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Na “revolta das sardinhas”, a venda a descoberto não é a vilã, diz especialista

Em entrevista ao NeoFeed, o professor da Georgetown University, James Angel, defende a venda a descoberto como reguladora do mercado e manifesta preocupação com o número de pessoas que “querem atacar” Wall Street

 

James Angel, professor de finanças da Georgetown University

Depois de conhecer, sob todos os ângulos, a estrutura do mercado financeiro americano e de visitar mais de 70 bolsas de valores no mundo, James Angel, mais conhecido como “Jim Angel”, tornou-se uma das maiores autoridades no assunto.

Essa fama, inclusive, chegou ao próprio Congresso dos Estados Unidos, que convocou Angel para discutir alguns temas relacionados ao setor, fazendo dele uma “figura carimbada” em Washington DC.

Quando não está contribuindo com essas análises, o americano pode ser encontrado nas salas do MBA da Georgetown University, onde atua como professor de finanças. Na mesma instituição, Angel também está no comando de alguns cursos executivos, centrados em temas como “Investimentos e Mercados de Capitais”.

Em entrevista ao NeoFeed, ele faz uma análise dos últimos eventos que abalaram Wall Street e defende a venda a descoberto como reguladora do mercado. Mas em sua avaliação, embora essencial, a prática não é indicada para todos.

“Venda a descoberto é como jogar futebol: qualquer um pode chutar uma bola para lá e para cá, mas poucos são bons o suficiente para jogar profissionalmente”, diz.

Embora defenda ajustes no mercado, Angel entende que é preciso ter cautela quanto à reivindicação por mais regulamentação. E lembra que, “quando coisas extremas acontecem, elas jogam luz nas fraquezas das estruturas”.

Acompanhe a entrevista completa:

A “revolta das sardinhas” foi um evento e tanto para Wall Street. Qual sua opinião sobre os últimos acontecimentos?
São tempos interessantes, em que temos visto alguns eventos extremos ocorrerem. Quando coisas extremas acontecem, elas jogam luz nas fraquezas das estruturas do mercado. Tenho certeza que esse evento será investigado e os reguladores vão debater extensamente possíveis mudanças que podem ou devem ser feitas. Porque quando as ações saltam para níveis acima da realidade, é preciso se questionar o que está acontecendo. Papéis supervalorizados não são bons para ninguém. Se uma ação é negociada por um preço acima de seu valor presente ou do seu fluxo futuro de caixa, isso só vai garantir perdas aos investidores. 

Você acha que esse movimento foi espontâneo ou uma ação coordenada?Bem, a questão mais acertada seria “existe algum tipo de manipulação acontecendo?” Porque manipulação é ilegal pelas regras da bolsa americana. Provar esse crime, porém, é complicado e difícil. O tempo irá dizer se é, como você falou, um movimento espontâneo surgindo no Reddit ou se robôs russos estão nessas redes sociais para mexer com o comportamento das pessoas. O que eu sei é que haverá uma incansável investigação, e eu não sei o que vão encontrar. 

Muita gente acusa os short-sellers de manipularem também o mercado. Qual sua opinião?
A realidade é que muita gente não entende o papel da venda a descoberto. Essa técnica se baseia em tecnicalidades e ajudam o mercado. 

Ajudam como?
Fundos de investimentos são como “cestas” de ações, certo? Pessoas como eu e você podem comprar participações nesses fundos, confiantes de que eles estão monitorando o valor das ações dentro dessa cesta. Se algum papel “sair da linha”, eles compram na baixa e vendem na alta, seguindo a lógica. Tudo isso para dizer que a venda a descoberto não é uma “torcida” ou uma sentença. Ninguém está empurrando o preço de uma ação: é apenas uma previsão baseada em análises, visando a proteger o interesse dos investidores. 

“Venda a descoberto é como jogar futebol: qualquer um pode chutar uma bola para lá e para cá, mas poucos são bons o suficiente para jogar profissionalmente”

Mas como é vantajoso para o mercado em si?
Agentes de venda a descoberto colocam o dinheiro onde está a informação, basicamente. Essa prática traz os preços a níveis realistas, equilibrando o mercado e ajudando a todos. Vale lembrar que muitas pessoas têm suas pensões aplicadas em fundos e muitos desses fundos estão investidos em índices que “seguram” o mercado todo.

Voltando à revolta das sardinhas, aplicativos como o Robinhood  paralisaram parte da venda das ações no dia seguinte à alta da GameStop e de outras empresas. Por um certo período de tempo, nenhum usuário pôde aumentar sua posição nessas companhias. Por que isso aconteceu?
É que nos Estados Unidos funciona assim: nós concretizamos uma transação de ações dois dias úteis após sua negociação. Esse ritual é uma herança dos velhos tempos de certificados de papéis e as visitas às corretoras eram presenciais. Hoje em dia, não temos mais nada em papel, mas ainda funciona nesse intervalo. Agora, depois de uma negociação, a câmara de compensação (clearinghouse, em inglês) arbitra quem deve o quê e para quem. Enquanto o dinheiro não sai da conta do comprador e chega à conta do vendedor, o corretor, que é o intermediário, precisa garantir a integridade da cadeia. É normal, portanto, que as agências reguladoras peçam garantias financeiras para isso. A fórmula que eles usam para calcular esse valor é complicada, mas isso não vem ao caso agora. O que acontece é que os clientes do Robinhood compraram uma quantidade enorme de ações voláteis, então, no dia seguinte, a câmara de compensação exigiu uma segurança financeira à altura.

