“O mercado percebeu que Guedes está a serviço de um projeto eleitoral”, diz Maílson da Nóbrega

Em entrevista ao NeoFeed, o economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega afirmou que a credibilidade de Paulo Guedes perante o mercado “trincou” de vez após ter falado em “licença” para furar o teto dos gastos

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Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da consultoria Tendências

O ministro Paulo Guedes, que assumiu o comando da economia do País com a promessa de que seria o fiador de uma agenda liberal no governo Jair Bolsonaro, anda tendo dias difíceis até mesmo com quem sempre lhe depositou confiança: o mercado financeiro.

Após falar em uma “licença” para furar o teto dos gastos e assim ter dinheiro para bancar uma versão turbinada do Bolsa Família até o fim de 2022, ano da eleição, Guedes viu a sua credibilidade ser “trincada” de vez.

É como enxerga um dos economistas que um dia já sentaram na mesma cadeira de Guedes: Maílson da Nóbrega, ministro da Fazenda entre 1988 e 1990, no final do governo do presidente José Sarney, e hoje sócio da consultoria Tendências.

“O mercado apostou todas as fichas em um programa liberal meio utópico e agora está vendo que o ministro está a serviço de um projeto eleitoral e não da realização de reformas”, afirma Nóbrega, em entrevista ao NeoFeed.

Nóbrega acredita que Guedes deve ficar até o fim do governo Bolsonaro para tentar recuperar a credibilidade em um novo mandato e, finalmente, tocar a agenda liberal. “Ele gosta de ser ministro da Economia.”

O ex-ministro da Fazenda, no entanto, acredita que Bolsonaro dificilmente vai recuperar a sua popularidade até a eleição, mesmo com o auxílio de R$ 400 que está propondo, de olho nos eleitores mais pobres, a maioria do Nordeste, reduto eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Não é seguro que colocar mais dinheiro na mão dessas pessoas vai fazê-las esquecer a devoção que elas têm pelo Lula, que é quase religiosa”, diz. Confira a entrevista na íntegra:

Com a debandada de secretários do ministro Paulo Guedes, como fica a credibilidade do ministro perante o mercado?
O que está em jogo, acima de tudo agora, é assegurar a competitividade eleitoral do presidente Jair Bolsonaro. Todo esse movimento que vem sendo feito de furar o teto, calote nos precatórios, tudo isso tem o objetivo de turbinar, em uma nova versão, o programa Bolsa Família e conquistar votos no Nordeste, onde está a maioria dos beneficiários do programa e onde estão 84% dos brasileiros que ganham até dois salários mínimos. É um projeto de natureza eleitoreira. E é provável que continue. É claro que ninguém pode ser contra políticas de transferência de renda às classes menos favorecidas, desde que associada à responsabilidade fiscal. O governo poderia ter buscado negociar com o Congresso a eliminação das emendas do relator. Bilhões de reais são entregues aos parlamentares, para distribuir com seus colegas do Congresso em operações sem transparência, sem cuidados que cercam a liberação de outras emendas, com grande potencial de corrupção e desperdício. Mas o governo não quer assumir esse desgaste. A tendência é daí para pior.

“A proposta do ministro Guedes, pedindo licença para gastar, trincou de vez a credibilidade dele, particularmente perante o mercado financeiro”

O ex-secretário do Tesouro Mansueto Almeida disse que isso não seria o fim do mundo se o governo convencesse o mercado de que não passaria disso, que seria excepcional. Você acha que o governo seria capaz de sinalizar isso?
Eu acho difícil. A proposta do ministro Guedes, da forma como fez, pedindo licença para gastar, trincou de vez a credibilidade dele, particularmente perante o mercado financeiro, que apostou todas as fichas em um programa liberal meio utópico e agora está vendo que o ministro está a serviço de um projeto eleitoral e não da realização de reformas. O ministro parece ter percebido que ele subestimou as dificuldades institucionais e políticas para promoção e implementação de uma ousada reforma liberal. E agora ele fracassou. O que ele prometeu, no campo da privatização, não foi cumprido. Ele parece agora envolvido em ter uma segunda chance, em um segundo mandato de Bolsonaro. Aí, sim, ele, mais experiente, conhecendo as dificuldades, com renovada credibilidade e capital político, poria em marcha a agenda liberal.

