Falta chuva, sobram sol e vento: a chance de o Brasil repensar sua matriz

Diante da crise hídrica e do aumento das tarifas de energia, empresas como GE, Vestas e Casa dos Ventos veem uma oportunidade de impulsionar os negócios ligados às energias eólica e solar

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Parque Eólico Caetité, na Bahia (crédito – Selma Bellini)

No início desta semana, a Eternit anunciou as primeiras vendas de suas telhas fotovoltaicas, capazes de transformar a luz do sol em energia elétrica. Com capacidade de gerar 7 quilowatts de potência, elas foram destinadas a clientes selecionados, instalados próximos da fábrica da empresa, em Atibaia (SP).

A aposta na nova área traduz um esforço mais amplo da companhia, conhecida por suas telhas de amianto, um material com potencial cancerígeno. Em recuperação judicial, a empresa enxerga nas telhas que produzem energia o atalho para reencontrar seu lugar ao sol e consolidar sua reestruturação.

A Eternit não está sozinha nessa trilha. Com o Brasil diante de uma nova crise hídrica e do aumento das tarifas de energia, empresas como GE, Vestas, Casa dos Ventos e startups como a SolFácil, estão de olho na oportunidade para impulsionar os negócios ligados às energias de fontes renováveis, como a eólica e a solar.

Um dos principais fabricantes de aerogeradores de grande porte, a Vestas Brasil já vem testemunhando o aumento da demanda por projetos de energia eólica. A empresa tem 5,5 gigawatts contratados para entrega no curto prazo.

“É quase meia Itaipu”, afirma Jonathan Colombo, executivo da área de relações institucionais da Vestas Brasil. “O mercado livre já responde por 70% das novas contratações. Somente 30% está indo para leilões.”

Braskem, Anglo American, BP, Vale, Grupo Moura e Lojas Renner são alguns dos consumidores de energia livre da Vestas. Já a relação de clientes das turbinas da companhia inclui nomes como Casa dos Ventos, Engie, Quadran, EDF, Ômega e Enel.

“Dinheiro não é um problema nesse momento”, observa Colombo. “O BNDES e os demais bancos estão financiando projetos sustentáveis e também há acesso a capital externo.”

Uma das principais geradoras de energia eólica do País, a Casa dos Ventos é um exemplo dessa disponibilidade de capital. A empresa tem projetos prestes a entrar em operação. São eles, Rio do Vento, no Rio Grande do Norte, em duas fases, e Babilônia Sul, na Bahia.

“Esses projetos tiveram diversas fontes de recursos, entre elas, 8 SPEs (sociedades de propósito específico), financiamento do Banco do Nordeste e do BNDES”, diz Lucas Araripe, diretor de novos negócios da Casa dos Ventos.

Ele acrescenta que, para a segunda fase do parque de Rio do Vento, a companhia também contará com a emissão de debêntures de infraestrutura, com garantia firme do BNDES. O projeto inclui 240 turbinas, num total de 1,038 gigawatts, sendo 504 megawatts relativos a primeira fase da iniciativa, prevista para entrar em operação até o fim do ano.

“E ainda temos o Serra da Babilônia iniciando agora, que envolve 360 megawatts, no prazo de um ano e meio”, afirma Araripe, que acrescenta: “Dá para abastecer um estado como o Piauí.”

O executivo ressalta que grandes companhias estão demonstrando interesse em projetos de geração ou de parques eólicos próprios. Na mesa, estão discussões sobre parcerias com prazo de 15 a 20 anos para concretizar esses projetos.

“Existem preocupações, principalmente, com o custo da energia, a agenda verde para terem um suprimento sustentável e com contratos de longo prazo para fugir das flutuações do mercado”, afirma Araripe.

Presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Elbia Gannoum confirma essa disponibilidade de recursos e as boas perspectivas do segmento, mas faz um alerta. “Precisamos de um bom planejamento para equilibrar a oferta e a demanda numa retomada da economia”, afirma.

