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“Dólar bom é dólar estável”, diz presidente da SEMP TCL

A escalada do dólar afeta a margem da indústria e do varejo, que ainda não repassaram o aumento da moeda americana aos preços. Mas Felipe Hennel Fay, presidente da SEMP TCL, diz que isso deve acontecer em 2020

 

Felipe Hennel Fay, presidente da Semp TCL

O dólar começou o ano cotado a R$ 3,81 Um mês depois, ele caiu para R$ 3,65. Os sinais eram de que 2019 seria um ano tranquilo no câmbio, sem grandes sobressaltos.

Mas não é o que está acontecendo. Desde julho, quando Felipe Hennel Fay assumiu a operação da fabricante de eletroeletrônicos SEMP TCL, a moeda americana vem em uma escalada, chegando a patamares recordes. No dia 27 de novembro, atingiu R$ 4,26, o maior valor nominal desde a criação do Real, em 1994.

É sob este cenário que Fay tem o desafio de tocar a operação. “Dólar bom é dólar estável”, diz ele, nesta entrevista ao NeoFeed. Na conversa, ele afirma que a indústria e o varejo não estão repassando os preços ao consumidor. Mas diz que isso pode acontecer em 2020.

Neste ano, a SEMP TCL deve ter um faturamento bruto na casa dos R$ 2 bilhões. No ano passado, ele foi de R$ 1,6 bilhão, quando foram produzidos 1,1 milhão de televisores, que representam mais de 50% da receita da companhia.

O plano da SEMP TCL é diversificar suas fontes de receita com outros negócios, como celulares, áudio, eletroportáteis e ar condicionados. Este último, a companhia acaba de lançar seu produto.

Confira os principais trechos da entrevista:

Como está sendo o ano para a SEMP TCL?
Em termos de volume, está sendo muito bom. Em termos de rentabilidade, em decorrência do dólar, esse é um ano desafiador.

O dólar é o principal fator de impacto na rentabilidade da SEMP TCL?
Há dois fatores que impactam bastante a nossa rentabilidade. O dólar é um deles e diria que é o principal. A pergunta é qual o dólar bom? É R$ 3,50, R$ 4,00 R$ 3,80 ou R$ 4,20? Dólar bom é dólar estável. Essa não é uma realidade do Brasil. O que ocorreu esse ano é que o varejo, em função da economia ter demorado um pouco para tracionar, viu uma indústria com excesso de produção. Ele também, para não perder volume, não conseguiu repassar (a alta do dólar para os preços). No ano que vem, a indústria vai diminuir a oferta e o varejo vai ter de fazer o repasse de custo em decorrência do dólar. E vai transferir esse aumento de custo para o consumidor final, que, até então, não teve impacto da variação cambial sofrida pela indústria.

Você está prevendo que, em 2020, deve haver repasses de custos para o consumidor por conta do dólar. Isso não vai impactar nos volumes produzidos por vocês?
Entendemos que sim. Mas esse impacto é necessário para ter uma equação que seja adequada tanto para indústria quanto para o varejo. O varejo não vai ter aquele crescimento que está imaginando de volumes se os preços subirem. Porém, esse aumento tende a ser bem absorvido pelo mercado porque é uma questão da indústria como um todo, que está buscando esse ajuste. Essa queima de preços que acontece no mercado não é saudável para o varejo, porque ele está abrindo mão de sua margem. Em um mercado saudável, mesmo com volumes menores, o varejo tem uma rentabilidade maior, assim como a indústria.

“Essa queima de preços que acontece no mercado não é saudável para o varejo, porque ele está abrindo mão de sua margem”

O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse recentemente que “é bom se acostumar com juros mais baixos e câmbio mais alto por um bom tempo”. O que você acha dessa afirmação?
Eu tinha visto. E não discordo. Mas isso volta para a consideração anterior que eu fiz. O dólar bom é o dólar estável. Se o juro está baixo ou estável e o dólar, mesmo nesse ponto de agora, o mercado tende a se ajustar. É bom para o varejo e é bom para a indústria. O varejo está também buscando melhorar a sua rentabilidade e não está satisfeito com essa guerra de preços.

E como fica a SEMP TCL neste cenário?
Como os nossos volumes não são do tamanho de uma Samsung, quando a gente aumenta a produção um pouco ou reduz a produção um pouco não é isso que vai causar um ajuste no mercado. Isso acontece quando uma Samsung resolve fazer o ajuste também.

Você precisa fazer esse ajuste seguindo seus concorrentes?
Temos vida própria. Obviamente, estamos acompanhando o que acontece no mercado, mas o nosso compromisso número um é com rentabilidade e não em acompanhar o que os concorrentes estão fazendo.

A SEMP TCL entrou recentemente no mercado de ar condicionados. Como está indo essa operação?
Começamos a produzir em agosto e em setembro. As vendas começaram em outubro. Ainda é muito cedo para dizer como a operação está performando. Mas o que eu posso adiantar é que o mercado está recebendo muito bem a entrada da TCL neste segmento.

