“Nosso desafio está no mundo empresarial”, defende o economista Paulo Gala

Em entrevista ao Neofeed, o economista Paulo Gala, professor da FGV e economista-chefe do Banco Master, diz que o próximo governo terá de sofisticar a estrutura produtiva no Brasil e que o desafio do emprego está na mão das empresas

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Paulo Gala, professor da FGV e economista-chefe do Banco Master

O próximo governo terá de sofisticar a estrutura produtiva no Brasil, aproveitando vantagens do parque industrial já instalado, em áreas como o setor químico, para melhorar a qualidade do emprego e a produtividade da economia, defende o economista Paulo Gala, professor da Fundação Getúlio Vargas e economista-chefe do Banco Master.

Uma das vozes mais respeitadas no campo dos chamados economistas heterodoxos ele apoia o respeito a regras de controle fiscal, mas considera ultrapassado o teto de gastos.

“Nosso desafio de emprego, por incrível que pareça, não está no mercado de trabalho, está no mundo empresarial”, defende, ao propor medidas para aumentar a produtividade com incentivo a ligados a carências do país, como gasodutos voltado ao gás do pré-sal e produção de insumos farmacêuticos destinados a abastecer o Sistema Único de Saúde (SUS).

Gala se inscreve entre os otimistas, por acreditar que os altos juros no Brasil manterão a alta de preços sobre controle e a conjuntura externa e interna deverão levar a cotação do dólar a níveis mais próximos de R$ 5.

De todo modo, alerta, será preciso manter o radar ligado nos esforços feitos para conter a inflação sem afundar o mundo em uma recessão. “O obstáculo de curto prazo está mais na mão do Banco Central americano que do brasileiro”, resume o economista, em entrevista da qual o NeoFeed reproduz abaixo os principais trechos:

Qual é o principal desafio de gestão econômica a ser discutido na primeira reunião do próximo governo?
O principal é a inflação. Estamos num momento de quase surto inflacionário, com quase 8% ao ano em todos os países desenvolvidos, e no Brasil. A boa notícia é que o Brasil já avançou muito nisso. Foi o primeiro a subir taxas de juros, está com o ajuste monetário feito, uma taxa de juros altíssima, indo para 13,75%, juros reais de quase 9%.

Você crê em uma inflação de 5% ao ano?
A visão para a inflação no ano que vem é de 5% ou menos. Já estamos numa posição de câmbio muito desvalorizada. Estamos com um diferencial de juros brutal em relação ao resto do mundo, com preços de commodities muito elevados, situação de contas externas muito positiva. O cenário de médio prazo para o Brasil é de um dólar voltando a R$ 5.

Na questão monetária, é administrar o que já está posto, as medidas já foram tomadas?
Mantida a autonomia do Banco Central, a equipe não tem mais o que fazer. Mas, se a gente falar da parte fiscal, há todo um repensar, uma construção longa. Por exemplo, toda a parte de auxílio emergencial. Desmontaram o controle que havia, na Bolsa Família, desvirtuou-se a lógica de nosso programa de transferência de renda para uma coisa populista de curto prazo. Isso tem de ser repensado.

Um grande temor no mercado é a leniência e descontrole fiscal. É por aí o desafio da equipe econômica?
Acho que não. O mercado tem uma espécie de paúra fiscal. Temos um superávit acumulado de R$ 140 bilhões nos últimos 12 meses; a arrecadação fiscal sobe 17% ao ano. O Brasil está na melhor situação fiscal dos últimos sete anos. Obviamente o teto foi furado em todos os anos, teve essa PEC de gastos, mas é curioso que o mercado ponha todo o medo nesse estouro de R$ 50 bilhões e esqueça de ver o ajuste. Tudo bem: foi por maus motivos, a inflação, alta das commodities. Mas nada nos impede imaginar daqui a seis meses uma tranquilidade muito maior.

“Brasil está na melhor situação fiscal dos últimos sete anos. É curioso que o mercado ponha todo o medo nesse estouro de R$ 50 bilhões e esqueça de ver o ajuste”

Há um temor de que, para atender uma série de demandas represadas, em educação, saúde, por exemplo, o governo abra as porteiras…
É importante dividir a melhoria fiscal em dois lados. Primeiro, foi o corte de gastos, que foi muito ruim, em ciência e tecnologia, educação, saúde, partes nevrálgicas. A gente sacrificou o futuro para fazer esses cortes. Mas o outro lado foi a arrecadação de impostos, que tem a ver com a alta de commodities e a alta de inflação. Há de fato essa demanda represada, de recompor o que foi tirado. Mas é importante lembrar que a relação dívida/PIB depende da dívida e do PIB. Se o produto volta a crescer é possível imaginar um cenário virtuoso.

