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Os alertas e as preocupações de Candido Bracher, CEO do Itaú Unibanco, com o Brasil na pós-pandemia

Em entrevista ao NeoFeed, o presidente do maior banco privado do Brasil fala sobre o cenário político, economia, recessão, transformação digital, racismo, meio-ambiente e ainda avisa que o País e as pessoas precisam estar conscientes que, passada a pandemia, todos estarão mais endividados

 

Candido Bracher, CEO do Itaú Unibanco

A narrativa que impera sobre o cenário pós-pandemia é a de um mundo melhor, mais digitalizado, solidário, em que as pessoas se preocuparão mais umas com as outras.

O presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, até compartilha dessa visão, mas não esconde a realidade nua e crua de como o País, as pessoas e as empresas estarão depois que a crise passar.

“Certamente muito endividados”, diz ao NeoFeed. “Essa, para mim, é uma grande certeza e é preciso que estejamos conscientes disso.” Em sua opinião, o peso desse endividamento dependerá, sobretudo, da manutenção da taxa básica de juros em patamares mais baixos.

“É isso o que permite que você recupere gradativamente a saúde econômica. Você estará endividado, mas a dívida não crescerá tão depressa”, diz. Para isso, entretanto, é preciso que os poderes Executivo e Legislativo conversem.

“Seria muito importante que houvesse um sentido de unidade maior para promover não só as medidas de alívio agora no momento da crise, mas, principalmente, as medidas que permitirão que a dívida pública não vai crescer na saída da crise.”

Mas o que se vê, atualmente, está bem distante dessa realidade. “Lamento que muito espaço está sendo ocupado pelo radicalismo”, diz o executivo que comanda o maior banco privado do País.

Com ativos de R$ 1,98 trilhão, 56 milhões de clientes e uma carteira de crédito de R$ 769,2 bilhões, o Itaú Unibanco conta com um exército de 95 mil funcionários e 4,5 mil agências espalhadas pelo Brasil.

Na entrevista que segue, que marca o aniversário de primeiro ano do NeoFeed, Bracher fala sobre as tensões políticas, a demora na implementação das medidas econômicas, da inadimplência e da recessão que virá pela frente.

Ele também revela como está sendo a transformação digital do banco, a relação com as fintechs e a competição com as big tech. E mais: questiona o modelo de open banking e discorre sobre a doação bilionária do banco e seus efeitos na luta contra o coronavírus.

Bracher não hesitou em comentar sobre racismo, na esteira do assassinato do americano George Floyd, e sobre a situação do meio-ambiente no Brasil. “É o cúmulo esperar que os estrangeiros exijam que a gente cuide da nossa casa. É quase humilhante isso, nós temos de cuidar da nossa casa”, afirma. Acompanhe a entrevista:

Há três meses, entramos no cenário de pandemia, com muitas incertezas. Na sua visão, como sairemos e como estaremos como sociedade depois disso?
Certamente muito mais endividados. Essa, para mim, é uma grande certeza e é preciso que estejamos conscientes disso. Naturalmente, podemos fazer uma série de conjecturas sobre como o coronavírus impacta os sentimentos de solidariedade e empatia, pode ter efeitos colaterais de como estaremos transformados porque aprendemos a trabalhar em home office e de que o novo normal será diferente do antigo normal. Há uma série de conjecturas que podemos fazer que são mais agradáveis, mais interessantes. Mas tem essa conjectura da qual não tenho nenhuma dúvida. A dívida pública vai crescer, as pessoas físicas estarão mais endividadas e as empresas também estarão mais endividadas. Não há dúvida de que ocorrerá e precisamos nos preparar para isso.

Como se preparar para isso?
A principal medida é garantir que a taxa de juros permaneça baixa. É mais ou menos como dizer que haverá um longo inverno e o que eu preciso fazer para me proteger é ter um agasalho. A pré-condição para a viabilidade pós-pandemia é a taxa de juros básica permanecer baixa. É isso o que permite que você recupere gradativamente a saúde econômica. Você estará endividado, mas a dívida não crescerá tão depressa. A dívida pública, das empresas e assim por diante. Para que isso aconteça, é muito importante que o investimento fiscal que está sendo feito durante a pandemia seja bem executado e que tenha prazo para acabar. Daí a importância de se aprovar o orçamento de guerra e cumprir isso. Vai ser muito importante, no fim desse ano, quando a dívida pública estiver possivelmente entre 90% e 100% do PIB, que possa haver confiança de que ela não crescerá fora de controle. Isso é a pré-condição para que a taxa de juros permaneça baixa.

