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Google ameaça “riscar” a Austrália de seu mapa

Governo australiano quer que o Google remunere produtores de conteúdo por materiais compartilhados em suas plataformas, em mais uma queda de braço de autoridades públicas com as grandes companhias de tecnologia

 

Alphabet, a holding que controla o Google, vale US$ 1,2 trilhão

Mesmo concentrando 95% de todas as pesquisas online feitas na Austrália, o Google pode deixar a região. O buscador mais famoso do mundo ameaçou suspender suas atividades no país caso o governo local leve a cabo a proposta de exigir que empresas de tecnologia paguem por materiais jornalísticos compartilhados em suas plataformas.

A discussão acontece no senado australiano e visa a estabelecer uma espécie de “código de conduta” para equiparar a relação entre mídias sociais, buscadores e produtores de conteúdo. 

Embora o Google tenha concordado em remunerar as companhias de mídia francesas há poucos dias, em um acordo que deve inspirar novas diretrizes em território europeu, ele se recusa a ceder a Austrália. Por quê? Bem, o embate no país é por poder.

Está em jogo a autonomia desse sistema de cobrança: quem decide como, quando e quanto são os pagamentos? E quando as empresas de tecnologia têm que revelar mudanças em seus algoritmos? São justamente as respostas dessas questões que devem definir o futuro do buscador no país. 

A proposta dos legisladores australianos é que se as empresas de mídia e plataformas como o Google não chegarem a um acordo sobre o preço do conteúdo de notícias, cabe a um órgão independente a arbitragem e resolução da disputa. 

Trata-se de uma iniciativa inédita, uma vez que o acordo na França permite que o Google negocie com as editoras usando critérios que a empresa estabeleceu. Caso não cheguem a um meio termo, a disputa é levada a um tribunal, onde provavelmente ficam paralisadas por anos, atrasando o pagamento. 

Ao fazer essa pequena “mudança”, de colocar um juiz independente no meio, a Austrália conseguiria não apenas acelerar o processo, mas fortalecer o lado considerado mais fraco, que é o do produtor de conteúdo.

Em sua defesa, as companhias de tecnologia afirmam que a medida incentiva o aumento de preço das empresas de mídia e apoiam seus argumentos em um relatório do governo que estima que 75% das negociações podem terminar nas mãos de um juiz independente.

Outro ponto levantado pelas Big Techs é que, a cobrança por links, representa uma ameaça à internet como a conhecemos.  A diretora do Google Austrália e Nova Zelândia, Melanie Silva, defendeu esse ponto junto ao Senado, na sexta-feira, 22 de janeiro.

Em um vídeo, postado no Twitter e citado pelo The New York Times, ela pediu às pessoas que imaginassem recomendar cafeterias a um amigo, para depois receber uma conta desses estabelecimentos por compartilhar essas informações.

“Quando você coloca um preço no link para certas informações, você quebra a forma como os mecanismos de pesquisa funcionam”, defendeu ela. “E você não tem mais uma web livre e aberta.”

O argumento contrário é que Google e Facebook não usam apenas links. Eles moldam o trabalho em pré-visualizações, com manchetes, resumos e fotos, e então organizam e veiculam o conteúdo enquanto espalham anúncios.

De forma mais ampla, os legisladores explicam ainda que as empresas não compartilham informações de forma amigável: elas colhem detalhes sobre seus usuários para monetizar com o que compartilham.

Por fim, outro ponto que esquenta a temperatura desse embate diz respeito aos algoritmos – o ingrediente secreto das plataformas de tecnologia. Sob a nova regulamentação, as Big Tech têm de comunicar aos produtores de conteúdo, com 14 dias de antecedência, sobre qualquer alteração que afete a forma como os usuários interagem com conteúdos jornalísticos em seu ambiente. 

Ao NeoFeed, o professor de ética da Universidade de Oxford, John Tasioulas, disse que “quando uma empresa privada tenta usar seu poder para ameaçar e intimidar uma nação soberana é um forte sinal de que a regulamentação está muito atrasada”.

Para ele, a discussão que acontece na Austrália deve eclodir mundo afora. “Em cada lugar haverá sempre um ou outro ponto mais crítico.” E embora desgastantes, essas conversas são urgentes e inadiáveis e são parte fundamental do processo de amadurecimento que Tasioulas chama de “sociedade digital”.

Já a senadora australiana Sarah Hanson-Young disse, em comunicado ao qual o NeoFeed teve acesso, que a posição da empresa americana é autoritária.  “O Google ameaçou cancelar todas as buscas na Austrália se o Parlamento não fizer o que deseja. É assim que grandes corporações intimidam a democracia: é sempre o jeito delas ou não é nada”, escreveu Sarah.

As companhias, por sua vez, argumentam que seu atual modelo de negócio ajuda a mídia ao direcionar um alto volume de tráfego e que a aprovação dessa proposta significaria um “risco financeiro e operacional incontrolável”. 

O Facebook, que também compareceu à audiência no senado australiano, também ameaçou paralisar parte de suas ferramentas no país, afirmando que, caso a lei entre em vigor, vai proibir seus usuários de postar ou compartilhar links de reportagens. 

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