Negócios

“Suspendemos as demissões”, diz presidente da Renner

Em um momento que todas as suas lojas estão fechadas e não se sabe ainda quando poderão voltar a operar, o presidente da Renner, Fabio Faccio, fala ao NeoFeed de seu plano para manter a operação e o emprego. Mas pede uma coordenação de ações urgente para superar a crise

 

Fabio Faccio, presidente da Renner

O executivo Fabio Faccio, presidente da varejista Renner, sempre teve uma rotina de muitas horas de trabalho. Mas, nas duas últimas semanas, o seu dia a dia corporativo se tornou ainda mais longo.

“Eu estou dormindo em pequenos turnos, quando dá”, disse Faccio, em entrevista ao NeoFeed. “Estamos sempre atentos e, às vezes, temos algumas discussões de madrugada, por conta de notícias e decretos que são publicados tarde da noite.”

Faccio, que começou como trainee na Renner, e assumiu a presidência, em abril do ano passado, no lugar do José Galló, tem pela frente um dos maiores desafios de sua carreira: comandar a travessia da rede varejista, que faturou R$ 9,5 bilhões e lucrou R$ 1,1 bilhão, em 2019, por esse momento turbulento.

A varejista, que conta com 500 pontos de vendas, foi a primeira grande rede a tomar a decisão de fechar todas as suas lojas. “Assim como as lojas estão fechadas por período indeterminado ainda, as demissões estão também suspensas por um período indeterminado também”, afirmou Faccio, ao NeoFeed. A Renner tem 23 mil funcionários.

A receita da Renner é cortar custos, suspender investimentos e buscar novas linhas de crédito. E, diante de um cenário que muda a todo momento, tomar decisões conforme a fotografia vai se alterando.

Sem entrar em discussões políticas, Faccio defendeu uma maior ação de coordenação dos esforços para superar a crise e diz que está disposto a sentar à mesa para um diálogo amplo e franco. “Neste momento, nós precisamos unir forças e coordenar ações”, disse o presidente da Renner.

Confira os principais trechos da entrevista:

O senhor já passou por uma crise como essa?
Já passamos por várias crises, a Renner e eu. As crises foram diferentes dessa. Na crise, aprendemos bastante coisa. Mas nenhuma delas foi igual a essa. Essa é uma crise distinta. Ela vem de um vírus que ataca a saúde da população. E, ao mesmo tempo, ela gera um efeito colateral, que é uma enorme crise econômica. Não se sabe o tamanho da duração dela, mas talvez tenha uma duração menos extensa do que outras crises. Ela pode ser mais pontual. Mas ela é bastante agressiva, exatamente por estar disseminada no mundo inteiro.

A Renner pretende demitir funcionários nessa crise?
Temos o foco de preservação da saúde das pessoas e de preservação dos empregos. Desde a semana passada, decidimos, em conjunto com a decisão de fechamento das lojas, suspender as demissões. Assim como as lojas estão fechadas por período indeterminado, as demissões estão também suspensas por um período indeterminado.

Não há planos de demissões durante a crise?
Neste período, estão suspensas quaisquer demissões. A gente está priorizando saúde, emprego e empresa. Como é que a gente consegue fazer isso, já que não há receita? Tomamos várias medidas.

Quais são essas medidas?
Foram várias medidas para contenção drástica de despesas, congelamento de investimentos e ampliação de linhas de crédito. A Renner sempre teve um caixa muito sólido, uma geração de caixa muito saudável e uma dívida liquida muito baixa. Tomamos todas as ações que estavam ao nosso alcance para que possamos, independentemente do cenário, atravessar essa fase. E, de acordo com todas as nossas estimativas, estamos bastante preparados para isso.

“Mesmo em cenário mais difícil, a Renner está bastante preparada para enfrentar essa fase”

O que foi feito para reduzir custos?
Temos uma parte relevante de custos variáveis, que caem automaticamente. Fora isso, suspendemos, desde o início da crise, novas despesas, investimentos e renegociamos contratos. Um exemplo são os shopping centers. A parte de custo de ocupação cai. Uma parte de energia elétrica também se reduz. Estamos trabalhando com vários cenários, pois é uma situação que ninguém tem certeza da duração da crise. Temos cenários mais otimistas, mais conservadores e mais pessimistas. E nos preparamos para quaisquer um deles. Mas, lógico, estamos trabalhando para que o cenário seja o melhor possível. Mesmo em cenário mais difícil, a Renner está bastante preparada para enfrentar essa fase.