Qual é a sua avaliação sobre o governo, principalmente sobre a equipe econômica? Estão errando ou acertando?
Acho que, ao avaliar as reações da equipe econômica, precisamos pensar no ineditismo da crise. Isso surgiu de repente, de forma inesperada. Nesse sentido, tenho achado que as atitudes do governo, da equipe econômica, estão corretas. Rapidamente, eles reconheceram a necessidade de atuar fiscalmente. A medida dos R$ 600,00 do coronavaucher, como chamam, foi ousada, muito boa. A medida da folha de pagamento foi boa. E outras medidas que estão tomando agora estão na direção correta. Estão sendo demoradas, no entanto. A implementação está sendo lenta porque a nossa máquina estatal é extremamente burocratizada. Isso de um lado, naquilo que é responsabilidade da equipe econômica.

E do lado do governo?
Naquilo que é responsabilidade do governo, lato sensu, aí falo do executivo e legislativo, está havendo pouco entendimento. Seria muito importante que houvesse um sentido de unidade maior para promover não só as medidas de alívio agora no momento da crise, mas, principalmente, as medidas que permitirão que a dívida pública não vai crescer na saída da crise. Essas medidas dependem muito de um bom entendimento geral do governo, o que torna ainda mais lamentável o fato de termos sobreposto uma crise política às crises de saúde e econômica.

Aliás, como você avalia essa briga entre o Executivo, Congresso, STF. Muitos falando que a democracia está em risco. Você acha que a democracia está em risco?
Prefiro ver isso sob o aspecto de uma grande oportunidade perdida. As crises, especialmente essa que veio de fora, que é de saúde, são excelentes oportunidades para provocar empatia, coesão, união nacional dos diferentes. Até no governo americano, com todos os problemas que eles têm lá, vimos o Congresso aprovando um pacote de quase US$ 3 trilhões, uma coisa suprapartidária, todo mundo junto. Infelizmente, no Brasil, estamos colocando as questões partidárias e ideológicas acima da necessidade premente de combater a crise. E eu lastimo isso.

“Infelizmente, no Brasil, estamos colocando as questões partidárias e ideológicas acima da necessidade premente de combater a crise. E eu lastimo isso”

Mas você acha há um risco para as instituições hoje? No Congresso, já se fala da criação de uma frente suprapartidária contra o autoritarismo. No fim de semana, aconteceram manifestações contra o autoritarismo e que acabaram em confusão…
Eu vi os grupos na avenida Paulista e confesso que eu, que sou democrata, não me senti representado. Me pareceu ali um grupo disposto ao conflito. Lamento que muito espaço está sendo ocupado pelo radicalismo.

Mas você vê radicalismo em qual lado?
Dos dois lados. Também do outro lado uma manifestação na frente do STF, com tochas. Você começa a olhar os radicais dos dois lados. O país merece que trabalhemos pela concertação e pelo entendimento.

Agora falando do banco, o Itaú Unibanco fez um grande provisionamento (complementar de R$ 4,5 bilhões no primeiro trimestre) se preparando para a inadimplência. Será muito alta, algo que nunca se viu?
Por enquanto não dá para dizer isso. Fazemos nossas provisões com base em um método chamado perda esperada, onde combinamos uma série de fatores. Um dos principais é a perspectiva de crescimento da economia, e, em cima disso, estimamos quais poderão ser as perdas de crédito no futuro. Então, acho que a inadimplência vai ser muito elevada, mas ainda não dá para dizer que será maior do que vimos em qualquer outra crise. Preciso te dizer que trabalho em banco há quase 40 anos e vi crises de crédito muito graves. A última delas, que foi gravíssima, foi a de 2015 e 2016. A recessão esse ano poderá ser comparável, com algumas diferenças. É uma parada muito mais súbita. Eu diria que será comparável as piores que já tivemos, não sei se será a pior.