No cenário internacional, a expectativa de retração econômica e aumento dos juros não joga contra essa retomada?
A conjuntura, nos próximos seis, doze meses, é ruim. O cenário mundial é de recessão, queda do PIB nos EUA, na Europa. Há uma discussão se é recessão rasa ou profunda. Confesso não estar convencido se vai mergulhar nas profundezas. O mercado, a curva de juros americana, já embute cortes a partir do meio do ano que vem. É um cenário benigno, em que o Brasil tem condições de se beneficiar: recessão não muito profunda, a inflação cede, começa a cair já para 4%, 5% no ano que vem, caem juros nos EUA. Estou no time dos que acreditam numa recessão mais branda, que a inflação vai ceder.

Quais seriam os maiores obstáculos?
O obstáculo de curto prazo está mais nas mãos do Banco Central americano que do brasileiro. Se a gente tiver um hard landing, uma situação muito difícil lá fora, a turbulência aqui vai demandar eventualmente mais juro, menos crescimento, mais inflação. A parte estrutural nossa, de médio e longo prazo vai depender de nossas políticas: uma nova política fiscal, eixos estruturantes de investimento, reindustrialização, a busca das vantagens comparativas verdes, para a mudança climática. Uma agenda de reconstrução do Brasil.

“O obstáculo de curto prazo está mais nas mãos do Banco Central americano que do brasileiro. Se a gente tiver uma situação muito difícil lá fora, a turbulência aqui vai demandar mais juro, menos crescimento, mais inflação”

Como enfrentar o problema de produtividade no Brasil?
A economia brasileira tem capacidade de gerar emprego, mas de baixa sofisticação produtiva ou baixa qualificação: atendentes, manicure, pedreiro. Não é engenharia sofisticada, TI, telecom. Não é com a visão simplista de que abrindo a economia, cortando tarifas, libera tudo, que vamos bater o Google, a Siemens, a Pfizer. Nosso desafio de emprego, por incrível que pareça não está no mercado de trabalho, está no mundo empresarial: se as empresas não se sofisticarem não serão capazes de gerar bons empregos.

Como deve ser essa estratégia, então?
Tem coisas de que a sociedade precisa: a transição energética; a transição verde. Há o que temos chamado de missões sociais. O crescimento do setor de saneamento, por exemplo, cria uma oportunidade gigantesca de expandir a produção de PVC, tubulações. Só se deve dar subsídio, crédito público, proteção tarifária por tempo limitado, se tiver alguma missão social atrelada a esse recurso fiscal, com meta a ser cumprida. Exemplo: produzir IFAs (insumos farmacêuticos) para vacinas no SUS. Até no agro: falta fertilizante por conta do conflito Rússia-Ucrânia. Não seria razoável desenvolver produção aqui para ter segurança alimentar e do agronegócio?

Há exemplo bem-sucedido dessa política?
O que o BNDES fez com os parques eólicos, fantástico: estamos inaugurando a maior fábrica de hidrogênio verde do mundo no Brasil, com a Unigel. Vai usar a energia eólica, toda desenvolvida graças ao risco que o BNDES tomou nos parques eólicos; vai fazer hidrogênio verde, e o Brasil tem chance de se tornar o maior produtor de amônia verde no mundo. Baita caso de sucesso em transição energética e transição verde.

“Não é com a visão simplista de que abrindo a economia, cortando tarifas, libera tudo, que vamos bater o Google, a Siemens, a Pfizer. Se as empresas não se sofisticarem não serão capazes de gerar bons empregos”

Como retomar o nível de investimento no Brasil?
Isso é a questão fundamental. A grande vítima do teto dos gastos foi o investimento em infraestrutura. Quando o Estado investe em infraestrutura, a iniciativa privada investe ainda mais. Não há jogo de soma zero: o investimento público catapulta o privado. É essencial repensar o teto de gastos, especialmente da ótica do investimento público.

Como?
Um exemplo: temos no pré-sal brasileiro uma quantidade de gás equivalente a quase o dobro do que vem da Bolívia, e é tudo reinjetado nos poços de petróleo porque os exploradores não querem construir os gasodutos. Se fossem construídos, poderíamos ter um mercado de gás gigantesco no Brasil, barateando matéria-prima e podendo dar mais um salto industrial. Há carências de infraestrutura que estão aí, que o governo o próprio BNDES deveriam se voltar para esses investimentos.

Você defende o setor químico como uma nova oportunidade.
O setor químico é um dos poucos setores nacionais ainda bastante sofisticados, conseguiu sobreviver, temos a sexta maior indústria química do mundo. Está na fronteira da revolução verde. Quando se fala de amônia verde, hidrogênio verde, todos os bioprodutos, biometano, biogás, a gente tem uma avenida incrível a ser explorada. Há multinacionais aí dentro obviamente, mas a indústria química brasileira é forte. É que a gente chama de vantagem comparativa adjacente: o Brasil dar alguns passos de sofisticação a partir do que já faz.

Qual seria um erro a evitar no novo governo?
O grande erro seria perder a ideia de uma (nova) regra fiscal. Qual o problema do teto? Você congela o aumento de gastos a partir do crescimento da inflação num país com necessidades que crescem mais que a inflação. Se a previdência e as necessidades de saúde e educação crescem mais rápido, e você trava o gasto nessas áreas, monta uma bomba que vai explodir. Não é crível uma regra com uma dinâmica dessas.

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