Por que os Estados Unidos temem a China

Um documento assinado por Eric Schmidt, ex-CEO do Google, e outros executivos do Vale do Silício apontam os perigos que a inteligência artificial representaria para a segurança dos EUA – e como o país está atrasado em pesquisa e desenvolvimento na área

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Na batalha pela supremacia em inteligência artificial (IA), os Estados Unidos não estão preparados para competir contra a China, vista como a próxima superpotência no setor. E o perigo não é apenas econômico, mas de segurança nacional.

O alerta foi feito por um grupo de executivos do Vale do Silício liderado por Eric Schmidt, ex-CEO do Google, em um documento enviado ao presidente americano Joe Biden.

Andy Jassy, o próximo presidente da Amazon; Safra Catz, CEO da Oracle; Eric Horvitz, diretor científico da Microsoft; e Andrew Moore, head de IA do Google Cloud, integram a National Security Commission on Artificial Intelligence (NSCAI) e assinam o documento.

O estudo, um calhamaço de quase 800 páginas elaborado pela comissão ao longo de pouco mais de dois anos, traça um panorama dos riscos que a prosperidade, a segurança e o bem-estar dos americanos correm se nenhuma atitude for tomada para fomentar a pesquisa no setor de inteligência artificial (IA).

Os principais problemas estão relacionados à adoção de IA em armamentos. Há um apelo global para que a pesquisa de armas automáticas com tecnologia de inteligência artificial, capazes de responder em uma velocidade muito maior do que qualquer ser humano, seja deixada de lado e que os países assinem um compromisso contra essa corrida armamentista.

Mas o documento segue na direção contrária e sugere a Biden que os Estados Unidos não podem ficar para trás nessa área, já que China e Rússia não vão se comprometer a seguir nenhum tipo de acordo sobre o uso desses armamentos.

O tom belicoso do aviso é proposital. “Não seremos capazes de nos defender de ameaças potencializadas por IA sem uma capacidade onipresente de inteligência artificial e novos paradigmas de guerra”, escreveu Schmidt.

As desavenças tecnológicas com a China já acontecem há algum tempo, especialmente na disputa pela soberania do 5G em território americano e também em países parceiros, como o Brasil.

A China tem um ambicioso plano de se tornar líder global em inteligência artificial até 2030. Em junho de 2017, o governo chinês anunciou um pacote de medidas para fomentar as pesquisas e estimular o desenvolvimento de tecnologias no setor. Sem especificar valores, eles afirmam que a expectativa é ter avanços significativos já em 2025.

A China tem um ambicioso plano de se tornar líder global em inteligência artificial até 2030

Outras áreas de interesse da China incluem fontes de energia renováveis, produção de carros elétricos (um setor que já atraiu a atenção de bilionários americanos como Warren Buffett) e robótica – todos beneficiados pela pesquisa de inteligência artificial.

De acordo com o relatório, para impedir a concretização desse plano, os Estados Unidos precisam investir pesado em pesquisa e desenvolvimento. A comissão sugere a criação de um Conselho de Competitividade Tecnológica e o aumento progressivo de gastos com as pesquisas até atingir US$ 32 bilhões anuais até 2026.

Outras medidas sugeridas pelo relatório incluem o relaxamento de políticas de imigração para talentos na área de inteligência artificial e a criação de uma nova universidade para treinar civis no uso da tecnologia. E faz um alerta sobre a dependência da produção asiática de microchips, já que boa parte deles vêm da taiwanesa TSMC.

“Precisamos reavaliar o significado de uma cadeia de produção resiliente e segura, já que a vasta maioria de microchips de alta tecnologia são produzidas em uma única fábrica separada por apenas 110 milhas de nosso principal competidor”, escreveu Schmidt, no documento.

A formação da comissão, que recebeu US$ 10 milhões em financiamento e acesso a documentos sigilosos, representa um recurso usado com frequência crescente pelo congresso americano para determinar prioridades no orçamento de defesa, especialmente em casos ligados ao uso de tecnologias emergentes.

Em entrevista ao Business Insider, Heather Roff, analista do laboratório de física da Universidade John Hopkins e membro da NSCAI, diz que as negociações são feitas entre especialistas, membros do Departamento de Defesa e políticos de Washington. Por serem executivos importantes do Vale do Silício, suas opiniões terão peso nas decisões de Biden.

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