O Itaú Unibanco é o maior emissor de cartão de crédito do Brasil. Preocupa a inadimplência nesse segmento?
Nesses momentos de crise, nossa preocupação principal é com a força do balanço financeiro do banco. É disso que você se ocupa, são essas as medidas que toma. Todo o nosso interesse é em auxiliar os clientes a enfrentarem os efeitos da crise e terem condições de se recuperarem depois. Estamos muito mais preocupados com esse aspecto da capacidade de reduzir a inadimplência no nosso balanço, de reduzir a inadimplência entre os nossos clientes, do que com rentabilidade.

E o que está sendo feito para ajudá-los a ficarem menos endividados?
Basicamente são três tipos de medidas que tomamos. Primeiro conceder carência e prorrogações dos vencimentos e, depois, alongar muito o prazo de repagamento. Foram esses dois tipos de medidas. De cara, assim que a crise surgiu, dissemos que todos teriam 60 dias de prorrogação dos vencimentos, porque achávamos que a crise duraria 60 dias. Daí, antes de este prazo se esgotar, concedemos carências de mais 120 dias para as pessoas físicas, até 180 dias para pessoas jurídicas e prazos de até 5 anos ou 6 anos de prorrogação dos vencimentos. Basicamente, esse é o tipo de medida que você toma autonomamente, depende só da gente.

“Acho que as medidas da equipe econômica estão certas, mas está havendo um pouco de demora na aprovação final disso”

E as que não dependem?
Aí, tem outras medidas que não conseguimos tomar sozinhos, em boa parte dos casos, que são os créditos adicionais. Logo na segunda quinzena de março, quando a crise bateu, houve um aumento muito grande de demanda de crédito e a nossa concessão cresceu muito, especialmente entre as grandes empresas. Mas essa demanda vem arrefecendo desde então. E você tem a demanda dos negócios que estão fechados, com o faturamento muito baixo. E essa demanda você tem muito mais dificuldade de atender.

Por quê?
Uma coisa que boa parte das pessoas não leva em conta é que o dinheiro que emprestamos não é nosso, é dos nossos depositantes. E a principal responsabilidade que temos é a de tratar com segurança os depósitos que nos são confiados. E, para isso, tem uma regra básica que é a de que você não deve emprestar para quem tem pouca probabilidade de te pagar de volta. E, na medida em que há uma grande deterioração da situação econômica de boa parte das empresas, se reduz o universo de empresas e indivíduos para quem você pode emprestar.

Aí é que entra o governo…
Para isso é que cabem as medidas fiscais do governo. Esse exemplo do financiamento de folha de pagamento, para empresas com faturamento anual de até R$ 10 milhões, onde os bancos emprestam e arcam com 15% do risco de crédito sem ter nenhum spread e o governo com 85% do risco de crédito, é o tipo da medida saudável e que foi tomada em grande escala nos países desenvolvidos. Na Inglaterra, por exemplo, o governo paga o salário das pessoas. Aqui no Brasil, também teve a medida do governo de pagar o complemento. Esse é o tipo de medida que você usa numa emergência e é por isso que é admissível que a dívida pública suba para até 90% do PIB no fim desse ano. Para manter as empresas e pessoas durante o tempo mais grave da crise e permitir que se recuperem depois.

“É admissível que a dívida pública suba para até 90% do PIB no fim desse ano. Para manter as empresas e pessoas durante o tempo mais grave da crise e permitir que se recuperem depois”

Mas muitas empresas têm reclamado que o dinheiro não está chegando na ponta…
A maior parte dessas linhas ainda não foi aprovada. Tudo aquilo que já foi aprovado pelo governo e está funcionando, os bancos estão colocando em prática com grande eficiência. A distribuição dos R$ 600 chegou na ponta, o empréstimo de folha de pagamento para empresas com faturamento anual de até R$ 10 milhões também. Mas isso tudo pode crescer mais. Acho que as medidas da equipe econômica estão certas, mas está havendo um pouco de demora na aprovação final disso.

O banco prevê uma queda no PIB de quantos pontos percentuais?
O banco desistiu de prever um número exato já há uns dois meses. Fizemos uma matriz onde colocamos, de um lado, a duração da quarentena. Do outro lado, a velocidade do ritmo de retomada. Isso dá uma matriz e, com base nela, há várias possibilidades. Hoje, estamos entre 4,5% e 5,5% de queda. Agora, naturalmente, quanto mais tempo demorar a retomada da normalidade, de as pessoas poderem circular normalmente, menor será o crescimento esse ano, maior será a queda na atividade econômica, e isso agrava a inadimplência. Infelizmente, não estamos indo bem também na parte da saúde. E isso tende a alongar o período de inatividade e agravar a recessão.

