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OPINIÃO: Na economia, o finzinho do ruim

Diálogo mais fluido entre os Poderes, enfrentamento do desafio fiscal, inflação em queda e dólar abaixo de R$ 5,50 são sinais da melhoria no desempenho de diversas variáveis econômicas no Brasil

 

Há meses, chamávamos a atenção do leitor para a melhoria do quadro macroeconômico que se aproximava, apesar do clima de desalento que permeava a sociedade. De lá para cá, este sentimento negativo só fez piorar, apesar da evidente melhoria no desempenho das variáveis econômicas.

A melhor notícia recente foi a reversão da curva de mortalidade pandêmica, resultante da combinação de maior isolamento e vacinação crescente de vulneráveis. Este processo, que em nada diminui a tragédia das vidas perdidas aos borbotões, vai trazer uma distensão no ambiente pessimista que nos assola há um ano. É o pilar indispensável para que progressos nos fronts político e econômico reanimem o Brasil.

Comecemos pelo cenário político. Um orçamento mambembe finalmente está em vigor. Fruto do toma lá dá cá, mas que respeitou a Emenda do Teto do Gasto, com a justificada exceção do enfrentamento da pandemia. Desta forma, não se concretizou a ameaça de que se estivesse enterrando a austeridade fiscal, iniciada ao final do Governo Dilma e que culminou com o limite constitucional ao crescimento do gasto.

Melhor: Paulo Guedes mostrou-se capaz de negociar uma solução com o Congresso, como só acontece em democracias maduras. E vamos ser razoáveis: não há que tratar emendas parlamentares como se fossem a transferência de fundos públicos para os bolsos dos parlamentares, em vez de aceitar que o deputado sabe melhor do que Brasília o que almeja seus eleitores. Ele sabe que, em um ano e meio, terá um encontro com eles e, se esta for a percepção, não se reelegerá.

Note que, desde o confronto do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, com o Executivo, é a primeira vez que a concórdia entre os dois poderes inaugura uma quadra para discutirmos e aprovarmos reformas no Legislativo.

As trocas ministeriais do mês passado foram todas na direção de melhorar a qualidade técnica da gestão federal, com a saída de quadros da tchurma presidencial. Na Polícia Federal, por exemplo, em vez da nomeação do preferido de Bolsonaro, cuja disputa provocou a queda de Moro, foi indicado um delegado da Casa que já chefiou a corregedoria da Polícia Federal, a Interpol no Brasil e trabalhou no primeiro escalão de governos estaduais de direita e de esquerda, além de ter uma passagem pelo STF, o que o faz um servidor público independente, com visão de 360 graus da política brasileira.

E há mais: as privatizações, que Salim Mattar diligentemente começou a viabilizar dois anos atrás, estão acontecendo com grande sucesso, como ilustram as dos aeroportos e das concessões rodoviárias. E mais está por vir.

Voltamos a ter um ministro das Relações Exteriores que não aceita mais ver o Brasil tratado como um pária mundial. E se é verdade que a postura construtiva de Bolsonaro na Cúpula do Meio Ambiente foi recebida com ceticismo, dadas as declarações pregressas do Presidente e as posições do ministro boiadeiro do Meio Ambiente, inegavelmente, houve um avanço, saudado pelo próprio presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

Claro, é governo Bolsonaro, o descaso pela meritocracia sempre está presente. Na CAPES, órgão da Educação fundamental para o balizamento da pós-graduação brasileira, substitui-se o brilhante ex-reitor do Mackenzie, Benedito Guimarães Aguiar Neto, doutor em Engenharia na Alemanha, por Cláudia Mansani Queda de Toledo, uma dona de universidade insossa, respaldada apenas por seus laços de amizade com o atual ministro, Milton Ribeiro.

Em suma, pode ainda não ser o começo do bom, mas certamente é o finzinho do ruim

Na economia, analisemos a situação fiscal. O crescimento do déficit pode afetar a economia de duas maneiras. Estruturalmente, se houver uma percepção de que seu crescimento está fora de controle, a administração da dívida publica se torna complexa, visto que os agentes passam a temer uma futura inadimplência.

Esse risco assustador está contido, pela sustentação do compromisso do limite do crescimento do gasto federal. Já conjunturalmente, o déficit afeta a economia ao se expandir em períodos de pleno emprego, pois o governo entra em competição contra o setor privado, para comprar bens e serviços que não podem ter sua oferta doméstica ampliada, gerando inflação na veia. Ora, com a ociosidade atual, só maníacos podem temer inflação provocada por excesso de demanda.

Portanto, o momento é de foco nas reformas, com ajuste estrutural do gasto, quebra do corporativo público e redefinição de responsabilidades entre as três esferas de governo.

Quanto à inflação, a queda nos índices do atacado prossegue vigorosamente, beneficiando os preços ao consumidor. Em algumas semanas, a inflação mensal estará próxima a 0,25%, flagrando a desnecessária truculência do Banco Central, tentando interromper a alta do que já estava caindo: um caso típico, catalogado na patologia de política econômica, como ejaculação monetária precoce.

Em suma, pode ainda não ser o começo do bom, mas certamente é o finzinho do ruim: mortalidade cadente, diálogo mais fluido entre os Poderes, enfrentamento do desafio fiscal, inflação em queda, atividade e emprego em recuperação e dólar caindo abaixo de R$ 5,50/dólar, mesmo com juros estáveis. Ações se beneficiarão da consolidação deste cenário, assim como os vendidos em moedas fortes e os tomados em juros longos.

Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do NeoFeed

Luis Paulo Rosenberg é economista e consultor, com carreira destacada nas áreas acadêmica, empresarial e na atividade pública. PHD em economia pela Vanderbilt University, atuou como assessor do Ministro Delfim Neto, responsável pelos setores de Ciência, Tecnologia e Investimentos em Energia.Foi membro da equipe de negociação com o FMI, membro do Conselho de Administração da Cia. Suzano, Nestlé e Banco BBVA. Atualmente é sócio-diretor da Rosenberg Partners.

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