O upgrade de Bal Harbour, o já ultraluxuoso vilarejo de Miami

O vilarejo de Miami completa 75 anos e renova sua paisagem com ampliação da praia, a criação de um parque, de um megapier e atrai grandes nomes do mercado financeiro e do mundo tech

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O megapier Bal Harbour Jetty, que marca “o fim” da praia do vilarejo, orçado em US$15 milhões, que será inaugurado no próximo ano

BAL HARBOUR – A versão de Miami diminuta, silenciosa, sem filas ou outlets e com praias com longas faixas de areia clarinha, muito limpas e quase desertas, está ficando ainda melhor. Bal Harbour, na Flórida, passa por um upgrade generalizado para celebrar seus 75 anos de fundação.

Com luxuosos hotéis de redes como St. Regis e Ritz-Carlton e condomínios, beach clubs exclusivos, restaurantes badalados, um shopping com corredores tranquilos, desova de tartarugas à beira-mar, o condado está se preparando para atrair mais visitantes e investidores com a inauguração em breve de um parque, um novo píer e a ampliação do famoso do shopping de luxo Bal Harbour Shops.

O Brasil está há vários anos entre os três principais mercados emissores de turistas para lá, junto de argentinos e dos próprios americanos. Brasileiros são donos de imóveis e lideram um outro ranking por lá, o de gastos em compras no Bal Harbour Shops. Não por acaso, a maioria das lojas tem funcionários que falam – ou pelo menos “arranham” – o português, a língua mais ouvida em seus corredores.

Recentemente, os chilenos também passaram a representar uma fatia importante do afluxo de turistas ao destino, com números “que crescem significativamente a cada doze meses”, segundo o departamento de marketing de Bal Harbour. Têm aumentado sua participação também entre os compradores de imóveis por ali. E agora chega a vez dos britânicos, principalmente durante o inverno do hemisfério norte.

Como as praias de Bal Harbour são um dos principais atrativos para turistas e novos residentes, o vilarejo acaba de ampliar a faixa branquinha em 240.000 metros cúbicos de areia, tornando-a duas vezes mais larga. A areia levada para lá, por sinal, foi meticulosamente selecionada por uma junta de biólogos e cientistas marinhos para garantir que fosse 100% compatível com as necessidades das espécies de tartarugas que desovam frequentemente bem ali.

No final do ano passado, foi completada a primeira fase do Waterfront Park de Bal Harbour, situado em frente à atual Prefeitura. O parque público à beira d’água e repleto de verde ganhará ainda áreas específicas para prática de esportes como futebol e frisbee, espaços de meditação, um grande centro de eventos (com rooftop com mini floresta urbana e projeto paisagístico de Raymond Jungles), centro comunitário e até um playground eco-sustentável projetado pela premiada empresa de design dinamarquesa Monstrum.

Projeto do Waterfront Park, parque público à beira d’água, repleto de verde e um grande centro de eventos

O design do novo centro comunitário, por sua vez, ficou a cargo do arquiteto Bernard Zyscovich, que também comanda o projeto de super expansão do Bal Harbour Shops. O centro de compras ganhou novas lojas Roberto Cavalli e Bally, enquanto que a Gucci dobrará de tamanho e ganhará novo andar. Esta semana, por sinal, foi inaugurada uma butique Burberry, mais um passo da grife britânica para ampliar sua presença nos EUA.

O sempre badalado restaurante Makoto também foi ampliado e agora tem área ao ar livre no terceiro andar. O shopping de luxo terá outros cinco restaurantes e diversas lojas nos próximos anos. O mediterrâneo Aba, do chef CJ Jacobson, abrirá as portas já em setembro próximo.

Em outra frente, o vilarejo começará em breve as obras do novo Bal Harbour Jetty (com inauguração prevista para o final do ano que vem), onde hoje fica o píer que marca “o fim” da praia de Bal Harbour.

O novo megapíer, orçado em US$15 milhões, não apenas transformará e ampliará o pequeno cais existente —com áreas para ciclistas, crianças, pescadores e diferentes espaços sociais e acesso direto à água, inclusive —, como praticamente dobrará sua extensão e avançará por baixo do elevado da Collins Avenue (a super avenida que corta as ilhas de Miami de sul a norte, até virar a via expressa A1A em Haulover).

Com espaço para pedestres, ciclistas e famílias, sempre à beira d’água, a ideia é valorizar as vistas para o Oceano Atlântico e conectar de certa forma ao mar áreas mais afastadas do vilarejo, como os arredores do hotel Beach Haus (que também acaba de ser renovado e ampliado). E tudo isso, é claro, deve atrair muito mais movimento turístico à região.

“Temos uma fartura impressionante de espaços à beira d’água. Finalmente faremos bom uso deles”, diz Jorge Gonzalez, general manager do destino, que tem na manga ainda planos de uma nova prefeitura orçada em US$20 milhões – cujo projeto arquitetônico incluiu até obras de Niemeyer em Brasília como inspiração.

O píer atual que será transformado até o fim do 2023

Pequena notável da Flórida

Com meros 2 km de extensão e pouco mais de três mil habitantes, esse “village” (como prega a denominação legal do estado da Flórida) tem administração própria e dinheiro de sobra. A boa vida vem em grande parte do fato de guardar para si todo o valor arrecadado com suas “city taxes” e impostos imobiliários, sem repassar para órgãos regionais ou estaduais.

