No BC, mais uma alta nos juros e um aviso: o aperto vai continuar

O BC subiu a taxa de juro para 13,25%. E avisa que o Comitê de Política Monetária não colocou um ponto final no ciclo de aperto monetário. Juro real sobe para 8,10%, o maior do mundo

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O juro real do Brasil sobe a 8,10%, o maior do mundo

O Comitê de Política Monetária (Copom) confirmou sua sinalização e desacelerou o ritmo de alta da Selic para 0,50 ponto percentual nesta quarta-feira,15 de junho. A taxa sobe a 13,25%, patamar amplamente esperado por instituições financeiras e investidores. O comitê, porém, não colocou um ponto final no ciclo de aperto monetário.

No comunicado, o Copom afirma que “diante de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário continue avançando significativamente em território ainda mais contracionista”. Para o próximo encontro, o Copom “antevê um novo ajuste, de igual ou menor magnitude”. Portanto, vem mais juro por aí.

O aumento de hoje renova a posição do Brasil como maior pagador de juro real do mundo. Em maio, o país já tinha avançado da segunda para a primeira posição no ranking de 40 países, com taxa real de 6,84%. Com Selic a 13,25%, o juro real sobe a 8,10%, informa Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, que monitora decisões de bancos centrais e confecciona o ranking há mais de uma década.

Agora em junho, o Brasil deixa para trás, como competidores mais próximos em juro real, o México (4,48%) seguido pela Colômbia (4,47%), Chile (3,02), Indonésia (2,77%) e Turquia (1,98%). Do elenco de 40 países, 29 ainda trabalham com juro real negativo.

O levantamento de Vieira confirma que, apesar dos esforços dos bancos centrais no combate à inflação, muitos não conseguiram, por ora, garantir remuneração maior aos investidores.

Não é o caso do Brasil, embora não esteja sozinho na batalha contra a inflação. Os bancos centrais das principais economias enfrentam desafio semelhante. Contudo, há uma diferença substancial no processo de ajuste da política monetária e, portanto, nas decisões tomadas.

Nesse quesito, o BC de Roberto Campos Neto leva vantagem. É inquestionável o fato de o Brasil estar mais próximo à finalização do ciclo de aperto monetário do que seus pares, o que autoriza a expectativa de que a economia brasileira pode sofrer menos no futuro porque um grande trabalho já foi feito pelo BC de quem não depende a política fiscal.

O Federal Reserve (Fed), nos Estados Unidos, está apenas no início de um novo ciclo monetário. O Banco Central Europeu (BCE) ainda nem fez decolar as taxas vigentes na zona do Euro, mas pretende acionar o seu gatilho mais adiante – nas reuniões de política monetária de julho e setembro.

Com a inflação no foco, o Copom assume posição cautelosa – de esperar para ver efeitos de juros já acumulados não só sobre a inflação, mas também sobre a atividade – para, se necessário, se comprometer com Selic ainda mais alta. O mercado financeiro vem elevando suas projeções para a taxa e trabalha com a possibilidade de manutenção da Selic em patamar elevado por mais tempo.

Não é desprezível o fato de a economia brasileira estar, neste momento, sob dupla pressão. De um lado, convive com um turbulento cenário externo por atuação mais firmes dos bancos centrais, comprometimento de cadeias produtivas ainda por escassez de insumos, guerra na Ucrânia e lockdowns na China; de outro, a economia sofre, internamente, com riscos fiscais crescentes e suas consequências.

Maior risco fiscal eleva o risco-país e pressiona a taxa de câmbio. Dólar mais forte ante o real tende a agravar a inflação. No mínimo, por encarecer produtos importados e acelerar as exportações de produtos que podem ter sua oferta ampliada e talvez arrefecer os preços.

Nas últimas semanas, o risco fiscal aumentou com as medidas lançadas pelo governo e sancionadas pelo Congresso para conter a alta de preços dos combustíveis em particular, mas estendendo-se à energia elétrica, comunicações e transporte público.

As medidas passam por desoneração e contratam queda de arrecadação especialmente de Estados e municípios que, por sua vez, pretendem ser ressarcidos pela União. Portanto, a União também perde receita. Essa perda envolve valores díspares, mas é estimada em até R$ 100 bilhões ao ano.

Em contraponto, temporariamente positivo, as desonerações devem abater cerca de dois pontos percentuais na inflação deste ano. Entretanto, como a redução de tributos vai até 31 de dezembro, é dada como certa a recomposição de preços e a retomada da tendência de alta em 2023.

O BC já vem atuando na política monetária com foco no ano que vem, quando a meta de inflação a ser perseguida será de 3,25%, ante 3,50% deste ano. O teto da meta também declinará de 5% para 4,75%.

De olho no risco fiscal e na resistência da inflação, grandes bancos nacionais e estrangeiros já projetam IPCA de 5% para 2023. E avaliam que Selic em 13,25% não conseguirá frear tendência altista dos preços.

Nesse contexto, o Itaú Unibanco surpreendeu ao anunciar, nesta semana, sua estimativa de Selic a 15% ao final do ciclo de aperto monetário. Uma visão pragmática, mas bem salgada.

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