O último dos moicanos: Sequoia Capital, agora, quer investir no Brasil e América Latina

A gestora americana, um dos principais fundos de venture capital do Vale do Silício, só fez dois investimentos na região: Nubank e Rappi. Agora, um de seus sócios, Doug Leone, avisa em um post que chegou a hora de investir na América Latina “do seed ao IPO e além”

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O sócio da Sequoia Capital, Doug Leone

Poucos fundos de venture capital acompanharam a evolução das empresas do Vale do Silício como a Sequoia Capital. Fundada em 1972, em Menlo Park, a gestora investiu em empresas como Cisco, Apple, Yahoo, Google, LinkedIn, PayPal, entre muitas outras empresas que se tornaram gigantes.

Os investimentos são feitos em empresas em diversos estágios nos Estados Unidos, na China, na Índia e em Israel. A gestora já captou 30 fundos que somados levantaram  quase US$ 20 bilhões. Mas, até agora, a Sequoia Capital praticamente virou as costas para a América Latina, onde tem apenas dois investimentos: o banco digital brasileiro Nubank, que vale US$ 30 bilhões, e o aplicativo de delivery colombiano Rappi.

Não que a gestora não tivesse tentado encontrar bons negócios por aqui. David Vélez, o fundador do Nubank, chegou a trabalhar para Sequoia na região. Mas sem encontrar startups para que seguissem os critérios de investimentos da gestora, ele resolveu se tornar empreendedor e ganhou um cheque de seu antigo empregador.

Mas, em um post no blog da Sequoia Capital no Medium, o italiano Doug Leone, que é sócio da gestora desde 1996, sinalizou que a gestora vai começar a investir na América Latina.

“A oportunidade de mercado está presente e o ecossistema está pronto e estimulado”, escreveu Leone, em artigo assinado em conjunto com Sonya Huang, uma das sócias da Sequoia. “Não planejamos fazer muitos investimentos. O modelo da Sequoia é investir em um pequeno número de empresas ousadas que sonham alto.”

No artigo, Leone acrescentou que “embora não estejamos correndo para investir, olhamos para a oportunidade na América Latina com entusiasmo e otimismo renovado, do seed ao IPO e além”.

Trata-se de uma mudança de opinião em um período de pouco mais de dois, quando o próprio Leone participou da conferência Brazil at Silicon Valley, no começo de 2019, e enumerou uma série de motivos pelos quais não investia em startups do Brasil. Entre eles, o País não formava engenheiros suficientes e que os empreendedores daqui copiavam modelos de negócios que deram certo em outros países.

“Nós não víamos muitas inovações no Brasil”, disse ele, na ocasião. “Vamos olhar para o número de graduados nas chamadas carreira ciência, tecnologia, engenharia e matemática. No Brasil, são 170 mil por ano. Nos Estados Unidos, são 600 mil. Na China, esse número é de 6 milhões.”

Mas o que mudou num período de pouco mais de dois anos que fez Leone e a Sequoia a reverem suas opiniões? “Ficamos maravilhados com a qualidade dos fundadores na onda atual. Eles nos parecem ter ambição em grande escala, pensamento estratégico, controle rígido sobre métricas, excelência operacional e energia contagiante e paixão pelo que estão construindo”, escreveram Leone e Huang. “Estimulados pelo sucesso de empresas como Nubank e Rappi, esses fundadores estão pensando grande, sem medo de tentar o impossível.”

Vários exemplos são citados pela dupla como os casos de sucesso na América Latina. Entre eles, a plataforma de aluguel brasileira QuintoAndar, o site mexicano de compra e venda de carros usados Kavak e o estúdio brasileiro de games para celular Wildlife Studios. “Estimulados pelo sucesso de empresas como Nubank e Rappi, esses fundadores estão pensando grande, sem medo de tentar o impossível”, escreveram em um trecho do post.

Entre as áreas que Sequoia está de olho, a primeira é a de serviços financeiros, como bancos digitais que desafiam os incumbentes e insurtechs. A gestora também tem interesse em e-commerce. “Acreditamos que o comércio eletrônico florescerá de uma forma distintamente fora dos EUA, com modelos de negócios mais semelhantes aos da China”, relata o texto.

Outro setor é o de saúde, no qual os sócios da Sequoia acreditam que serão remodelados pela tecnologia, e o de educação. “Acreditamos que a oportunidade é enorme”, escreveram Leone e Huang.

Os dois investidores também enumeraram uma série de indicadores econômicos que mostram que a América Latina ganhou um novo status para a gestora de venture capital. Entre eles, o fato de ter um população relativamente jovem com uma alta taxa de penetração de dispositivos móveis, superando inclusive taxas da China e Índia.

A taxa de envolvimento da internet da região é também uma das mais altas no mundo, com média diária de 9 horas de uso – contra cerca de 6,5 horas dos Estados Unidos. O Brasil, em especial, é um consumidor voraz de aplicativos de mensagens, sendo o segundo mercado do WhatsApp no mundo depois da Índia e a quinta maior população de usuários de mídia sociais do planeta e a maior fora dos Estados Unidos e países da Ásia.

“Além disso, a América Latina abriga uma classe média em ascensão que agora compra saúde e educação, carros e residências, serviços de entrega e comércio eletrônico”, completam Leone e Huang.

Mas não será tarde demais? Dirão os otimistas que é melhor tarde do que nunca. Mas, agora, a Sequoia vai encontrar um ecossistema mais desenvolvido, com mais competição pelos negócios (o que vai elevar a valuation) e que já está batendo recordes de investimentos em startups.

No primeiro semestre de 2021, os investimentos de venture capital atingiram US$ 5,2 bilhões, um crescimento de 45% em relação ao total investido no ano completo de 2020, que havia sido recorde, de acordo com dados do Distrito, ecossistema independente de startups.

Esse crescimento tem sido apoiado por fundos internacionais que começaram a olhar o Brasil – alguns já estavam por aqui, mas passaram a fazer cheques maiores e com mais frequência.

Um exemplo foi o aporte da Loft, que captou US$ 450 milhões e atraiu nomes conhecidos do mercado local e outros que não estavam por aqui, como D1 Capital, Advent, Altimeter Capital, CPPIB, DST Global, GIC, Silver Lake, Soros, Tarsadia Capital e Tiger Global.

Além disso, os principais fundos que atuam na região fizeram captações recentes e estão com muitos recursos para investir. O Kaszek, por exemplo, acabou de captar US$ 1 bilhão em dois novos fundos para investir em startups em estágio inicial e avançado na América Latina.

Clique aqui para ler o artigo completo (em inglês).

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