Na startup Amyi, olfato e tecnologia caminham de mãos dadas

Com um modelo digital de oferecer perfumes sob medida, a empresa foi a única brasileira a aparecer no relatório Ones to Watch 2021: Fragrance Discovery Innovators, elaborado pela consultoria de inovação e tendências WGSN

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O usuário recebe um kit com nove fragrâncias e responde a um questionário

As empreendedoras Larissa Mota e Luciana Guidi já trabalhavam no mercado de perfumaria. Ambas atuaram na operação brasileira da gigante americana Mary Kay, e Larissa passou dois anos, nos Estados Unidos, na Givaudan, maior empresa do mundo no mercado e aromas e fragrâncias. Mas, vendo como as grandes empresas do segmento produziam suas fragrâncias, decidiram fazer tudo diferente.

Foi assim que decidiram fundar a Amyi, uma startup que vem chamando a atenção no universo da perfumaria. Além do interesse dos investidores, a empresa conquistou reconhecimento internacional. Foi a única marca brasileira a aparecer no relatório Ones to Watch 2021: Fragrance Discovery Innovators, elaborado pela consultoria de inovação e tendências WGSN.

A startup funciona da seguinte forma. Antes de escolher um dos perfumes disponíveis, o cliente pode encomendar um kit sensorial. O pedido é feito pelo site e ele recebe em casa uma caixa com amostras das nove fragrâncias do portfólio, além de acesso a uma plataforma online. Ele tem um prazo de três meses para passar pela “jornada Amyi”, como a marca chama a experiência.

O cliente prova cada uma, assiste a vídeos sobre o processo criativo e responde a perguntas de um roteiro criado a partir de associações com cores e sentimentos. No final, dá notas para todas elas e, a partir das respostas, o sistema, baseado em inteligência artificial, gera um ranking de fragrâncias, o que ajuda na escolha final. Com a decisão tomada, o cliente recebe em casa um frasco grande do perfume escolhido.

A empresa, lançada oficialmente em novembro de 2019, entra na categoria de perfumaria de nicho, um segmento pequeno no Brasil, mas que vem ganhando notoriedade lá fora. “Nossa inovação passa por duas frentes: a comunicação e o desenvolvimento de produto”, diz Luciana Guidi, cofundadora da Amyi.

O primeiro passo foi dar liberdade total para os perfumistas convidados, algo bastante inusitado. Afinal, na indústria de beleza, os grandes fabricantes estabelecem padrões rígidos, focados em públicos e momentos específicos, para a criação de suas fragrâncias.

Para elaborar as nove fragrâncias de seu portfólio, a Amyi chamou três perfumistas brasileiros que trabalham em casas tradicionais de fragrâncias: Sandra Casagrande, da japonesa Takasago; Cleber Bozzi, da Drom; e Samuel Moraes, da Citratus Symrise.

Larissa Mota (à esq.) e Luciana Guidi, as fundadoras da Amyi

Um dos perfumes, Amyi VIII, criação de Moraes que leva tomilho vermelho, camurça branca e a erva francesa flouve, foi finalista do prêmio “The Art and Olfaction Awards” na categoria Perfumaria Independente. Foi a primeira vez que uma marca brasileira conseguiu o feito.

A demanda cresceu exponencialmente e deu fôlego à empresa após o baque da redução de vendas registrada no início da pandemia. O estoque de seis meses foi vendido em apenas 15 dias e as fundadoras tiveram que montar uma lista de espera. Para dar conta dos pedidos, saíram em busca de recursos.

Em outubro do ano passado, a Amyi recebeu um aporte de R$ 1 milhão liderado pela GV Angels, com participação do fundo Wishe. Em janeiro de 2021, as empreendedoras receberam a proposta de R$ 400 mil de investimento no palco do reality show Shark Tank Brasil. O fundador da Chili Beans, Caito Maia, e a investidora Camila Farani ficariam com 10% da companhia. A Amyi ainda pretende fazer uma rodada seed no início do ano que vem.

A comunicação foge das tradicionais associações de fragrâncias específicas para mulheres ou homens e segue por um caminho que as fundadoras definem como “genderless”, uma tendência na perfumaria artesanal. Os homens, dizem as empreendedoras, se apaixonaram pela marca e hoje representam 45% dos consumidores.

A dupla tem ainda o objetivo de inaugurar uma loja física. O plano ainda não tem data para acontecer. “Nós vamos para o físico algum dia”, diz Luciana. A preocupação da empresa é replicar a experiência em um ambiente em que o cliente vai conseguir testar quatro, talvez cinco perfumes de uma vez antes de não conseguir mais identificar nuances.

Para driblar essa limitação, a Amyi está investindo em tecnologia e no desenvolvimento de um algoritmo preditivo para que as recomendações nas lojas sejam mais assertivas. “Colhemos dados muito ricos que nos ajudam a entender o consumidor. O desafio será criar um algoritmo que não fique limitado aos mesmos perfis olfativos”, conta Larissa.

Por enquanto, o foco de atuação é no Brasil. “O consumidor brasileiro é apaixonado por perfumes, mas só vê valor nas marcas estrangeiras”, diz Larissa. O potencial do mercado é grande. De acordo com a Euromonitor, o País é o segundo maior consumidor de fragrâncias do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

O mercado, no entanto, é dominado por grandes grupos. A Amyi aposta no consumidor premium, que tradicionalmente consome marcas internacionais, e está disposto a gastar mais pela experiência. O kit olfativo custa R$ 435, e uma fragrância avulsa, R$ 390. É um valor que concorre com as opções mais exclusivas de uma marca como Boticário, mas não tão alto quanto clássicos internacionais como o Chanel nº5, que custa R$ 895.

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