Quando voltaremos a normalidade ou a patamares de 2019 na economia?
Só depois que tivermos uma vacina. A população de risco, por exemplo, não vai sair às ruas. Quando iremos a um cinema novamente? Só depois que tiver uma vacina.

Muita gente tem dito que a bolsa brasileira está descolada da realidade mundial. Você acha que tem um excesso de otimismo aqui? Ou vamos sentir mesmo nos próximos trimestres?
Vamos sentir mesmo nos próximos trimestres. Estamos, evidentemente, numa situação de grande volatilidade. O que pode acontecer daqui para frente pode ser muito bom e pode ser muito ruim. Acho que depende muito da questão que falei inicialmente, por isso que bati tanto nela. A questão de conseguirmos mostrar para os agentes econômicos, de uma maneira geral, que passada a pandemia a nossa dívida pública vai se estabilizar.

“Infelizmente, não estamos indo bem também na parte da saúde. E isso tende a alongar o período de inatividade e agravar a recessão”

Um dos novos mantras no mercado é o de que a pandemia acelerou a transformação digital. Pessoas que nunca tinham usado os meios digitais passaram a usar. Nesse sentido, o banco pretende reduzir o número de agências bancárias?
É verdade que essa crise foi um catalisador na digitalização das pessoas. Estamos abrindo o dobro de contas digitais do que abríamos antes da crise. Em um mês e meio, os nossos usuários digitais cresceram 13%. Por outro lado, quem não se digitalizou nessa crise, é porque tem realmente barreiras muito grandes para se digitalizar. Se você prefere ir à uma agência, no meio de uma pandemia, correndo risco de se contaminar, com uma doença em que os hospitais estão superlotados para atender… Se você se expõe a todos esses riscos, a barreira de digitalização é muito grande. Então, para uma parcela da população, há dificuldades muito grandes de se digitalizar e essas pessoas precisarão continuar a serem atendidas. Se por um lado é verdade que a digitalização se intensificou, por outro lado eu não vi elementos que me permitam concluir que você pode prescindir das agências neste momento.

Mas não vai ter uma readequação da rede?
Isso já estava em andamento e esse é um processo que continua. Acho que o número de agências tende a cair e manterá a tendência de queda. Mas deixei de ter ilusões de que seja alguma coisa que fique completamente desnecessária num prazo curto de tempo.

No campo digital, o Bradesco tem o Next e o Banco do Brasil em sociedade com o Bradesco tem o Digio. O Itaú Unibanco não tem uma marca para banco digital. Por quê?
Essa foi uma avaliação muito cuidadosa que fizemos. Fiz isso, pessoalmente, há três anos. Foi uma pergunta que colocamos seriamente, se deveríamos ter uma marca digital separada. E optamos, muito claramente, por não ter. É uma opção muito consciente. A razão de não ter é porque o grande desafio desses novos tempos é que você tem que ter a capacidade de se transformar continuamente. A velocidade da transformação é cada vez maior. De certa maneira, você abrir uma marca digital é a negação da capacidade de se transformar. Você desiste de transformar o que existe para fazer um novo completamente separado. Só que esse novo envelhecerá, como tudo. Só que, quando envelhecer, e vai ser rápido, o que você faz? Vai desistir dele e fazer outro? A nossa opção foi por aprendermos a nos transformar e investirmos na capacidade de nos transformarmos cada vez mais depressa. Estou satisfeito com a forma como temos evoluído.

“A velocidade da transformação é cada vez maior. De certa maneira, você abrir uma marca digital é a negação da capacidade de se transformar”

Em 2017, o banco comprou a XP e esse negócio se mostrou muito lucrativo. Vocês pensam em comprar outras startups, fintechs ou um banco digital, se o caso não é desenvolver internamente?
Eu não considero a XP uma fintech. Ela é uma empresa que atua num mercado em que já atuávamos de uma maneira eficiente, muito boa, que era difícil de ser replicada por nós, através de agentes autônomos. Além disso, identificamos uma gestão muito competente, muito focada e foi isso o que nos levou a investir. E é um investimento com o qual estamos muito contentes, embora seja algo que não temos nenhuma ingerência. Por outro lado, também nesse tempo, aprendemos a competir com a XP e estamos contentes como temos evoluído nessa nossa área de investimentos. Uma coisa completamente diferente é comprar empresas de tecnologia. No ano passado, compramos a Zup, uma empresa de tecnologia, porque identificamos um potencial de nos ajudar muito e acelerar a nossa transformação tecnológica. Então, temos atenção para possibilidades como essa e não descartamos a possibilidade de comprar uma empresa aqui e outra ali, se acharmos que essas empresas ajudarão no nosso processo de transformação.

