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Força Espacial de Donald Trump vira piada na Netflix

O novo braço militar dos EUA inspirou “Space Force”, disponível no catálogo da Netflix, que destaca o absurdo da empreitada americana além da Terra. O ator John Malkovich, que faz um cientista na série, fala ao NeoFeed sobre a paródia

 

John Malkovich (à esq.) e Steve Carell, na série “Space Force”, da Netflix

Criar uma Força Espacial para garantir a soberania dos EUA além da Terra. Realidade ou ficção? Na verdade, os dois. O presidente americano Donald Trump inaugurou este mês um braço militar dedicado às operações no espaço.

E como a ideia é, no mínimo, surreal, o time por trás da série “The Office” não perdoou e já fez uma paródia da extravagância. Criada por Greg Daniels e Steve Carell, “Space Force” explora o que a empreitada americana tem de mais absurdo.

Desde a semana passada no catálogo da Netflix, a série satiriza a militarização do espaço ao mostrar os percalços técnicos e logísticos enfrentados pelos generais, cientistas, astronautas e conselheiros encarregados de cumprir a missão. Ou pelo menos tentar.

O elenco conta com atores sempre dispostos a tirar sarro de tudo. Inclusive de si mesmos, se necessário. Além de Carell, aqui no papel do general de quatro estrelas Mark R. Naird, Lisa Kudrow, de “Friends”, vive a esposa do militar, e John Malkovich foi escalado para encarnar o cientista Adrian Mallory.

“Não me vejo necessariamente como um provocador. Até porque qualquer coisinha pode ofender as pessoas hoje”, contou Malkovich ao NeoFeed, em Veneza, antes do distanciamento social na Itália.

Sempre lembrado pela sátira de si mesmo, que apresentou em “Quero Ser John Malkovich’’ (1999), o ator não lembra exatamente quando ouviu a proposta de Trump pela primeira vez.

“Não prestei muita atenção”, disse Malkovich. “O cenário político não inspira necessariamente as minhas escolhas profissionais. Busco participar de filmes e séries pelos temas abordados. Nessa hora, penso mais como um produtor e não como um ator preocupado com o seu papel.”

O presidente Donald Trump anunciou por Twitter, em agosto de 2018, seus planos de proteger com a nova unidade do Pentágono os interesses americanos no espaço.

Isso incluiria a supremacia nos EUA fora da Terra e o compromisso com a segurança nacional e a proteção de satélites empregados na comunicação e vigilância.

Mas não foi o aspecto político que mais interessou Malkovich no projeto. A ideia de série sobre uma “missão destinada ao fracasso, apesar de todos os esforços”, foi o que mais atraiu o ator.

Carregando um satélite, um foguete da Força Espacial foi lançado para uma missão secreta no último dia 17, do Cabo Canaveral, na Flórida.

Mallory, personagem de Malkovich, procura honrar o seu cargo, ainda que não se interesse pelo aspecto da militarização. O que mais fascina o cientista é a exploração do espaço em si.

Tanto pela engenharia envolvida na construção de foguetes e pelo envolvimento de astrofísicos do mundo todo, quanto pelo aspecto mais filosófico, pelo mistério que a imensidão do espaço representa para a humanidade.

“Mas o homem e a sua natureza selvagem destruirão o espaço, assim como fizeram com a Terra”, diz o cientista, sempre em atrito com o general Naird na trama.

O que dificulta ainda mais o relacionamento dos dois é o fato de o militar aqui ser um imbecil. Naird não entende nada de ciência e nem sabe o que se passa na unidade de comando espacial localizada no Estado do Colorado.

Um dos melhores momentos da dupla ocorre no segundo episódio, “Salve o Epsilon 6!”. Esse é o nome do satélite danificado que Naird quer consertar acionando um chipanzé enviado semanas antes ao espaço.

Mas Mallory lembra o general de que a missão destinada ao macaco pela própria Força Espacial foi apenas a de fornecer “imagens fofas”, o que não o qualificaria para fazer reparos técnicos.

O satélite quebrado é apresentado na trama como uma obra de sabotagem do governo chinês. Possivelmente por se sentir ameaçado pelos avanços do seu maior rival, os EUA, no espaço.

“Humor não combina com politicamente correto, algo que considero idiota, ainda mais nas artes”, afirmou Malkovich. “As pessoas acreditam no que querem e até o que elas entendem como desrespeito é resultado de uma visão de mundo particular.”

O ângulo de cada um dependeria exclusivamente do que a pessoa passou na vida. “Na minha experiência, se você tratar bem os outros, também será tratado com gentileza. Isso provavelmente porque eu nunca me deparei com um canibal. Talvez ele me devorasse, mesmo que eu fosse cordial”, brincou o ator.

Discutir se uma perspectiva é correta ou não é perda de tempo para Malkovich. “É a única que a pessoa tem, sempre moldada por vários fatores. Entre eles, ser homem ou mulher, ser heterossexual ou gay, ser branco ou negro, ser asiático ou não.”

O que incomoda Malkovich é quando uma visão de mundo se julga melhor do que a outra. “O perigo está em achar que eu sou o único justo. Ou pior, que sou o mais justo entre os justos, o que supostamente me daria o direito de dizer a todos o que é justo. A história da humanidade está cheia de exemplos assim. E já sabemos no que isso dá”, disse ele.

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