Os paralelos entre a liderança corporativa e o trabalho social

Nos últimos 20 anos, Maitê Leite, responsável pela operação do Deutsche Bank no Brasil, se envolveu em iniciativas de cunho social. Nessa jornada, ela encontrou diversas semelhanças com a vida corporativa. Neste artigo, ela conta seus aprendizados

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Trabalho no mercado financeiro há 36 anos e hoje sou responsável pela operação do Deutsche Bank no Brasil, onde estou há dez anos. Também trabalhei no Citibank, ABN Amro, RBS no Brasil e no Reino Unido por oito anos.

Em um determinado momento da minha carreira no mundo corporativo ficou evidente que eu deveria expandir a minha atuação em temas e ações que pudessem se traduzir em uma melhoria no contexto social e econômico do Brasil. Tinha a sensação de que a minha contribuição até então era muito intangível, voltada para um universo muito restrito e isto não me parecia suficiente.

Nesta época, eu trabalhava em uma instituição que era pioneira nesta discussão, o ABN Real, que estimulava o setor privado a ter um papel mais relevante e a se tornar protagonista na causa social; entendia-se que não poderíamos ter sucesso como organização ou como profissionais em um país que não desse certo.

Então, comecei a ficar atenta ao tema e me experimentar nestes novos caminhos. Comecei em um projeto que envolveu profissionais voluntários de vários bancos estrangeiros; o objetivo era definir uma metodologia de gestão para escolas públicas no munícipio de São Paulo.

Queríamos avaliar a performance individual da qualidade do ensino, abstenções, evolução dos alunos, participação da comunidade na gestão da escola e ter parâmetros claros que pudessem ser comparados.

O desafio principal foi sincronizar o ritmo e o foco em resultados dos voluntários com os coordenadores do projeto que detinham o conhecimento técnico e prático na área de educação pública.

Já se passaram 20 anos e apesar de ainda me dedicar majoritariamente a minha atividade como executiva, ganhei bastante repertório nas várias iniciativas que me inseri, algumas bem-sucedidas, outras nem tanto. Estabeleci um foco muito específico, atuar em ações que visassem aumentar a chances de inclusão ao mercado formal de trabalho através da educação/capacitação profissional.

Hoje tenho um portfólio de atividades, algumas individuais outras institucionais, mas todas correlacionadas entre si. Sou professora e mentora voluntária do Instituto Ser+, ONG que recruta e capacita jovens aprendizes para grandes empresas. Lá meu papel é fazer com que as temáticas da atualidade sejam assimiladas pelos jovens criando o interesse e aprimoramento das suas competências. Falamos de reformas, dinâmica dos mercados, ética, compliance, inovação, arte, liderança, gestão de carreira, eleições.

Trabalho também junto com outros CEOs e amparados pelo suporte acadêmico da Fundação Dom Cabral dentro do Programa CEO Legacy, em um projeto de formação de lideranças comunitárias no Grajaú. Neste, o desafio é capacitar, profissionalizar, fazê-los autossustentáveis, criar uma rede de múltiplos líderes que se apoiem e ganhem escala juntos pela melhoria das condições da região.

Já no ambiente da indústria alemã, por meio da Câmara Brasil-Alemanha, na qual atuo como VP, o foco é garantir a formação de uma nova geração de mão de obra técnica para Indústria 4.0 baseada no sistema de ensino alemão dual, com ênfase em inovação e sustentabilidade.

E, por fim, junto com o BNP, GS e UBS, estimulamos a inserção de jovens mulheres ao mercado financeiro através do programa DN’A Women, já indo para a sua terceira edição agora em 2021.

Acredito que com estas ações, eu consiga utilizar a minha experiência, ganhar maior entendimento da realidade de jovens com graus distintos de vulnerabilidade e estabelecer caminhos de convergência entre estes dois universos: um carente de mão-de-obra diversa e qualificada e o outro carente de formação e oportunidades.