E na parte de celular. Vocês têm duas marcas: a SEMP e TCL. Como estão esses negócios?
O mercado de celular está muito desafiador para toda a indústria na questão da rentabilidade. A TCL tem um diferencial competitivo: ela faz parte do consórcio 5G na China, que é estratégico globalmente. Aqui, no Brasil, estamos presentes, continuamos investindo, porém com cautela.

O que você quer dizer com a palavra cautela?
Cautela quer dizer que não temos a intenção de aumentar os nossos volumes nesse momento em decorrência da baixa rentabilidade para a indústria.

A SEMP TCL atua em cinco áreas: tevês, celulares, eletroportáteis, áudio e ar condicionados. A área de televisores é o foco da empresa?
TV é o nosso principal negócio, mas não o foco principal. Fazemos tudo com foco. Se não, é melhor não fazer. Então, estamos focando nessas cinco áreas. Porém, TV é o negócio que mais tem representatividade no nosso faturamento. Mas o nosso objetivo, com essas quatro áreas, é que elas venham a cada ano ganhando mais e mais relevância. É um processo que a empresa iniciou depois da reestruturação em 2016, desde que a joint venture com a TCL começou. Desde lá, introduzimos celulares em 2018 e o ar condicionado em 2019. Estamos em pleno processo de diversificação para justamente ter outras fontes de receita que venham a ser relevantes.

Quando a tevê vai significar menos de 50% do faturamento da SEMP TCL?
Não será num curto horizonte de tempo. Nos próximos três anos, dificilmente isso irá ocorrer. Mas é uma meta de mais longo prazo.

A TCL é uma gigante chinesa que atua em diversas áreas. Vocês estão estudando entrar em novas áreas?
Por hora, não. Queremos, agora, dar relevância àquilo que temos. Entendemos que há um potencial enorme de ganhar relevância no segmento de condicionadores de ar. Pela posição que a TCL ocupa globalmente nesse segmento, temos muito espaço para conquistar no Brasil. No televisor, a nossa curva de crescimento tem sido em linha com as nossas metas, tendo em vista que a rentabilidade é a nossa prioridade número 1, e não a participação de mercado. Mas entendemos que, inclusive no próprio negócio de televisores, temos ainda um espaço importante pela frente de consolidação da marca no mercado brasileiro.

Recentemente, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que estava estudando uma área de livre comércio com a China. Ele depois negou essa informação. Mas qual seria o impacto para a indústria brasileira?
Nós sequer trabalhamos com essa possibilidade. Produzimos na Zona Franca de Manaus, que é uma zona incentivada. Entendemos que a Zona Franca deveria ficar de fora de uma reforma tributária, pois a lei que institui a Zona Franca foi renovada. Seria uma insegurança jurídica enorme para o País mexer no status quo na Zona Franca de Manaus.

“Seria uma insegurança jurídica enorme para o País mexer no status quo na Zona Franca de Manaus”

É possível a indústria  brasileira ser competitiva sem a Zona Franca de Manaus ou de uma série de incentivos que são concedidos, como a Lei de Informática, que está sendo rediscutida por conta da punição da Organização Mundial do Comércio (OMC)?
A resposta seria não. A Zona Franca permite que você tenha competitividade aqui no Brasil. A partir do momento que você não tem a Zona Franca estabelecida, sem os seus benefícios, a indústria nacional, pelo menos no nosso segmento, sofreria muito. Teria muito dificuldade de competir com produtos importados.

O Brasil acabou de aprovar a Reforma da Previdência. Agora, está começando a se discutir uma reforma tributária. O que ela deveria contemplar?
Ela deveria tributar menos o consumo.

Mas parece que a linha é uma simplificação, sem mexer na carga e na estrutura tributária
Estou encarando a reforma tributária como sendo o primeiro passo importante para outras medidas que terão de vir a serem tomadas ao longo dos próximos anos. Não estou trabalhando com um cenário onde virá uma reforma que resolverá todos os problemas de incentivo estadual e essa confusão que é a carga tributária brasileira. Mas entendemos que é um primeiro passo muito importante que está sendo dado e que será enormemente bem recebido pelo mercado. Mesmo que, num primeiro momento, não venha a ser uma reforma como gostaríamos. Só o fato de o Congresso estar com a disposição de discutir o tema deixa o ambiente de negócios mais favorável para o investidor. Estamos muito animados com as perspectivas do Brasil nos próximos anos. O País entrou numa curva ascendente e a economia vai começar a colher os frutos de todo esse trabalho que está sendo realizado, tanto pelo Congresso, como pelo governo federal, em breve. Já temos notado um reaquecimento da economia.

Qual a sua estimativa de crescimento para 2020?
Estamos trabalhando com um crescimento de 2%. Mas, como a associação com a TCL é recente, há espaço nosso para ser conquistado, independentemente do crescimento do setor e do País.

A SEMP TCL planeja novos investimentos ou aumentar a capacidade produtiva em 2020?
A indústria de televisores tem uma capacidade produtiva instalada muito superior ao mercado de hoje. Vale lembrar que, em 2014, o volume de televisores produzidos no Brasil foi de aproximadamente 14 milhões de unidades. Esse ano deve terminar com 10,5 milhões de peças produzidas. Isso já dá uma ideia de que há ainda um potencial grande de crescimento e de retomada do setor sem que haja grande necessidade de investimentos.

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