Inovação

O Hospital Albert Einstein leva uma das armas contra o coronavírus ao Norte do País

Com o objetivo de tentar resolver a carência médica na região – além de dar visibilidade a uma prática que vem ganhando o mundo na luta contra o coronavírus –, o hospital lança uma ofensiva via telemedicina em parceria com o Ministério da Saúde

 

Telemedicina é muito usada nos Estados Unidos e na China. Aqui, começa a ganhar força

Ao mesmo tempo em que combate o coronavírus, que tem se espalhado como rastro de pólvora pelo mundo, o Hospital Albert Einstein acaba de fechar uma parceria com o Ministério da Saúde para oferecer telemedicina em 120 municípios no Norte do País.

Com isso, o hospital pode matar dois coelhos numa só tacada: levar saúde para lugares desassistidos e também propagar a telemedicina que tem se tornado uma poderosa arma de contenção ao vírus no mundo todo.

O programa começará no dia 23 de março pelas cidades paraenses de Altamira, Breves, Paragominas, Santarém e Marabá – as mais desprovidas de atendimento médico na região.

Até o final deste mês alcançará outras 40 localidades e deve cobrir todo o mapa da medicina remota ainda no primeiro semestre deste ano, sempre atuando em parceria com as unidades de atendimento primárias, as AMAs e UBSs.

“Investimos R$ 65 milhões neste projeto, pois entendemos que a telemedicina é a melhor forma, a mais eficaz e a mais rápida de combater esse grave problema estrutural de acesso à saúde de qualidade nos rincões do país”, diz Sidney Klajner, presidente do Einstein, ao NeoFeed.

Os sintomas dessa enfermidade estrutural são conhecidos: carência de médicos e equipamentos, dificuldade de locomoção, fadiga no sistema público e, em muitos casos, miopia do Estado. Junte a esse quadro um País continental e se tem o diagnóstico de Klajner: a desassistência aguda para a população de boa parte do interior do Brasil.

Embora a média nacional indique 2,18 médicos para cada mil habitantes – em conformidade com o que prega a Organização Mundial da Saúde (no mínimo, 1 médico a cada mil habitantes) – a concentração ainda é enorme nas grandes cidades: estima-se que a metade dos doutores estejam nas regiões Sudeste e Sul.

No interior do Norte e do Nordeste o índice nem chega perto do piso da OMS. Essa má distribuição geográfica dos profissionais também traz um efeito colateral perverso: a ausência de médicos especialistas nas cidades mais distantes – estão todos nos grandes centros.

Alguém com uma lesão dermatológica que possa representar um risco oncológico dificilmente será diagnosticado com precisão sem a estrutura e o atendimento apropriados. “Países de grandes dimensões, de grande contingente populacional, já provaram que a tecnologia joga a favor da saúde”, diz Klajner.

Sidney Klajner, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein

Nos Estados Unidos, grande parte dos atendimentos primários são feitos via telemedicina. Há até um lema entre a comunidade médica, uma espécie de primeira prescrição a quem se queixa de algum problema de saúde: “try the phone first”.

Os smartphones, com todos os seus aplicativos, se tornaram uma ferramenta importantíssima para a disseminação da ferramenta, estimulada pelas operadoras de healthcare.

“Há a falsa impressão de que a telemedicina só se faz com devices sofisticados de vídeo, com aparelhos caríssimos. O acompanhamento remoto do paciente, por telefone mesmo, também é telemedicina”, afirma Klajner.

Na Inglaterra, onde o sistema de saúde é público, há uma preferência da população por atendimento virtual – a interação do médico de família com especialistas.

Tentar o telefone antes, como pregam os médicos americanos e o governo inglês, significa economizar milhões, às vezes bilhões de dólares em exames e testes desnecessários, além de descongestionar postos de saúde e hospitais.

Estima-se que 70 a 80% das doenças primárias poderiam ser resolvidas num primeiro atendimento, remoto. “Além disso, a telemedicina se torna fundamental quando falamos de isolamento domiciliar, nos casos de risco epidêmico”, diz Klajner.

Os pacientes diagnosticados com coronavírus no Einstein, por exemplo, estão sendo monitorados remotamente. “Estamos falamos de uma contaminação que, na grande maioria dos casos, vai trazer sintomas leves ou, no máximo, sintomas moderados, que não exigem hospitalização. Ter uma ferramenta para dar ao paciente o acesso ao serviço de saúde sem a necessidade de ele estar presencialmente neste serviço traz vantagens para todos os lados”.

O médico troca informações com o próprio paciente acerca dos seus sinais vitais, pulso, pressão, temperatura e acompanha a sua evolução diária – pode-se oferecer, inclusive, equipamentos de medição domésticos para esse fim.

O atendimento remoto, dispensando o paciente da presença física nos corredores e leitos de hospitais e postos de saúde, também evita o risco de contaminação dos profissionais e demais pacientes. E, claro, há o conforto do próprio enfermo em ter o repouso em casa.

