“Está na hora de pensar em um projeto de país e não em um plano de poder”, diz Laércio Cosentino

O cofundador e presidente do board da Totvs fala sobre o mercado de capitais, o setor de tecnologia e eleições. E afirma que é cedo para escolher os “times que estarão na final”, enquanto o “jogo ainda nem começou”

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Laércio Cosentino, cofundador e presidente do Conselho de Administração da Totvs

Aos 61 anos, Laércio Cosentino carrega, entre outros dons, a capacidade de avaliar minuciosamente todas as opções antes de tomar uma decisão. Essa habilidade foi um dos pontos cruciais para que a Totvs, da qual foi um dos fundadores, em 1983, se tornasse uma das grandes empresas brasileiras de tecnologia.

Durante boa parte dessa trajetória, a companhia contou com essa vocação do empresário para ajudar a selecionar ativos e concretizar mais de 40 aquisições. Além de alcançar um valor de mercado de R$ 15,2 bilhões, uma carteira de 70 mil clientes e uma receita líquida anual de R$ 3,25 bilhões.

Há pouco mais de três anos, Cosentino passou o bastão para Dennis Herszkowicz e deixou o dia a dia da Totvs, ao assumir a presidência do board da empresa. Mas segue exercitando esse olhar criterioso. E, além da companhia, sua atenção está voltada agora a uma outra jornada: a corrida presidencial.

“Está na hora de pensar não em um nome, mas sim em uma plataforma de crescimento, em um projeto de país, em um plano de governo. E não em um plano de poder”, afirma Cosentino, em entrevista ao NeoFeed. “Não é simplesmente olhar para o lado direito, para o lado esquerdo ou para o centro.”

Como parte dessa visão, na semana passada, Cosentino foi um dos signatários do manifesto que reuniu empresários, executivos e economistas em prol à candidatura de Simone Tebet. Entretanto, mais do que o apoio à senadora, ele ressalta outra motivação por trás do seu posicionamento.

“Se nem começamos a jogar o jogo, como é que você me diz quais são os dois times que já estão na final”, diz, em uma referência às candidaturas de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva que, até o momento, centralizam todas as atenções no pleito.

“Temos que abrir a cabeça e o manifesto vai mais nesse sentido: de discutir antes de se posicionar”, observa o empresário. “É isso que estamos tentando colocar. Não é a questão da terceira via ser a melhor via. Para poder ter uma escolha, é preciso ter opções.”

Nesta entrevista a seguir, Cosentino também fala também sobre como a crise global está impactando o mercado de tecnologia no País. A Totvs, inclusive, não está imune a esse cenário. Em 2022, as ações da companhia acumulam uma desvalorização de 12,7%.

Após mais de dois anos, a pandemia ainda é uma realidade e a crise global ganhou uma série de outros componentes. Como você está enxergando esse cenário?
Acredito que o mundo está passando por um processo de reinvenção. Com a Covid-19, o que pensei foi em uma reinvenção do ponto de vista de logística. Onde antes se dependia estritamente de um único país, de uma única região, haveria uma descentralização, o fortalecimento de uma regionalização. Mas, talvez, o que ficou de tudo isso foi o uso político de toda a pandemia. E, cada vez mais, as diferenças estão ficando mais distantes, ou seja, a polarização das coisas. Quando você vê o cenário global hoje, acho que está na hora de o mundo fazer um freio de arrumação.

O que seria exatamente esse freio?
Hoje, você quer punir um país, quer punir uma coisa, mas não olha mais as consequências, você não tem mais o diálogo. Todo mundo está discutindo pelo fígado, por aquilo que pensa, por ideologia. O mundo não foi construído assim. Foi construído de uma maneira onde os atores foram se inserindo, trocando, evoluindo. Então, precisamos ter esse freio de arrumação.

