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Na guerra comercial e cultural contra os chineses, até App virou arma

O Remove Chinese Apps teve mais de 1 milhão de downloads e foi criado por indianos insatisfeitos com o poder de influência dos chineses. Com a pandemia e o preconceito contra os asiáticos em alta nos EUA, a PlayStore resolveu bani-lo da plataforma

 

O Remove Chinese Apps teve mais de 1 milhão de downloads antes de ser retirado da Play Store

Mais de um milhão de downloads depois e o Google retirou da Play Store o aplicativo Remove Chinese App que, como bem diz o nome, promove a “limpa” de apps chineses do celular onde é instalado. 

A gigante do Vale do Silício alega que a ferramenta desenvolvida pela indiana Onetouch Applabs fere as políticas de comportamento vigentes na loja virtual de aplicativos.

“O serviço foi desenvolvido apenas para fins educativos, a fim de mostrar a origem de certos aplicativos. Nós não incentivamos ou forçamos usuários a deletarem nenhum app”, disse a empresa ao NeoFeed por meio de sua assessoria de imprensa. Difícil acreditar nessa versão diante do nome do App. 

Ainda segundo a empresa, o Remove Chinese App ficou no ar por duas semanas e mais de um milhão de pessoas fizeram o download da ferramenta nos primeiros dez dias.

Sem planos para reeditar ou reestruturar o aplicativo para que volte a ser aceito na Play Store, a Onetouch Applabs afirma que o desenvolvimento do serviço não tem fundo político.

O que chama atenção, porém, é que praticamente todos os downloads se concentram na Índia, país que mantém uma rixa histórica com a China por questões territoriais. 

A fronteira entre os dois países foi estabelecida na década de 1940, mas em 1962 as duas nações declararam guerra por conta da divisão. O último confronto  por conta dessa fronteira aconteceu em 2017, quando tropas indianas avançaram até o reinado de Butão para impedir a construção chinesa de uma rodovia considerada estratégica para a região. 

Desde o começo de maio, porém, as tensões voltaram à área quando soldados chineses cruzaram as linhas de “controle”. Uma das maneiras que a população da Índia encontrou de demonstrar sua insatisfação com o que acontece tem sido essa, de boicotar empresas chinesas, a fim de machucar onde dói mais: o bolso.

O sentimento anti-China, entretanto, tem crescido para além dessas fronteiras. Nos Estados Unidos, uma pesquisa feita pela agência Morning Consult em parceria com a revista eletrônica Politico, mostrou que, em maio, o número de americanos que entende a China como um inimigo saltou 11 pontos e chegou a 31%. Ao mesmo passo, a porcentagem dos entrevistados que consideravam os chineses aliados ou amigos recuou 9 pontos e estacionou em 23%. 

A mudança nessa percepção para com a China, de acordo com a pesquisa, está diretamente relacionada às polêmicas envolvendo o novo coronavírus. Embora Estados Unidos e China já vinham travando uma batalha comercial, com um país sobretaxando o outro e com acusações americanas de interferência cambial para vantagens comerciais, a relação entre as duas nações mais ricas do planeta estremeceu no começo da pandemia.

O presidente Donald Trump acusa a China de omitir fatos relevantes em relação à Covid-19, e culpa o país pela disseminação do vírus, que teve a província de Wuhan como primeiro epicentro da doença. O republicano chegou, inclusive, a solicitar que o nome popular do novo coronavírus fosse “Vírus Chinês” – uma medida considerada xenofóbica e, por isso, descartada.

No início de abril, pouco tempo após as medidas de distanciamento social entrarem em vigor nos Estados Unidos, o Conselho de Planejamento e Políticas Pacífico-Asiáticos reportou, em uma única semana, cerca de 650 ataques racistas contra cidadãos de ascendência asiática. 

Mas o preconceito visto nas ruas não é refletido, ainda, na App Store ou Play Store. Um dos aplicativos mais baixados nos meses de abril e maio, em território americano, foi o TikTok, que pertence à chinesa ByteDance. 

A preocupação principal era de que a manutenção de um aplicativo como o Remove Chinese Apps, na Play Store, poderia, de alguma forma, incentivar esse sentimento xenófobo e prejudicar essas e outras companhias.

Os indianos, porém, encontraram uma outra maneira de “protestar”: criar versões nacionais dos apps chineses populares. As funcionalidades do TikTok, por exemplo, foram replicados no recém-lançado Mitron. 

Nos Estados Unidos, o Facebook, com seu Instagram, tem tentado usar essa frente ao gigante chinês de vídeos curtos, de cortes rápidos. 

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