenvolvimento de seu trabalho”, diz.

“Depois, ele cruza com a turma da bossa nova num cenário meio conflituoso, mas também extrai dali, e do convívio com João Donato, Claudette Soares, Barriquinha e outros, elementos que vai usar em sua obra futura. Ele se desvencilha de Carlos Imperial quando vê que aquilo ali não vai levá-lo aonde quer. Tem uma capacidade de mobilidade e autogestão muito grande.”

Uma das descobertas de Medeiros se refere ao papel que a música negra americana, em especial a soul music, exerceu sobre o cantor. “Ele passou a frequentar, no final dos anos 1960, o Apollo Theater, no Harlem, em Nova York, quando ia à cidade, somente para ouvir a nata da música negra americana, e chegou a obrigar a banda dele a ir consigo para aprender”. Também revela a história da criação da canção “Força Estranha”, “que ninguém sabia e agora saberá”.

O livro do jovem pesquisador Tito Guedes, acompanha as fases da trajetória de Roberto a partir de como sua música foi recebida e repercutida pela crítica musical. Em pesquisa nos periódicos dos anos 1950 aos 2000, Guedes trouxe à tona textos esquecidos, mas que indicam que Roberto passou por modismos de opinião e, muitas vezes, sofreu a reprovação dos puristas.

Não, Roberto nunca foi unanimidade, embora tenha se esforçado para alcançar tal condição. Segundo Tito Guedes, ele viveu uma espécie de oscilação de modismos, acompanhada pelo carrossel mutante das reações da crítica.

A oscilação vem justamente do longo tempo que Roberto Carlos permaneceu em destaque na música popular – poucos artistas no mundo conseguiram se manter tão ativos em discos e na mídia como ele por tanto tempo”, afirma Guedes. “Portanto, o discurso da crítica acompanha e é reflexo de seu tempo histórico. E é influenciado, claro, pelas próprias mudanças operadas por Roberto em sua carreira.”

Poucos artistas no mundo conseguiram se manter tão ativos em discos e na mídia como Roberto Carlos por tanto tempo

Guedes demonstra que, nos anos 1960, ápice da Jovem Guarda, ele era quase ignorado pelos críticos. Quando mencionado, era visto como uma moda passageira. “Era encarado como um cantor de extremo mau gosto, associado a uma juventude que estaria se ‘perdendo’ por ouvir aquele tipo de música”, analisa Guedes.

Quando virou cantor romântico, nos 1970, a crítica o tolera como um personagem de relevância no cenário musical e chama atenção sobre suas virtudes como intérprete. “Mesmo assim, ainda rechaça muitas outras, como o diálogo com o popular e seu caráter comercial”, afirma o pesquisador.

A partir dos anos 1980, a crítica contra-ataca com o argumento mais recorrente que ela costuma usar, o de que Roberto seria “repetitivo” e “acomodado”, reprisando fórmulas e transformando-as em clichês.

A virada de opinião acontece na década de 1990, quando, ao lado dos puristas, alguns críticos voltam a ouvir a obra antiga de Roberto, sobretudo do fim dos anos 1960, “e agora a elege como ‘obras primas’ ou o período ‘áureo’ da sua carreira.

Diante de vaivéns de carreira e de opinião, qual o segredo do legado da manutenção do oitentão roqueiro, soul romântico, sertanejo no pódio da música brasileira? Guedes responde que a contribuição está na obra: “São músicas que certamente ainda viverão por muito tempo no imaginário popular e que engrandeceram nossa música popular.”

Para Medeiros, o segredo reside no perfeccionismo. “Esta qualidade tem dois lados: ajudou a fixar um padrão de qualidade elevado, mas também congelou a espontaneidade”, afirma.

“Roberto Carlos: Por isso essa voz tamanha”, de Jotabê Medeiros. Todavia, 512 páginas, R$ 84,90 (livro impresso) e R$ 49,90 (digital).

 

 

“Querem Acabar Comigo – Da Jovem Guarda ao trono, a trajetória de Roberto Carlos na visão da crítica musical”, de Tito Guedes. Máquina de Livros, 142 páginas, R$ 42 (livro impresso) e R$ 28,90 (digital).

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