No Softbank, a ordem de Masayoshi Son é desacelerar os investimentos

O fundo japonês vai colocar um pé no freio em seus aportes e busca recursos para enfrentar a perda de valor de seus ativos, diante da queda das ações de empresas de tecnologia

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Masayoshi Son, fundador do Softbank

Dinheiro não costuma ser um problema para o Softbank. Ancorado em recursos bilionários, o fundo japonês é conhecido por ser um rolo compressor com investimentos em série em seu Vision Fund e por ser um dos protagonistas entre os atores que ditam os rumos da indústria global de venture capital.

Entretanto, ao que tudo indica, os tempos de bonança no grupo fundado por Masayoshi Son estão com os dias contados. Ao menos, no curto prazo. É o que mostra uma reportagem publicada nesta quinta-feira pelo Financial Times.

Segundo o jornal britânico, Son disse aos principais executivos do fundo para desacelerarem os investimentos. O pano de fundo para a declaração, dada em uma reunião recente, passa pela queda das ações de empresas de tecnologia e pela ofensiva regulatória do governo chinês sobre ativos do setor.

Nos últimos meses, a combinação desses fatores vem afetando diretamente o valor das participações que o Softbank detém nesse mercado. E, além de questões como o aumento das taxas de juros, a guerra entre Rússia e Ucrânia só agravou esse panorama.

Sob esse contexto, a depreciação estimada das participações do fundo japonês foi de US$ 30 bilhões apenas neste primeiro trimestre. E, internamente, não há expectativa de uma reversão desse quadro tão cedo.

Esse contexto também expôs as intersecções da fortuna de Son – estimada em US$ 24 bilhões – com as operações do Softbank. Para investir pessoalmente no Vision Fund, ele fez empréstimos contra suas próprias ações na empresa e elevou, recentemente, as garantias para um terço da sua fatia no grupo.

Boa parte do portfólio de investimentos do Softbank se divide entre os Estados Unidos e a China. Com grande peso nesse portfólio e um dos principais alvos da escalada regulatória das autoridades chinesas em curso desde o ano passado, o Alibaba é um exemplo dessa derrocada.

Em 2021, o valor das ações do Alibaba despencou 48,9%. Entre novembro de 2020 e março desse ano, o valor da participação que o Alibaba detém na companhia chinesa despencou de US$ 208 bilhões para US$ 69 bilhões.

Além do Alibaba, praticamente todas as empresas chinesas listadas que integram o portfólio do Vision Fund estão sendo negociadas abaixo de seus preços de compra. Outro nome de peso nessa relação é a Didi Chuxing, que também está na mira das autoridades chinesas, com a proibição de seus aplicativos em lojas locais e investigações relacionadas à segurança.

Nesse cenário, sob a pressão de levantar recursos, o Softbank estaria avaliando as participações em ativos que podem ser liquidadas. Entretanto, a companhia também vem encontrando dificuldades nessa seara.

No início deste mês, por exemplo, o fundo contratou o Goldman Sachs para vender um bloco de ações, no valor de US$ 1 bilhão, da empresa sul-coreana Coupang, de e-commerce. A cota foi vendida por menos de US$ 21 por ação, um recuo de 40% em relação ao preço do IPO da companhia, em 2021.

Em mais uma frente, o Softbank usou ações da Coupang e participações em outras empresas como garantia para empréstimos. E está finalizando um empréstimo de US$ 10 bilhões vinculado ao IPO da empresa de chips britânica Arm, após o fracasso da venda da operação para a Nvidia, no ano passado.

Para alguns analistas, com um caixa estimado em US$ 23 bilhões, o grupo tem condições de resistir a esse momento mais crítico. Segundo a casa de análises New Street Research, esse montante é suficiente para cobrir juros, resgates de títulos e seguir com investimento, embora em um ritmo mais lento.

Caso o Softbank confirme esse pé no freio, a desaceleração virá logo após um ano no qual o fundo, mais uma vez, confirmou seu apetite no mundo do venture capital. Em 2021, o Vision Fund fechou investimentos em 195 empresas e se consolidou como um dos mais ativos no setor.

Esse novo cenário também traz dúvidas quanto aos seus eventuais impactos na operação do fundo na América Latina, que, por sua vez, também foi palco de mudanças recentes.

No fim de janeiro, Marcelo Claure, até então, um dos homens de confiança de Son e o responsável por trazer um fundo específico do Softbank para a América Latina, deixou o comando da operação na região. A saída estaria relacionada a divergência sobre uma compensação pela recuperação do WeWork.

Em 2019, o WeWork era a grande estrela do portfólio do Softbank. Mas viu sua tentativa de IPO, na qual buscava uma avaliação de US$ 47 bilhões, fracassar em função de sérios problemas de governança. Na sequência, a empresa foi resgatada pelo Softbank e Claure assumiu a missão de reestruturar a operação.

Com a saída de Claure e os rumores de que ele irá montar seu próprio fundo, uma das questões levantadas no mercado seria uma possível debandada dos executivos que tocam a operação do Softbank na América Latina.

Na região, o Softbank tem um portfólio de cerca de 50 startups, das quais, 15 são unicórnios. Entre elas, nomes como QuintoAndar, Kavak, Rappi, Mercado Bitcoin, Loggi, Loft e MadeiraMadeira.

Em setembro de 2021, a empresa anunciou um segundo fundo para investir em startups latino-americanas, com US$ 3 bilhões disponíveis. O primeiro veículo, anunciado no início de 2019, envolveu o montante de US$ 5 bilhões.

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