De acordo com o último relatório da ABEEólica, a projeção é de que a capacidade instalada no País evolua de 20,17 gigawatts, neste ano, para 25,75 gigawatts, em 2022. Com base em contratos viabilizados em leilões já realizados e no mercado livre, a entidade prevê que esse volume chegue a 30,2 gigawatts em 2024.

A ABEEólica prevê que a capacidade instalada de energia eólica no País salte de 20,17 gigawatts, neste ano, para 30,2 gigawatts, em 2024

Sob esse contexto, quem também está aquecendo suas turbinas é a GE Renewable Energy, divisão da multinacional GE. A unidade prevê entregar 300 aerogeradores entre o fim desse ano e o começo de 2022, o que representa uma capacidade de 1,5 gigawatts.

Hoje, a GE Renewable Energy tem cerca de 3 mil aerogeradores instalados no País, com aproximadamente 6 gigawatts de capacidade instalada. A produção dos equipamentos é dividida entre as fábricas da empresa em Camaçari, na Bahia, e Suape, em Pernambuco.

“Uma parte dos dispositivos é importada e o dólar já está afetando o custo do aerogerador”, diz Mauricio Vieira, líder de vendas da divisão de Wind da GE Renewable Energy no Brasil. “Mas a energia eólica tem um preço bem competitivo é uma fonte confiável.”

Engrossando esse coro, Araripe, da Casa dos Ventos, dá exemplos de preços dos últimos leilões. Enquanto a energia eólica teve contratações a R$ 150 de megawatts por hora, pequenas centrais hidrelétricas registraram valores entre R$ 200 e R$ 250 de megawatts por hora.

“Tanto a energia eólica como a energia solar são muito mais baratas que as térmicas”, destaca o executivo. Em julho desse ano, em dois leilões, a energia solar registrou preços médios de US$ 26 por megawatts por hoje, cerca de R$ 135 pela cotação atual.

Head de Energia de Project Finance do Itaú BBA, banco que responde por 39% dos projetos de energia eólica no País e iniciativas de geração distribuída, além de parques solares, Wilson Chen Chang segue a mesma linha. E acrescenta outros argumentos a esse discurso.

“Por causa da alta do dólar e do aumento de componentes importados, o custo da energia solar também subiu, mas o risco é menor”, afirma. “Em menos de um ano dá para colocar um grande projeto de pé.”

Caminho mais curto

Os projetos de energia solar são vistos como o caminho mais curto para minimizar os efeitos da crise hídrica. Na prática, quem possui um telhado disponível que receba irradiação solar consegue instalar a geração própria em até uma semana.

Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSolar), hoje, esse segmento tem 10 gigawatts de potência operacional instalada no País, sendo 3,5 gigawatts de usinas solares, ou 1,9% da matriz energética brasileira, e 6,5 gigawatts de geração própria em residências, pequenos negócios e propriedades rurais. Ao todo, o setor atende mais de 700 mil unidades consumidoras.

Fundada em 2018, a fintech SolFácil é uma das empresas dispostas a impulsionar esses indicadores. A novata financia projetos de geração de energia solar e atraiu, no fim de junho, uma rodada série B de R$ 160 milhões liderada pelo fundo americano QED Investors.

Com 5 mil parceiros de instalação distribuídos pelo País, a SolFácil escolheu como um dos destinos do cheque a expansão do seu portfólio, hoje composto por ofertas para projetos de consumidores residenciais, além de pequenas e médias empresas.

A novidade será uma linha centrada em projetos de energia solar em propriedades rurais, com previsão de lançamento neste semestre.

“Nesse ano, nossa projeção é financiar algo em torno de R$ 1 bilhão em novos projetos, praticamente dez vezes o que fizemos em 2020”, afirmou Fábio Carrara, fundador e CEO da SolFácil, em entrevista ao NeoFeed, na época da rodada. “E para 2022, a estimativa é de R$ 2,5 bilhões, com mais de 100 mil clientes financiados nesses dois anos somados.”

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