Fintechs e empresas de tecnologia que pretendem entrar no mercado financeiro como Amazon, Apple, Google e Facebook não preocupam o banco?
As fintechs se concentram em produtos isolados e o banco oferece um leque diverso de produtos e atende a um público diverso. As empresas de tecnologia são as maiores do mundo, algumas delas valem mais de US$ 1 trilhão na bolsa. Elas podem entrar praticamente em qualquer setor. Tenho impressão de que o setor financeiro não é o mais interessante para a entrada delas. Somos extremamente regulados porque lidamos com poupança pública e os múltiplos do setor são modestos. São dez vezes ou onze vezes o lucro anual. Acho que, na escala desses gigantes, de onde pretendem entrar, o mundo financeiro não figura entre os primeiros. Eles competirão conosco em produtos isolados, em atividades específicas, como as fintechs em geral. Isso, já há algum tempo, faz parte do nosso cenário competitivo e é algo que temos nos preparado e sido capazes de lidar e competir.

Em quais segmentos você enxerga uma competição maior com essas empresas?
Vejo mais os meios de pagamento. É onde pode haver o ingresso deles.

No ano passado, o banco lançou o Iti (plataforma de pagamento por meio de QR Code), que vem muito a calhar num cenário de pandemia, em que as pessoas não querem ter contato. Como está esse produto?
Esse produto está avançando mais lentamente do que imaginávamos no início. Mas tem avançado bem e de maneira consistente. Não é algo para estar plenamente operacional, com todas as operacionalidades que queremos ter, este ano ainda. É para mais para frente.

Por que está avançando mais lentamente?
Porque, com a crise, as prioridades mudam. Orientamos toda a nossa força tecnológica para colocar os funcionários em home-office. E tem o funcionamento básico do banco demandando muito mais atenção agora.

“O open banking é algo que se fala muito. A gente vê funcionando bem em poucos lugares”

O Banco Central está estruturando o open banking para estimular a competição. Como você avalia isso?
O open banking é algo que se fala muito. A gente vê funcionando bem em poucos lugares. Na Inglaterra e na Europa, onde foi implementado há mais tempo, ainda não fez a diferença. É algo que a gente precisa observar melhor para ver que impacto vai ter e se, efetivamente, vai melhorar as coisas para as pessoas. Conceitualmente, faz muito sentido. Sou cuidadoso em fazer previsões porque ainda não vi isso funcionando melhor em nenhum lugar.

O que tem achado da atuação do BC?
O Banco Central é uma instituição de excelência dentro do governo. Inclusive se comparar a nível mundial, com bancos em outros países, o BC se destaca pela qualidade das pessoas e pela qualidade do trabalho que desenvolve. De novo, todas as coisas que funcionam bem, as pessoas acham que é natural. O Banco Central tem muito a ver com a saúde do sistema financeiro brasileiro. Temos uma crise dessa dimensão, que é a crise do coronavírus, e não houve menção de fragilidade do sistema financeiro ou riscos.

Chamou muito a atenção da sociedade a doação de R$ 1 bilhão que o banco fez para combater essa crise do coronavírus. Depois disso, você acredita que as pessoas vão doar mais, servirá de exemplo?
O banco doou R$ 1 bilhão para o Todos pela Saúde e outros R$ 250 milhões para outras iniciativas diversas ligadas a pandemia. Os sócios do Itaú, a Itaúsa, as famílias Vilella, Setúbal e Moreira Salles, doaram mais R$ 200 milhões para o Todos pela Saúde. No total, você tem aí quase R$ 1,5 bilhão. No momento de crise, você precisa cuidar da sua casa e a nossa casa é o Brasil. E a forma de cuidar é ajudando o enfrentamento da crise, e não só através da doação de recursos, mas também na forma da gestão desses recursos. Fazemos isso de forma independente do banco, com uma equipe de seis médicos extraordinários liderada pelo doutor Paulo Chapchap, que tem orientado de maneira eficiente o investimento desses recursos. Foi uma contribuição dupla: o dinheiro e a governança.

