Desafeto de Putin, cineasta russo enfrenta o Kremlin e leva filme com Tchaikovsky gay para Cannes

Na última semana, durante a 75ª edição do festival de cinema francês, o russo Kirill Serebrennikov apresentou “Tchaikovsky’s Wife”, retratando o compositor, um tesouro cultural de seu país, como homossexual, o que o Kremlin sempre quis esconder

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Cena do filme “Tchaikovsky’s Wife”

Chamado de “l’enfant terrible” do cinema russo, Kirill Serebrennikov usou a arte na última semana para provocar o governo de Vladimir Putin. Nesta 75ª edição do festival de Cannes, o maior do mundo no gênero, o diretor apresentou um ícone cultural do Kremlin, o compositor Pyotr Tchaikovsky (1840-1893), como gay.

“Tchaikovsky’s Wife” (A Esposa de Tchaikovsky), que concorre à Palma de Ouro, é o que se pode considerar uma afronta ao governo russo. E não só porque o Kremlin sempre tentou esconder a orientação sexual do compositor, um tesouro do país e um dos nomes mais reconhecidos mundialmente da música clássica.

Desde 2013, a Rússia proíbe a “propaganda homossexual” – a princípio, entre menores. A legislação, no entanto, acaba encorajando a atmosfera política homofóbica e reprimindo a liberdade de expressão.

“Não recebo dinheiro do Estado desde que eu era estudante”, contou Serebrennikov, lembrando que usou recursos privados para realizar o filme. Ele conta que, em 2012, quando apresentou o projeto ao ministro russo da Cultura, Vladimir Medinsky, que ouviu do mesmo que o governo precisava de um “filme sobre o Tchaikovsky heterossexual e não homossexual”.

Desde então, Serebrennikov ficou na mira do governo russo, que considerou retratar como gay um orgulho nacional como Tchaikovsky uma atitude antipatriótica. Em 2017, o cineasta foi acusado pelas autoridades locais de suposta fraude, envolvendo desvio de dinheiro no Centro Gogol, grupo de teatro avant-garde que ele dirigia em Moscou.

Por conta da acusação, Serebrennikov passou quase três anos em prisão domiciliar, ordem que foi suspensa em abril do ano passado. Isso o impediu de promover pessoalmente as suas obras anteriores selecionadas para Cannes, “Leto” (2018) e “Petrov’s Flu” (2021), ambas críticas ao autoritarismo russo que concorreram à Palma de Ouro. Nas duas ocasiões, ele interagiu com Cannes apenas por chamadas de vídeo.

Este ano, por pouco, Serebrennikov também não foi proibido de pisar no boulevard de la Croisette. Mas desta vez por um boicote aos russos imposto pelo festival francês, como forma de protesto à guerra que o país trava com a Ucrânia. Não há profissionais russos este ano na Riviera Francesa, incluindo jornalistas.

Serebrennikov, que hoje mora na Alemanha, em Berlim, foi uma exceção justamente por já ter sido perseguido pelo governo russo por seus trabalhos ousados, sempre contrários à visão conservadora do Kremlin, e também por defender os direitos da comunidade LGBTQIA+. Pesou ainda o fato de “Tchaikovsky’s Wife” ter sido financiado com recursos privados.

“Eu entendo perfeitamente as pessoas que pedem boicotes à Rússia. O que acontece hoje na Ucrânia é muito doloroso e insuportável. Este impulso imperialista russo deve parar”, disse Serebrennikov, em Cannes, em encontro com a imprensa que teve cobertura do NeoFeed.

Chamado de “l’enfant terrible” do cinema russo, Kirill Serebrennikov já foi preso pelo regime de Vladimir Putin

Mas ele é contra o boicote à cultura russa no geral. “Ela sempre promoveu os valores humanos, a fragilidade do homem e a compaixão que devemos ter com alma”, afirmou o cineasta, de 52 anos. “Por natureza, a cultura é antimilitarista, já que a guerra destrói tudo isso. As palavras cultura e guerra são antagonistas”, completou.

Para o diretor, boicotar a língua russa significa privar as pessoas da música, do teatro e do cinema. Ou seja, “do que faz com que elas se sintam vivas”. “E um boicote incluiria Dostoiévski, Tchekhov e o próprio Tchaikovsky”, acrescentou.

O foco de “Tchaikovsky’s Wife” cai no casamento tumultuado do compositor com Antonina Miliukova, uma união destinada ao fracasso desde o início. Gay, embora não pudesse assumir sua orientação sexual na Rússia do século 19, Tchaikovsky embarca no casamento por insistência de Antonina, uma estudante de música. E apenas por conveniência, para não levantar suspeitas de sua atração por homens.

Por não se conformar (já que desconhece a causa real do desinteresse do marido), Antonina fará de tudo para conquistá-lo. Daí o filme trazer a perspectiva da mulher, em sofrimento constante.

Ainda que o governo russo insista em descrever Tchaikovsky como “uma pessoa sem herdeiros” e trate da sua homossexualidade como “rumor”, o compositor deixou cartas em que narra as suas frustrações por precisar esconder a sua orientação sexual. Em uma delas, endereçada ao seu irmão, o músico expressa a sua repulsa pela esposa.

Ainda sem data para estrear no Brasil, o filme é baseado principalmente nesse material, sobretudo no que diz respeito aos diálogos. Como segunda fonte de inspiração, Serebrennikov usou as biografias de Tchaikovski, já que a maioria dos historiadores também concordam que o compositor era gay – apesar de o assunto ainda levantar polêmica na Rússia.

Outro aspecto controverso de “Tchaikovsky’s Wife” é o fato de um dos investidores da produção ser Roman Abramovich. O magnata russo é mais conhecido como o dono do Chelsea, o clube de futebol britânico.

Listado no ano passado como uma das pessoas mais ricas do mundo, pela “Forbes”, Abramovich teve seus bens bloqueados em março na Inglaterra por sua ligação com Putin. Foi uma estratégia do governo inglês para isolar o líder russo, proibindo que negócios sejam feitos com Abramovich e com outros bilionários do país.

“Mas deveríamos suspender as sanções contra Abramovich. Ele é um verdadeiro patrono das artes”, disse o cineasta, lembrando que Abramovich está por trás do fundo de cinema privado Kinoprime. Muitos filmes de arte russos são viabilizados atualmente com esses recursos. “E não são filmes de propaganda russa. Muito pelo contrário”, destacou Serebrennikov.

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