Como essa falta de diálogo e o uso político da pandemia que você citou agravaram a situação e contribuíram para o momento que estamos vivenciando atualmente?
A pandemia talvez tenha sido o primeiro evento na história em que, em seis meses, todo o mundo estava vivendo a mesma situação. E foi a primeira vez que havia uma rede global de comunicação, através das redes sociais, que incentivaram e replicaram medidas sem avaliar, de fato, as características de cada povo, de cada região. Então, acho que esse excesso de comunicação, usando ideologia e plano de governo, fizeram, pela primeira vez na história, a gente passar por uma crise global no mesmo momento e com as mesmas características, em países, regiões e povos completamente distintos. E o cenário ainda vai levar um tempo para se ajustar. Você tem falta de matéria-prima, de investimento, de combustível, energia cara, demanda reprimida, tudo ao mesmo tempo. Então, a humanidade conseguiu colocar todos os ingredientes de uma crise no mesmo momento, algo que nunca tinha acontecido.

E quanto ao Brasil nesse contexto? Quais são as perspectivas do País?
Acredito que, com as eleições, está na hora de pensar não em um nome, mas sim em uma plataforma de crescimento, em um projeto de país, em um plano de governo. E não em um plano de poder. Eu sei que nós temos três, quatro meses para as eleições, que está muito em cima, mas deveríamos pensar nesse ponto.

Você foi um dos signatários do manifesto divulgado na semana passada declarando apoio à candidatura da senadora Simone Tebet? No Brasil, é raro um empresário declarar esse tipo de posicionamento. O que o levou a assinar o documento?
Basicamente, o que me levou a assinar é justamente a necessidade de a sociedade parar para pensar. Se nem começamos a jogar o jogo, como é que você diz quais são os dois times que já estão na final? Temos que abrir a cabeça e o manifesto vai mais nesse sentido: de discutir antes de se posicionar. Não é simplesmente olhar para o lado direito, para o lado esquerdo ou para o centro. É necessário estudar, analisar, ver o que é melhor. Então, acho que é uma forma de demonstrar que é preciso discutir mais para ver se é isso de fato que nós queremos. É isso que estamos tentando colocar. Não é a questão da terceira via ser a melhor via. Para poder ter uma escolha, é preciso ter opções. Quando você não enxerga as opções, você não vai ter a melhor escolha.

Mas você enxerga que, dentro das opções disponíveis até o momento, há propostas condizentes com o que o País e o mundo estão demandando?
Acho que até agora ninguém discutiu o que é um projeto de país. Você pega os programas de governo que já foram divulgados e não há nada de novo. O mundo está falando de regionalização, de um novo reposicionamento da ordem econômica, de ESG, da transição energética, tem tanta coisa e não há uma linha dizendo que essas questões estão no cerne do programa de governo do candidato A, B ou C. Então, acho que estamos colocando a carroça na frente dos bois.

“Até agora ninguém discutiu o que é um projeto de país. Você pega os programas de governo que já foram divulgados e não há nada de novo”

Pensando especificamente no mercado brasileiro de tecnologia, quais são as principais demandas do setor nesse cenário?
O principal ponto é a questão da competitividade. Dentro da competitividade, você tem a capacitação de mão de obra e a famosa carga tributária, o custo Brasil. Nós temos um setor que cresce, que é pujante, que gera empregos, que distribui renda, mas se não encaramos essas duas questões seguiremos aquém daquilo que o País poderia ser. Então, você tem a reforma tributária, a reforma administrativa, tudo o que vem a reboque. Essas reformas têm que acontecer. Porque, do contrário, vamos sempre dando aspirina e colocando band-aid ao invés de resolver o problema. Precisamos realmente fazer uma cirurgia e algo que resolva estruturalmente. O que o setor pede? O Brasil precisa de uma reforma que realmente nos tire de soluções amadoras, adotadas à medida que os problemas vão acontecendo. Não dá para remediar mais.

Você citou a questão da capacitação dos profissionais, que é um dos desafios históricos do setor no País. Qual é o tamanho dessa lacuna hoje?
Em termos de déficit, segundo a Brasscom (Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação), são mais de 300 mil pessoas que estão faltando no mercado hoje. Tem muita coisa sendo feita, mas é insuficiente para atender essa demanda. Além disso, não concorremos mais por esse profissional com o mercado brasileiro. E, sim, com o mercado global.

