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O coronavírus e a nova (des)ordem mundial

Ian Bremmer, cientista político e presidente da consultoria Eurasia Group, criou o termo “G-Zero” em oposição ao “G20”. Ideia é abordar a ausência de uma liderança internacional e de como a China se mexe para preencher o vácuo

 

Cientista político, Ian Bremmer tem 50 anos de idade

“Se você não segue uma pessoa que desaprova, está fazendo errado. Fico feliz em poder ajudá-lo.” É com essa frase que Ian Bremmer, cientista político e presidente da consultoria Eurasia Group, recebe seus novos seguidores no Twitter, a rede social que usa como “roleta russa” para criticar alguns dos principais líderes mundiais. Ou, mais recentemente, para criticar justamente a ausência de uma liderança internacional em meio a maior pandemia do século. 

Embora seja categórico ao apontar o vácuo da política global no que diz respeito à crise do coronavírus, Bremmer, que é um dos mais respeitados analistas de relações internacionais, há tempos “canta a bola” da recessão geopolítica.

O declínio da influência ocidental, combinado com a política doméstica de desenvolvimento de estados, culminou no que Bremmer chamou de “G-Zero”. O termo foi cunhado de forma a satirizar os grupo G-7 e G-20, que elencam as potências mundiais.

Segundo ele, estamos a bordo de um vôo sem piloto definido, mas talvez a China esteja se preparando para assumir o manche.  “Os chineses estão engajados em uma forte campanha diplomática e estão prestando grande ajuda humanitária, algo que nunca vimos em outras crises”, afirmou Bremmer em entrevista ao canal americano Fox News

O especialista complementou sua fala acrescentando ainda que, de uma perspectiva internacional, os Estados Unidos estão sendo vistos como “indisponíveis” e que Pequim entende que essa seria uma ótima oportunidade para sentar-se ao trono e assumir a liderança. 

O embaixador da China nos Estados Unidos, Cui Tiankai, nega esses esforços. “Não acho que nosso objetivo seja ser o ‘líder do mundo’, porque não acreditamos que deva existir um”, rebateu Tiankai, em vídeo, às falas de Bremmer. De acordo com o embaixador, a crise afeta a todos, e finalizou dizendo que a China não pode se considerar livre do vírus se outros países ainda sofrem desse mal.

Essa não é a primeira vez que Bremmer critica a equipe de Xi Jinping por conta do novo coronavírus. O cientista político também publicou que a China não agiu de maneira responsável ao se recusar a compartilhar informações-chaves sobre o vírus, assim como falhou ao esconder (e minimizar) os primeiros casos da Covid-19.  

A proporção que a pandemia tomou, de acordo com Bremmer, só aconteceu porque o mundo carece de uma liderança: “nenhum país ou grupo político conseguiu impor uma solução ou uma ação coordenada”, ponderou. Essa falta de união – e de liderança – vai resultar em ainda mais polarização.

Para Bremmer, o mundo deve “sair” da crise do coronavírus ainda mais sensível, do ponto de vista político. E o Brasil não é exceção. Também pelo Twitter, o especialista foi bastante ácido com o presidente Jair Bolsonaro. “A competição é enorme, mas, até agora, o líder mais ineficiente na resposta ao coronavírus é o presidente do Brasil, Bolsonaro”, postou em 22 de março.

Por fim,  Bremmer diz que figuras como Donald Trump e movimentos como o Brexit tendem a ganhar força em momentos de crise. 

“A economia vive uma crise a cada sete ou oito anos, mas a recessão geopolítica se desenrola ao longo de gerações, o que faz com que seja difícil identificar seu começo, seu meio e seu fim. Sabemos que estamos vivendo uma recessão geopolítica agora, mas não sabemos como nos preparar para ela”. 

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