O mais interessante nesta minha jornada foi encontrar tantos paralelos, algo que inicialmente não me parecia natural. Seguem os principais:

1 – COMPLEXIDADE

O Desafio – os desafios nas comunidades são diretamente correlacionados ao ambiente externo, sendo macroeconômico, político, questões de estabilidade social, eventos naturais e, agora, sanitários. Desafios que se misturam com uma necessidade de continuidade (“Business as Usual”), mas que pautam ajustes de rota e uma estratégia de médio e longo prazo.

Este entendimento não é tão óbvio e sistematicamente monitorado como o fazemos no ambiente corporativo, porém o impacto é mais direto sem as margens de segurança que usufruímos. Por exemplo, qualquer contração econômica automaticamente aumenta a base que necessita de apoio e inversamente reduz a liquidez no sistema. A gestão de risco, crise e contingência são colocados em prática o tempo todo.

Hierarquia e Poder de Decisão – como nas grandes empresas, as estruturas de poder e a hierarquia são extremamente sofisticadas e complexas. A hierarquia oficial é encoberta por entes velados que em muitos casos têm mais influência e domínio sobre o processo decisório, a condução das ações e como os recursos são alocados. A comunidade é composta por trabalhadores comuns, microempreendedores, desempregados, artistas e artesões, membros de facções, outsiders. Saber navegar é também a chave para o sucesso.

Liderança – para sobreviver, o líder precisa se capacitar, trazer boas práticas e se conectar com o ambiente externo, ter habilidade de mobilização e influência em todos os níveis internos para ter uma leitura verdadeira do que está de fato acontecendo. E, acima de tudo, saber quais temas escolher e com quem vai confrontar (“pick your figths”). Vejam o sucesso de Paraisópolis, que hoje se tornou uma comunidade mais bem inserida com o seu entorno e que soube atrair investidores e empreenderes de peso.

O acesso ao capital e a capacidade de gerar resultados concretos e econômicos diferenciam as várias lideranças, quem entrega e gera “pnl”, tem mais força. Dada a ausência crônica de recursos, este se torna um diferencial de poder e são poucos os líderes que conseguem evoluir e se expandir além disso para obter o reconhecimento da comunidade.

2 – CULTURA

As culturas e os códigos de conduta são fortes, têm identidades próprias, são motivo de orgulho e de representatividade frente ao mundo exterior. Novos entrantes têm historicamente mais dificuldade de penetrar e serem aceitos, porém a maioria já reconhece o poder de resiliência e de superação dos que se destacam e querem atrair estes talentos para as suas bases.

Existe também uma percepção crescente de que é possível estabelecer parcerias, ganhar escala, elevar o nível de visibilidade e de que o coletivo muitas vezes tem mais força do que o individual. Isto demostra claramente a evolução na conscientização das virtudes e poder econômico destas comunidades que, assim como as empresas, utilizam estratégias de marketing para se promover e ganhar atenção e apoio. O G-10 das favelas é um exemplo claro disto, iniciativa de líderes e empreenderes sociais das favelas que visa transformá-las em polos de investimento.

3 – INOVAÇÃO COMO AMEAÇA E SOLUÇÃO

A inovação, a conectividade e o uso de soluções tecnológicas são temas que ameaçam isolar e comprometer a sobrevivência de todos que desejam prosperar no longo prazo. São também, nitidamente as alavancas para impulsionar soluções rápidas, eficazes e cada vez mais simples para problemas cada vez mais difíceis.

Muitas startups e iniciativas inovadoras estão presentes nas comunidades qualificando jovens para se tornarem e-atletas, desenvolvendo aplicativos de meios de pagamento, transporte e moradia exclusivos para comunidades e tornando o aprendizado mais acessível para todos.

Esta infraestrutura de conteúdo e serviços irá facilitar uma integração e equidade maior entre todos, mas só será plenamente eficaz se mantivermos e complementarmos com uma comunicação cada vez mais pessoal, mais empática e que seja contínua e consistente. A mobilização só é plenamente efetiva se alcançar o emocional das pessoas sendo elas nas empresas ou nas comunidades.

Estes ambientes são dinâmicos, intensos, exigentes, voláteis, mas incrivelmente fascinantes e gratificantes de atuar. A cada dia me realizo mais entendendo estas nuances e seguindo com o desejo de integrá-los cada vez mais.

Maitê Leite é responsável pela operação do Deutsche Bank no Brasil

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