“Grande fã”, BTG diz que “levará tempo” para Stone recuperar credibilidade

A Stone, que interrompeu o negócio de crédito em agosto após ter tido problemas para executar garantias, viu a ação cair à mínima histórica. Analistas do BTG fazem mea culpa e retiram recomendação de compra

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Desde agosto, quando anunciou ao mercado que problemas no negócio de crédito haviam gerado perdas de quase R$ 400 milhões no balanço do segundo trimestre deste ano, a Stone tem tentado recuperar a credibilidade que perdeu junto aos investidores.

Até o momento, o esforço parece que está sendo em vão. Não só a ação perdeu 69% do valor que tinha quando o impacto no balanço foi divulgado, em 25 de agosto, e bateu a mínima histórica, cotada a US$ 16,25, avaliada em US$ 5 bilhões.

Com isso, até mesmo quem se considerava “um grande fã” da companhia está revendo a sua opinião. Em relatório divulgado a clientes em que dizem que “levará tempo” para a Stone recuperar a credibilidade, o BTG Pactual informou que retirou a recomendação de compra do papel da Stone e passou a ter uma visão “neutra”. O preço-alvo, por sua vez, caiu de US$ 66 para US$ 22.

“Por isso, além de ajustarmos a nossa expectativa para a empresa, oferecendo o nosso mea-culpa”, escrevem os analistas Eduardo Rosman, Thiago Paura e Ricardo Buchpiguel, que disseram no texto que sempre foram “grandes fãs” da Stone e admitiram que estavam “particularmente preocupados” com os números do terceiro trimestre deste ano.

Na visão dos profissionais, uma nova decepção nos resultados levaria a um novo movimento de venda das ações. Já um balanço decente apenas faria a empresa ganhar tempo. No fim das contas, a Stone viu o lucro líquido ajustado cair 53,7% em relação ao terceiro trimestre do ano passado, para R$ 132,7 milhões.

Em relação ao negócio de crédito, que levou à crise de credibilidade da Stone, o BTG Pactual disse que o produto, em teoria, parecia fazer todo sentido. Tendo as pequenas e médias empresas como público-alvo, a Stone mostrava ter condições de distribuição, tecnologia e capacidade de execução, disseram os analistas.

O negócio até que começou bem, mas, na avaliação do BTG, a Stone se empolgou. “A lucratividade do novo produto era tão boa que gerou maus incentivos e decisões ruins”, afirmaram. “A Stone acabou assumindo a maior parte do risco e os empréstimos cresceram muito rapidamente.”

Quando anunciou os problemas no negócio do crédito, a Stone alegou que teve dificuldades para executar garantias de empréstimos durante a migração para um novo sistema de recebíveis do Banco Central (BC), em um imbróglio que também envolveu alguns concorrentes, não citados.

Em uma reunião com analistas do Goldman Sachs, em setembro, o CEO da Stone, Thiago Piau, chegou a confessar três erros da empresa no processo.

O primeiro diz respeito à prática de dar adiantamentos em dinheiro de um a dois meses para cliente com garantia fraca. O segundo, escalar a operação de crédito em ritmo muito rápido durante a implementação de um novo sistema de recebíveis. E o terceiro, não renegociar com clientes que solicitaram a migração para outras adquirentes.

A empresa calculou um impacto negativo de R$ 397 milhões para os resultados do balanço do segundo trimestre, que teve prejuízo líquido de R$ 150,5 milhões, em números divulgados em 25 de agosto.

Uma semana depois, quando a companhia anunciou que a oferta de crédito seria interrompida, as ações listadas em Nasdaq fecharam em queda de 3,94%, em meio a dúvidas de investidores sobre a capacidade da empresa para tocar o negócio.

Para os analistas do BTG, é possível que a Stone consiga recuperar a confiança do mercado, mas o banco de investimentos prefere esperar sinais adicionais “antes de dar o benefício da dúvida novamente”.

Para o BTG, após interromper o negócio de crédito, ainda que temporariamente, a operação da Stone, apenas com a adquirência, será menos lucrativa.

Não por acaso, o banco também reduziu as estimativas de lucro líquido ajustado para a companha em 2022 e 2023, em 66% e 55%, respectivamente, para R$ 565 milhões e R$ 1,287 bilhão.

“Os principais motivos do corte estão relacionados ao maior investimento necessário, visto que a integração da Linx e maiores investimentos para crescer trazem alguns impactos nas margens; e maiores despesas financeiras devido ao aumento das taxas de juros”, escreveram.

Não bastasse isso, as ações do setor de pagamentos estão sendo afetadas, nesta segunda-feira, 29 de novembro, pelo lançamento de novos serviços do Pix, o Saque e o Troco, que permitirão que os usuários retirem dinheiro em espécie em estabelecimentos comerciais, apenas fazendo um Pix aos locais, por meio de QR Code.

No mercado, a percepção é de que os novos serviços deixam o setor de pagamentos ainda mais pulverizado. Por volta das 15h10, a ação da Stone caía 0,55%, a US$ 16,30. A do PagSeguro recuava 2,05%, a US$ 26,28.

Coma desvalorização, a ação da Stone é negociada em sua mínima histórica, após ter atingido US$ 92,14 em fevereiro. Até então, a menor cotação havia sido registrada em dezembro de 2018, a US$ 16,99, dois meses depois do IPO em Nova York.

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