OPINIÃO: A morte das startups no Brasil

Reforma tributária promoverá fuga de investimentos, empresas e cérebros do País

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Com duas décadas de atraso em relação a países como os EUA, o ecossistema de startups começou a florescer no Brasil faz pouco tempo. Hoje são mais de 13.400 marcas criadas por empreendedores que sonham grande e buscam usar a tecnologia e a inovação para resolver problemas da sociedade, desde a democratização da saúde e educação à revolução que temos visto no sistema financeiro.

São empresas como Nubank, Rappi, iFood, QuintoAndar e dr.consulta, que geram empregos, pagam impostos e atraem investimentos estrangeiros, a fim de promover uma verdadeira transformação nesses mercados. Mas todo esse universo está ameaçado pela proposta de Reforma Tributária apresentada pelo governo federal.

Se for aprovada pelo Congresso da forma como que está, será o fim de todo o mercado de venture capital no Brasil. Estará se decretando a morte das startups, do empreendedorismo, da inovação, da atração de investimentos estrangeiros e do ambiente de negócios no país. Startups baseadas no Brasil hoje terão que mudar suas sedes para não perder seus investidores.

O resultado será o contrário do que imagina o governo. Ao invés de aumentar a arrecadação de impostos, haverá, sim, uma debandada de empresas, investimentos e talentos para países que valorizam e incentivam a inovação, e que respeitam o empreendedor.

De imediato, o Brasil perde cerca de R$ 20 bilhões que vêm sendo investidos por ano nesse ecossistema e se coloca na contramão de países que buscam atrair capital estrangeiro, perdendo preferência para outros países emergentes da América Latina e Ásia.

Nos últimos dias, grupos de empreendedores e investidores se agitaram em busca de uma boia de salvação. E, para minha tristeza, a única solução encontrada até agora – e que já começou a ser estudada – é a mudança de residência fiscal para outros países, como o Uruguai.

Isso aconteceu na mesma semana em que a Sequoia, gigante de venture capital que investiu no Google, Yahoo, LinkedIn, Paypal e Nubank em seus estágios iniciais, publicou artigo falando da importância que terá a América Latina para seus negócios.

O Brasil, naturalmente, seria o principal foco não só por sua relevância global e pelo ecossistema que viemos construindo nos últimos anos, mas pelos grandes desafios que o País precisa resolver em tantas áreas. Problemas que podem ser equacionados ou, pelo menos, minimizados, a partir do investimento em tecnologia e inovação.

Se essa Reforma Tributária passar, imediatamente, a Sequoia e qualquer outro investidor de venture capital irá redirecionar a mira para outros lugares e nós, voltaremos muitas casas no tabuleiro.

Se a Reforma Tributária for aprovada pelo Congresso da forma como que está, será o fim de todo o mercado de venture capital no Brasil

Extremamente burocrático, o Brasil já não é nem um pouco amigável com o empreendedor. Entre os 190 países avaliados pelo ranking Doing Business 2020 – feito pelo Banco Mundial para analisar a facilidade de se fazer negócios – ocupa a 124ª posição.

Atrás de vizinhos como Chile (57º), México (60º) e Colômbia (67º). Só estamos à frente da Argentina (126º) e da Venezuela (188º). Ou seja, o que já era difícil, se tornará impossível. E olha que o que é tido como impossível é justamente o que costuma desafiar e estimular o time das startups. Mas, nesse caso, será realmente inviável.

Já convivemos com complexidade tributária, insegurança jurídica e a alta carga de impostos sobre o sistema produtivo. Por isso, uma Reforma Tributária é realmente urgente e necessária, mas precisa ser feita de forma a maximizar a arrecadação nas próximas décadas e não apenas no próximo ano fiscal. Esse pensamento imediatista e simplista ao invés de levar o país a se desenvolver e ter mais justiça social, levará a mais desemprego e redução de renda.

A pandemia deixou claro o quão perigoso é quando somos dependentes de tecnologias e insumos estrangeiros. Não podemos ficar reféns dos outros. Temos capacidade de assumir o protagonismo global, inovar e desenvolver tecnologias, como já começamos a fazer.

Mas isso é um investimento contínuo e de longo prazo. Se pararmos um ano, retrocederemos décadas e veremos nossos empregos sendo transferidos para países vizinhos, junto com recursos financeiros e todo potencial tecnológico que temos hoje. É isso que queremos?

*Thomaz Srougi é fundador e executive chairman do dr.consulta, tem MBA pela University of Chicago Booth School of Business, é mestre em Políticas Públicas pela University of Chicago Harris School of Public Policy, concluiu o GMP da Harvard Business School e é um Kauffman Fellow.

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