“A telemedicina entra como prática recomendada pelo Centers of Disease Control and Prevention (CDC) – a agência americana de saúde – para o acompanhamento do paciente em observação domiciliar e também para os casos prováveis e suspeitos. Acho que é a primeira vez na história em que há uma epidemia acompanhada em tempo real graças aos avanços da tecnologia”, diz Klajner.

“Acho que é a primeira vez na história em que há uma epidemia acompanhada em tempo real graças aos avanços da tecnologia”, diz Klajner

O programa de telemedicina do Einstein entre em seu oitavo ano. Em 2019, foram realizados 80 mil atendimentos, o mesmo número de 2018. Klajner planejava triplicar esse número, conforme havia dito em entrevista ao NeoFeed em agosto do ano passado, mas problemas de regulação para a telemedicina acabaram freando a evolução da ferramenta.

Uma norma do Conselho Federal de Medicina, editada em 2002 – “quando ainda nem havia smartphone”, diz Klajner – impede que se exerça a prática sem a presença física de um médico ao lado do paciente e outro do lado de lá do computador.

“Ora, se se exige a presença do médico nas duas pontas, qual é a vantagem da ferramenta? Não se resolve a carência de médicos”. Em tempo: o programa em parceria com o Ministério da Saúde, na região Norte, é uma exceção: não “fere” as diretrizes do CFM, já que o atendimento é via UBS ou AMA. Ou seja, sempre haverá um profissional de saúde do outro lado.

A queixa de Klajner diz respeito a algo mais amplo, a democratização da ferramenta, o fato de que as normas não vêm acompanhando a evolução da sociedade e a liberdade de escolha do paciente. O Einstein, diz Klajner, está se apoiando, primeiro, na Constituição. Ela diz que o cidadão tem o direito de procurar saúde na forma como quiser.

No começo de fevereiro também foi publicado no Diário Oficial uma emenda que permite o desenvolvimento e comercialização de novos produtos e serviços nos casos em que normas técnicas brasileiras desatualizadas sejam obstáculos à inovação tecnológica. “Ou seja, há diversos aspectos e argumentos legais para seguir em frente com a telemedicina, um bem para a sociedade. Estamos sofrendo a sindicância do conselho. E nos defendendo.”

Embates à parte, o Einstein abriu várias frentes de atuação com a telemedicina. Uma delas é a saúde corporativa, nas unidades in company. São ambulatórios e clínicas Einstein dentro de empresas como Natura, Vivo, Abbott, Banco Safra.

O Einstein abriu várias frentes de atuação com a telemedicina. Uma delas é a saúde corporativa, nas unidades in company

Os funcionários dessas companhias acionam o médico de família, que entra em contato, via telemedicina, com nossa central. São os plantonistas de “tela”, que ficam no ar 24 horas, sete dias por semana.

Também há programas de telemedicina para plataformas de petróleo; as TeleUTIs, que levam a ferramenta a centros intensivos públicos e privados; e a Teleconsulta especializada, para atender pacientes em viagens.

É um mercado imenso. Não à toa Google e Amazon estão de olho nele. Não por acaso, gestores de venture capital, aqui e no exterior, estão aportando muito dinheiro em empresas de telemedicina.

Recentemente, o fundo brasileiro e.bricks ventures fez um  aporte na Conexa Saúde, uma das healthtechs mais promissoras do mercado. A operadora de seguros Sulamérica também aposta no setor – foi a primeira a oferecer telemedicina às empresas clientes.

Nos Estados Unidos, a empresa Teladoc Health tem ações negociadas em bolsa e valor de mercado de US$ 9,8 bilhões. Na China, a plataforma Ping an Good Doctor conta com 315 milhões de pessoas registradas. Foram feitas, na plataforma, 1,1 bilhão de consultas referentes ao coronavírus desde o surgimento da epidemia.

E a telemedicina é apenas uma das ferramentas do que se convencionou chamar de Telehealth ou E-health ou Saúde 4.0 – a revolução digital que fará com que a área médica experimente a maior transformação de sua história.

Sim, estamos falando de big data, inteligência artificial, algoritmo, machine learning e outras tecnologias capazes de fazer diagnósticos precisos e elevar a medicina preventiva a um nível jamais visto. Estamos falando de serviços completamente digitalizados.

Na Alemanha, já está em voga a prescrição eletrônica. Uma versão digital da receita que é transmitida a todas as farmácias e hospitais do país. Isso permite verificações automáticas de possíveis interações indesejáveis com outros medicamentos que o paciente já tenha comprado, esteja usando.

Na Austrália, um prontuário unificado permite que farmacêuticos, alertados por sistemas de inteligência artificial, orientem pacientes com histórico de dosagem errada de remédios. Cerca de 250 mil australianos foram internados nos últimos anos por erros na medicação.

Esses casos são descritos no Livro Revolução Digital na Saúde, de Klajner, seu antecessor Claudio Lottenberg e Patrícia Ellen, atual Secretária de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo. “Os médicos terão de se preparar para o que vem por aí. E os pacientes também. Uma revolução digital sempre vem acompanhada de uma profunda mudança cultural”, diz Klajner.

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