Quanto já foi destinado até agora?
O dado mais recente é o de que R$ 850 milhões foram desembolsados até agora.

As doações que vocês fizeram são muito fora da curva. Como chegaram nesse montante superior a quase R$ 1,5 bilhão?
Estávamos muito preocupados e continuamos muito preocupados. Achamos que era algo que podíamos arcar e queríamos algo que estimulasse ações semelhantes por parte de outros agentes econômicos.

Você acha que a semente foi plantada? As pessoas passarão a ter esse costume de doação? Isso seria uma virada de chave?
Gostaria muito de dizer que sim, mas acho que ainda não.

Por que ainda não?
Porque muito mais pode e deve ser feito. Convivo nesse mundo da filantropia já há algum tempo por questões familiares. Doar é uma coisa que transforma a quem recebe e transforma a quem doa. Nesse sentido, é uma coisa muito construtiva, muito boa e precisamos estimular muito mais isso no Brasil. Até do ponto de vista formal, contábil, isso é complicado. As pessoas não sabem como registram essas doações, há pouco estímulo para isso, como tem em outros países desenvolvidos como nos Estados Unidos. A sociedade precisa evoluir na direção de tornar as doações algo muito mais frequente, mais intenso, maior no valor, melhor na forma de gestão. Acho que há muito progresso a ser feito. Estou hesitando em dizer que eu acho que virou a chave porque, quando virou a chave, a gente dá a tarefa por encerrada e estamos longe disso.

No fim de semana, estouraram os protestos nos Estados Unidos por conta do assassinato de George Floyd. Como você está enxergando isso nos EUA e questão da inclusão racial aqui no Brasil, que ainda estamos muito longe. O que pode ser feito?
Essa é uma questão dificílima. Nós aqui no banco temos nos empenhado muito pela inclusão racial, pensando em várias formas de fazer isso e temos feito. Isso depende de um esforço mais global e de estar sempre lembrando disso, ser permanente nos seus esforços. O grande esforço que eu dou para isso é igualdade de oportunidades, todos têm de ter oportunidades iguais. No banco, nosso grande objetivo é criar igualdade de oportunidades para todos os grupos na entrada no banco. Há uma série de medidas que a gente tenta tomar para isso, mas aqui também acho que estamos longe, estamos no começo. Como sociedade, o Brasil tem muito que evoluir nesse sentido.

“Em termos gerais, acho que estamos num momento preocupante. Tem um aspecto que é o ambiental, que é um dos que mais me choca”

Olhando em perspectiva do que já você já viveu e pela sua experiência, você acha que, como sociedade, melhoramos ou pioramos?
Em termos gerais, acho que estamos num momento preocupante. O aspecto ambiental é um dos que mais me choca. Nesse ano, nos primeiros meses, vimos índices de queimada 60% superiores na Amazônia. Num momento de crise, não estamos mostrando nossa melhor face ao mundo. Essa questão ambiental e a forma conflituosa como temos enfrentado a pandemia, e não uma forma de união, como temos visto em outros países, não estão à altura das nossas melhores tradições.

Aliás, a questão ambiental hoje é também muito importante em termos econômicos. Os estrangeiros olham muito isso. O Brasil pode perder muito, financeiramente, até pela fala do ministro Ricardo Salles de “passar a boiada”?
Não vou comentar a fala do ministro. Mas eu acho que, sem dúvida, podemos perder muito. Vou a Davos (Fórum Econômico Mundial de Davos) todos os anos e eu vejo a preocupação crescente dos investidores estrangeiros com a questão ambiental e vejo como isso prejudica a nossa chance de atrair investimentos. Agora, fico indignado de que a gente precise usar esse argumento. Temos que proteger o meio-ambiente porque a gente mora aqui, porque é a nossa casa e temos de cuidar dela. É o cúmulo esperar que os estrangeiros exijam que a gente cuide da nossa casa. É quase humilhante isso, nós temos de cuidar da nossa casa.

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