Ao mesmo tempo, há uma onda de demissões no setor, especialmente em startups. De que maneira esse cenário mexe com a competição por esses profissionais?
Alivia, mas é um alívio momentâneo. E dizer que diminuiu o déficit de capacitação porque teve demissão é muito ruim. É péssimo. Precisamos ter um plano de capacitação como País, como um plano de governo. O que nós queremos ser, com quais recursos, quais investimentos, com que tipo de pessoas, com qual tipo de capacitação. Quando colocarmos tudo isso dentro de um plano master, aí sim vamos conseguir ter um resultado positivo. Então, voltando, como vamos dizer quem vai ganhar o campeonato se não sabemos nem o que cada candidato vai fazer em questões cruciais como essa?

Em um contexto mais amplo, as empresas de tecnologia estão entre as que mais estão sofrendo com a crise global atual. Qual é a extensão desses impactos em um mercado menos maduro para o setor como o brasileiro?
Uma coisa é valor da ação, onde, se você é um investidor de médio e longo prazo, da mesma maneira que a ação um dia cai, a ação um dia sobe. É questão de esperar. Aí você tem a questão da captação de investimentos para ter crescimento. As empresas que não estão capitalizadas vão sofrer um pouco mais. O setor perde a partir do momento que você tem menos investimento em desenvolvimento de novas ideias, de inovações. De qualquer maneira, faz parte do freio de arrumação que eu citei. Mas não adianta colocar o preço de tudo lá em cima e depois dizer que não vale nada disso. O mundo está se adaptando, inclusive, à valorização de todos esses ativos.

À parte da crise, essa correção era necessária?
Em alguns casos, você teve investimentos irracionais. Então, com tudo o que está acontecendo, os investimentos passaram a ser mais racionais. Isso é bom? É uma nova realidade. Alguns investimentos não avaliaram os ativos na magnitude que era necessária. Agora, o mercado financeiro está mais atento. Não vou dizer restrito, pois boas ideias sempre têm investimento. Mas o mercado está mais atento e fazendo contas.

A Totvs é uma das empresas pioneiras do setor no País, inclusive no mercado de capitais. Mas não está imune a esses efeitos. Como a companhia está lidando com esses desafios no curto prazo e, ao mesmo tempo, olhando mais à frente?
Eu sempre falo que Totvs é uma eterna startup. Tem alguns professores que dizem que a primeira startup brasileira, se você olhar os conceitos, foi a Microsiga (empresa que deu origem à Totvs). Então, temos a visão clara de que a tecnologia, os modelos e os processos são perecíveis. Se olharmos o quanto o mundo mudou nesses últimos dez anos. Quando você olha a TV aberta hoje, os anunciantes, 70% são startups. Então, a Totvs tem que estar em constante mutação. E acho que essa é a força que faz com que o mercado olhe a companhia não como uma empresa de X anos. E sim, como uma empresa que a cada instante está se reinventando.

“Temos a visão clara de que a tecnologia, os modelos e os processos são perecíveis”

Como parte dessa visão, a Totvs vem investindo mais recentemente em uma série de parcerias e joint ventures. Há espaços para mais acordos nesses moldes?
Hoje em dia, a empresa vencedora tem que estar, primeiro, atenta a tudo. Ela precisa se conectar com todo mundo. Não existe mais aquela companhia que dominava o mercado com a sua marca, sua distribuição, sua forma de pensar e sua forma de agir. Hoje, o mundo é plural e o conceito é de um grande ecossistema. Ou seja, vamos dividir para multiplicar. Então, temos a nossa estratégia e as nossas metas bem claras, e vamos contar com esse ecossistema, através de joint ventures, de aquisições. Nós continuamos ativos e essa é uma definição que seguirá sendo parte da nossa tese.

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