Os “quatro gigantes” no portfólio de Warren Buffett

Em sua famosa carta anual a acionistas, o bilionário destacou os negócios em seguros; a Apple; a BNSF; de ferrovias; e a BHE, de energia, como as joias da coroa de sua gestora, a Berkshire Hathaway

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O megainvestidor Warren Buffett

Aos 91 anos e dono de uma fortuna estimada em US$ 116 bilhões, Warren Buffett divulgou no último sábado, dia 26 de fevereiro, sua famosa esperada carta anual direcionada aos acionistas da Berkshire Hathaway.

As palavras do bilionário vieram acompanhadas de recordes da gestora em 2021. Além do lucro líquido de US$ 89,8 bilhões, contra US$ 42,5 bilhões, um ano antes, chamou a atenção os US$ 146,7 bilhões em caixa, cifra que traduziu as movimentações incipientes da empresa em grandes investimentos no ano.

“Nós temos encontrado poucas coisas que nos empolgam”, escreveu Buffett, em um dos trechos do documento direcionado aos investidores e acionistas da gestora, avaliada em US$ 708 bilhões. “Hoje, as oportunidades internas oferecem retornos muito melhores do que as aquisições.”

Nesse olhar para “dentro de casa”, além da recompra de ações, uma estratégia que concentrou bastante atenção da Berkshire Hathaway nos últimos dois anos, Buffett destacou o foco no que ele classificou como os “quatro gigantes” do portfólio da gestora.

No topo dessa relação seleta, o bilionário americano posicionou os negócios e investimentos da Berkshire Hathawy no mercado de seguros, uma operação que inclui ativos como GEICO e General Re, e a atuação distribuída em diversas modalidades do setor.

“O negócio de seguros é feito sob encomenda para a Berkshire. O produto nunca ficará obsoleto e o volume de vendas aumentará, no geral, juntamente com o crescimento econômico e a inflação”, observou Buffett.

O investidor bilionário acrescentou: “Existem, é claro, outras seguradoras com excelentes modelos de negócio e perspectivas. Replicar a operação da Berkshire seria, no entanto, quase impossível.”

A Apple foi colocada na segunda posição entre as joias da coroa da Berkshire Hathaway, que encerrou o ano com uma fatia de 5,55% na empresa da maçã, avaliada em US$ 2,7 trilhões, contra uma participação de 5,39% no fim de 2020.

“Considere que cada 0,1% dos ganhos da Apple, em 2021, somaram US$ 100 milhões”, afirmou Buffett. “Não gastamos recursos da Berkshire para obter o nosso acréscimo. As recompras de ações da Apple fizeram esse trabalho.”

Ele também reservou elogios a Tim Cook, o CEO da Apple, a quem classificou como “brilhante”. “Ele considera, com muita propriedade, os usuários de produtos da Apple como seu primeiro amor. Mas todos os outros usuários também se beneficiam do toque de gestão de Tim”, pontuou.

Tim Cook, CEO da Apple

Na sequência do quarteto de gigantes desse portfólio, o investidor destacou a BNSF, empresa do setor ferroviário comprado pela Berkshire Hathaway em 2009, em uma transação cujo valor foi estimado, na época, em US$ 44 bilhões.

“A BNSF segue sendo a artéria número um do varejo do comércio americano, o que a torna um ativo indispensável para a América e para a Berkshire”, escreveu, ao ressaltar que a empresa oferece um modal muito mais sustentável do ponto de vista ambiental para o transporte de produtos na comparação com as rodovias e caminhões.

Ao mesmo tempo, ao falar do faturamento recorde de US$ 6 bilhões da BNSF em 2021, Buffett fez questão de frisar que a empresa oferece um lucro “à moda antiga”, nos moldes que a Berkshire Hathaway, baseado em indicadores consistentes e não em ganhos inflados.

“Nossa definição sugere um aviso: ‘ajustes’ enganosos para lucro – para usar uma definição educada – tornaram-se mais frequentes e mais fantasiosos à medida que as ações se valorizam”, afirmou. “Falando de forma menos educada, eu diria que os mercados em alta geram touros inflados.”

Buffett completou a lista de pilares da gestora com a Berkshire Hathaway Energy (BHE). O ativo, no qual a gestora tem uma fatia de 91,1%, alcançou um lucro recorde de US$ 4 bilhões em 2021, “mais de 30 vezes” na comparação com aos ganhos de US$ 122 milhões em 2020, ano em que a Berkshire passou a investir na companhia.

Ele também destacou que, de lá para cá, a BHE, que não tinha nenhum investimento em fontes de energia solar ou eólica, agora é uma das líderes nessas matrizes nos Estados Unidos. “A BHE tem gestão, experiência, capital e apetite para os grandes projetos de energia que nosso país precisa”, afirmou.

Ao longo da carta, Buffett também reforçou o foco da gestora em investimentos de longo prazo. E, para isso, citou também Charlie Munger, vice-presidente da Berkshire Hathaway e seu braço direito na empresa.

“Nosso objetivo é ter investimentos significativos em negócios com durabilidade, vantagens econômicas e um CEO de primeira classe.”, ressaltou. “Charlie e eu não somos stock-pickers; nós somos business-pickers.”

A menção da tese baseada em ativos de longo prazo, em detrimento de negociações que envolvam oportunidades de mercado e tragam retorno rápido à carteira, foi visto como uma resposta à reação do mercado à compra, em dezembro de 2021, de US$ 1 bilhão em ações da Activision Blizzard, feita pela Berkshire.

Um mês depois, a Microsoft anunciou a compra da empresa de games por US$ 68,7 bilhões. A aquisição inflou, por consequência, o valor da fatia detida pela gestora na operação, o que atraiu críticas no mercado, dada a amizade de longa data de Buffett com Bill Gates, fundador da Microsoft.

Em outro trecho, o bilionário também abordou a recompra de ações. Entre 2020 e 2021, a Berkshire Hathaway destinou um total de US$ 51,7 bilhões para a recomprar 9% das ações em circulação da gestora, sendo US$ 27 bilhões no ano passado.

Entretanto, ele sinalizou que a companhia pode reduzir seu apetite nessa frente, o que já vem se traduzindo em menos recursos recentemente. Desde o fim do ano, por exemplo, a Berkshire Hathaway reservou US$ 1,2 bilhão para a recompra de ações.

Quando falou sobre essa estratégia e também sobre o olhar da gestora para novos investimentos além do seu portfólio, Buffet também fez uma breve referência sobre a perspectiva de aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve, o banco central americano.

“As taxas de juros sempre serão importantes”, escreveu, acrescentando que elas afetam os preços e o valuation de todos os ativos, sejam “ações, apartamentos, fazendas e poços de petróleo”. E sinalizando que a gestora deve seguir com cautela nessas movimentações.

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