Dados pré-pandemia apontavam os setores imobiliário, saúde e hospitalidade com as três maiores indústrias da cidadezinha. A renda média anual é de US$76.962, consideravelmente superior à renda média dos EUA em geral, que é de US$65.712 – e vem crescendo em torno de 7% ao ano. E tem nove vezes mais gente na indústria imobiliária do que a média nacional.

Considerada um dos melhores lugares para se viver na região de Miami, Bal Harbour é sempre associada à segurança, vida à beira-mar, consumo e gastronomia de alto nível, menor fluxo de turistas.

Os dados oficiais mostram que o valor médio de um imóvel em Bal Harbour era de US$ 1,27 milhão em 2019, mais de cinco vezes superior que a média nacional. Esse valor chegou a crescer quase 25% em um único ano justo antes da pandemia.

As consultorias imobiliárias continuam registrando valorizações constantes até hoje. Em apartamentos dos condomínios de luxo como o Oceana ou o St. Regis, por exemplo, o incremento de preço chega a 36% em relação ao ano passado, segundo a David Siddons Group.

Com um dos menores impostos imobiliários da região (do Miami Dade County, tem um das taxas mais baixas, 1,74%, contra índices que chegam a até 2,52% em outras regiões de Miami), Bal Harbour associou a arrecadação multimilionária à promoção turística constante na última década.

Além do boom de turistas internacionais na reabertura das fronteiras americanas para a América Latina, desde o começo da pandemia muitos americanos de outros estados compraram residências ali, atraídos pelos incentivos fiscais, praias quase privativas e, é claro, a ausência de restrições sanitárias contra a Covid-19.

Segundo o departamento de marketing, Bal Harbour está recebendo transferências mais altas da Califórnia e de Nova York, principalmente instituições financeiras, escritórios de advocacia e hedge funds.

O vilarejo acaba de ampliar a faixa branquinha em 240.000 metros cúbicos de areia, tornando-a duas vezes mais larga (Foto: Mari Campos)

O vila tem se beneficiado também do poder de Miami em atrair continuamente a migração de empresas do Silicon Valley nestes tempos pandêmicos. Francis Suarez, prefeito de Miami, tem criado benefícios e reduzido taxas de forma a tornar a cidade um paraíso para investidores e empresários.

Novos moradores de Miami dessa leva incluem investidores em tech como Peter Thiel ou David Sacks, craques de crypto como Anthony Pompliano e diversos fundadores de startups.

Com todo esse movimento, Miami anda batendo recordes nas transações imobiliárias. Teve um aumento médio de 28,2% nos preços dos imóveis (o quarto mais alto do mundo) no ano passado, de acordo com o PIRI100 (Knight Frank Prime International Residential Index).

Mesmo que não tenha nenhum foco em business, Bal Harbour tem surfado nessa onda. É para lá que muitos dos CEOs e COOs estão se mudando. Caso, por exemplo, do polêmico Adam Neumann, fundador da WeWork, que recentemente vendeu sua residência na Califórnia e mudou de mala e cuia para Bal Harbour, em uma transação de US$ 44 milhões.

Diversão e arte para qualquer parte

Antes um mero vilarejo à beira-mar, Bal Harbour decidiu nesse século investir pesado para se consolidar como um destino internacional sofisticado. A cidadela quer tornar-se mais e mais uma referência no setor artístico e cultural, com novos espaços exclusivos para eventos de diferentes portes nos projetos em andamento.

Antes de comandar Bal Harbour, cargo que já ocupa há mais de uma década, Jorge Gonzalez, general manager do destino, fez parte da administração de South Beach e foi um dos grandes responsáveis por levar a Miami a feira Art Basel, hoje, o evento mais esperado do ano pelo turismo local. Acreditando no casamento duradouro do mundo das artes com os negócios, implantou, em 2013, em Bal Harbour um de seus maiores sucessos: o Museum Access Program.

Gratuito, o programa oferece a todos os moradores e hóspedes de qualquer um dos hotéis de Bal Harbour acesso liberado aos melhores museus de Miami – incluindo os sempre disputados PAMM e Frost. Melhor ainda: através de um cartão que não expira nunca.

O restaurante Makoto que foi ampliado no Bal Harbour Shops ( Foto: Mari Campos)

Com sucesso estrondoso, Gonzalez achou que o programa poderia ir ainda mais longe e agregou o Unscripted Bal Harbour Art Access, que cria periodicamente eventos e passeios privativos em alguns desses museus, exclusivamente para residentes e hóspedes dos hotéis de Bal Harbour – com direito a um bom brinde com champagne para todos, é claro.

Jorge Gonzalez conta que administrar South Beach e Bal Harbour são tarefas muito distintas. “Enquanto South Beach é uma mistura impressionante de públicos e estilos que mudam o tempo todo, com vai e vem de negócios, em Bal Harbour tudo é muito constante”, define. Ainda assim, garante que gosta de inovar o tempo todo e promoverá ainda outras novidades no destino.

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