Você acredita que ele vai ficar no governo, então?
Eu acho que sim. O ministro Guedes gosta de ser ministro da Economia e o Bolsonaro dificilmente vai querer tirá-lo. O Guedes serviu como biombo para esconder a incapacidade do Bolsonaro, a sua visão antiliberal, o seu instinto intervencionista e fiscalmente irresponsável. O Bolsonaro tem no Guedes um esteio para preservação do que ele imagina ser a credibilidade dele no mercado financeiro. É claro que isso é uma decisão pessoal. Se o ministro, eventualmente, perceber que perdeu as condições de implementar a agenda dele, pede o boné e vai embora. Ou o Bolsonaro pode se cansar do ministro e buscar uma alternativa que dê maior chance ao seu objetivo de tocar o seu projeto eleitoral.

Mas, se o Guedes não tem mais credibilidade, faz diferença ele continuar e apostar em uma agenda no segundo mandato?
Eu acho que não. Mas não deve ser assim que ele pensa. Ele pode entrar em um processo de autoengano, imaginando que ele pode restaurar a credibilidade perdida, se ele avançar em um processo de reforma no segundo mandato, com um Bolsonaro, dessa vez, convertido ao liberalismo, o que não aconteceu até o presente momento.

“O Bolsonaro tem no Guedes um esteio para preservação do que ele imagina ser a credibilidade dele no mercado financeiro”

Este cenário de perda de credibilidade pode favorecer a candidatura do Lula, com o mercado perdendo as esperanças em uma agenda liberal vinda do Bolsonaro?
As pesquisas estão mostrando que o Lula é candidatíssimo a presidente e muito competitivo. Claro que há um tempo muito grande até as eleições e o Lula ainda não se submeteu ao debate. Ele tem um campo enorme para desgaste, porque na campanha será lembrado o período de corrupção, da indicação de uma presidente despreparada para dirigir o País e do estrago que a Dilma Rousseff fez na economia, no campo fiscal, no setor elétrico. Tudo isso vai para a conta do Lula e ninguém sabe como o eleitorado vai reagir. Mas, nas pesquisas realizadas neste momento, o Bolsonaro é carta fora do baralho. Ou ele não vai para o segundo turno ou, se vai, perderia para Lula. Mas, novamente, tem muita coisa para acontecer até lá.

O que você espera do presidente Bolsonaro até lá?
Eu acho difícil ele recuperar, até a eleição, a popularidade que perdeu. Ele está em um esforço grande para isso, indicando que assume os riscos de interpretação negativa do mercado por uma agenda de irresponsabilidade fiscal. Ele pode estar nutrindo uma ilusão de que, com mais dinheiro, ampliando o valor do Bolsa Família, ele vai ganhar votos do Nordeste. Isso pode não acontecer. O eleitor de baixa renda do Nordeste tem uma identificação quase religiosa com o ex-presidente Lula. Deus no céu, Lula na terra. O Lula é visto por eles como um dos seus. E Lula é um deles: retirante, filho de família pobre, abandonado pelo pai. Ele tem toda uma história muito comum à população pobre do Nordeste. E eu acho que não é seguro que colocar mais dinheiro na mão dessas pessoas vai fazê-las esquecer a devoção que elas têm pelo Lula, que é quase religiosa.

Mas, com o auxílio emergencial, a aprovação ao Bolsonaro cresceu…
Mas o Lula estava na cadeia nessa época. Agora, o Lula vai fazer campanha. E vai viajar pelo Nordeste, vai falar a língua que os nordestinos pobres entendem e gostam.

E quanto à agenda do governo, há algo que pode avançar no restante do mandato?
Eu acho pouco provável. Aqui e acolá, alguma coisa pode emplacar, como a privatização dos Correios ou da Eletrobras. Mas acho muito difícil, porque vamos entrar em período eleitoral. A partir de abril, a campanha começa na prática, com a escolha dos candidatos, embora a campanha na TV só comece em agosto. A partir de abril, ocorre o processo de descompatibilização de quem exerce cargo do governo e a campanha começa na rua. Na verdade, a campanha já começou. E, quanto mais o tempo passa, mais os parlamentares vão se dedicar a visitas a suas bases e rejeitar qualquer medida que possa ser percebida como negativa por um eleitorado que adora empresa estatal: 69% dos brasileiros acreditam que o Brasil precisa ter empresa estatal. Medidas impopulares não costumam ser aprovadas em ano de eleição mesmo em países mais ricos. Imagina no Brasil, onde há um sistema político disfuncional, com dominação de interesses fisiológicos e prevalência da agenda do Centrão, que é de irresponsabilidade fiscal. Fazer reformas que alterem a estrutura do gasto, nem pensar. O período de reformas desse governo está chegando ao fim.

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