Por que o Robinhood foi “resgatado” com um investimento bilionário?
Isso, porque nos Estados Unidos há regras bem rígidas que protegem o dinheiro dos usuários dos corretores. Basicamente, o dinheiro do cliente tem que ser separado da conta da empresa e mesmo que o usuário tenha comprado ações e pretenda pagar por elas, o corretor não pode usar esses recursos como segurança. Isso explica porque não apenas o Robinhood suspendeu as operações, mas também outras corretoras. Todas precisaram recorrer a uma ajuda financeira para conseguir o “seguro” exigido pelos xerifes do mercado. 

Esses novos aplicativos e plataformas de investimentos, como o Robinhood, chegaram para democratizar o acesso às bolsas de valores. Mas você acredita que os recursos vieram antes que a educação, uma vez que não há nenhum tipo de educação financeira estruturada para a bolsa de valores no currículo escolar ou coisa parecida?
Olha, eu comecei a investir há 40 anos e, na época, você simplesmente não conseguia informação. Hoje basta uma rápida busca na internet para ter acesso a dados que profissionais jamais pensariam ter no passado. Então, eu me surpreendo em ver como isso melhorou. Dito isso, não acho que investir na bolsa é para todo mundo. Eu, por exemplo, não tenho talento para a venda a descoberto. Aliás, uma boa analogia para explicar a venda a descoberto é o futebol: é um jogo fácil, qualquer um pode chutar uma bola pra lá e pra cá. Mas apenas alguns poucos são realmente bons para jogar profissionalmente. 

Não acha perigoso que esses novos investidores continuem reproduzindo o que ficou conhecido como “ação meme”, que é a negociação de papéis de empresas que surfam na onda de alguma polêmica ou notícia da vez?Estamos recebendo uma nova geração de investidores no mercado e eles estão aprendendo na prática. Muitos estão cometendo erros. Alguns vão descobrir que sim, eles têm talento para a venda a descoberto e outros vão entender, também na prática, que talvez o melhor caminho seja o investimento no longo prazo. De toda forma, isso é positivo para a economia, porque para crescer, precisamos de pessoas abertas a assumir o risco e investir em empresas. Precisamos desses investidores para trazer capital, informação e equilíbrio. 

Mas esse equilíbrio pode ser comprometido se virmos mais grupos se unindo para atuar no mercado?
Você levantou um ponto bastante importante, porque as pessoas podem coordenar qualquer ação com facilidade, graças aos avanços da comunicação. Mas isso não é novo. Quer dizer, 20 anos atrás, nós tivemos o Yahoo com seus painéis de mensagens e vimos o mesmo tipo de comportamento, onde as pessoas discutiam as ações e promoviam estratégias. Essa coisa de unir pessoas com pensamentos parecidos não é novo, mesmo. Mas agora a coisa ganhou uma nova proporção; a escala é muito maior. Então a pergunta passou a ser: como se proteger disso? Há quem opte por ficar apenas com os índices, que flutuam de acordo com o mercado. Eu acredito que o plano mais eficaz é, de novo, identificar o seu perfil como investidor e bolar sua estratégia a partir daí. 

Muita gente tem encarado esses aplicativos de investimentos sob uma lógica de um cassino, apostando em ações “pela sorte”?
Há quem procure a bolsa de valores pela “adrenalina” da aposta e dos riscos. E, quer saber? Está tudo bem, contanto que você não espere lucrar com isso. Sabe, se uma pessoa quer entretenimento, ela terá de pagar por isso. 

A entrada de mais e mais investidores no mercado pode gerar uma bolha?
Quando você olha para a história financeira dos mercados, você vê uma história de bolhas. Faz parte da natureza humana esse comportamento coletivo, o problema é que, às vezes, multidões fazem loucuras. É sempre mais fácil identificar uma bolha depois, não quando se está vivendo uma, justamente por conta desse comportamento de manada. Se você vê todo mundo correndo em uma direção, você pensa que eles sabem o que estão fazendo e se junta a eles. Mas as manadas nem sempre estão certas.  

“Há quem procure a bolsa de valores pela adrenalina da aposta e dos riscos. E, quer saber? Está tudo bem, contanto que você não espere lucrar com isso”

Qual a sua maior preocupação atualmente?
Tenho dois receios. Um diz respeito a atual leva de avaliação. Eu acho que o mercado está precificado com perfeição e isso significa que os preços altos das ações provavelmente reduzem os retornos futuros. Portanto, há a preocupação macro com todos os desafios que vivemos. E também me preocupo com a situação política atual e o número de pessoas que parecem querer atacar Wall Street. Isso pode trazer alguma regulamentação que prejudique a todos.

Então, para você, não há nenhuma mudança necessária?
Precisamos mudar diversos pontos das nossas estruturas de mercado, não tenho dúvida disso. Esse acordo que demora dois dias para compensar, por exemplo, é algo que deveria ter sido extinto há anos. O perigo é que alguém apareça e diga algo realmente estúpido como “vamos banir as vendas a descoberto”.

Você falou de pessoas que querem atacar Wall Street a qualquer preço. Você consegue entender esse rancor com o mercado?
Esse é um excelente ponto, porque é um tema recorrente nos EUA: a falta de confiança na concentração de dinheiro e poder. Existe esse pensamento de que os “bancos são malignos”, mas a verdade é que muitas vezes eles são feitos de vilões pelas nossas próprias falhas. Quando você faz um investimento e acerta, se sente um espertalhão. Agora, quando você erra a mão no investimento, aí a culpa é do outro e é muito fácil atribuir essa responsabilidade a instituições que enriquecem “às nossas custas”. 

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