O senhor pode divulgar o quanto reduziu as despesas?
Na verdade, estamos trabalhando o tempo inteiro e temos as nossas estimativas. Mas só vamos tendo certeza do que acontece conforme o tempo vai passando. Mas não tenho como te dar um número efetivo nem da redução da receita, nem da parte de despesa. Os times ainda estão trabalhando todo dia nisso. Todo esse plano de ação que desenhamos, estamos adaptando o tempo inteiro. Ele tem o objetivo de garantir a saúde das pessoas, os empregos e que a empresa possa passar por isso de uma forma saudável. Mas é também para dar apoio aos stakeholders, aos parceiros e às comunidades. Apesar de estarmos tendo uma perda de receita significativa, mesmo assim, conseguimos auxiliar hospitais e comunidades tanto com mão de obra nossa de forma virtual, como com a produção de parceiros nossos de aventais e máscaras e com doação de recursos para essas comunidades.

O senhor falou que está ampliando as linhas de crédito. Quanto está buscando?
Ainda estamos trabalhando nisso. Temos já um número relevante que já foi tomado. Tínhamos já linhas de crédito disponíveis. Estamos ainda em algumas negociações se necessário para tomar mais (recursos). Temos algumas negociações acordadas. Mas prefiro não falar em valores porque as coisas estão mudando a cada minuto, a cada momento. Só quero deixar claro que temos uma solidez muito boa, que estamos muito tranquilos e vamos conseguir passar bem por essa fase, apesar de ser uma das mais desafiadoras que estão todos passando.

Hoje, existe um grupo de empresários que defende a volta à normalidade, pedindo a implementação de uma quarentena seletiva. De outro lado, as autoridades sanitárias recomendam um isolamento total. Qual a sua opinião sobre esse assunto?
Sinceramente, tenho a minha opinião. Mas não sou técnico, não tenho uma opinião sozinha e não quero ter 100% da verdade. Não é fugir da tua pergunta, mas gostaria muito de estar em uma mesa virtual com outras pessoas de opinião distintas da minha até para que pudéssemos construir essa solução conjuntamente. Uma parte passa por isolamento e uma parte passa por retomada gradual. Como a gente vai fazer isso? Essa é a melhor discussão que a gente tem de ter neste momento. Gostaria de participar do diálogo e me coloco à disposição. Esses pontos de vistas distintos, se sentarmos à mesa para dialogar, debater com honestidade intelectual, com transparência, com franqueza e deixando claro que o objetivo é derrotar esse inimigo comum que é o vírus e a crise. Se a gente conseguir sentar, discutir os diferentes pontos de vistas, coordenar a ação, temos muito mais chance de ganhar essa guerra. As ações descoordenadas, os pontos de vistas distintos, sem um debate honesto, não vão gerar uma ação coordenada. Neste momento, nós precisamos unir forças e coordenar ações.

Os CEOs das varejistas Centauro e Arezzo e das administradoras de shopping centers Aliansce Sonae e Iguatemi participaram de uma live e reclamaram da atuação do governo. O senhor acha que o governo precisa fazer mais pelo varejo?
Eu tenho a certeza que todos os dias vamos ter de construir soluções melhores. Algumas soluções estão na mesa e algumas foram tomadas. Mas nenhuma delas está sendo feita de forma coordenada. Talvez todo mundo esteja tentando resolver o problema e está atacando o inimigo cada um por um lado. O mais importante é realmente sentar, discutir e debater todas essas ações. Faltam ações? Acho que sim. É necessário tomar mais ações? Sim, com certeza. Concordo com os colegas. Mas o mais importante de tudo é debater todas as ações e criar um plano. Ter um comitê de crise conjunto e criar um plano de ação conjunto, porque aí direcionamos e coordenamos os esforços em conjunto. É isso o que a Renner está fazendo. É isso o que muitos empresários estão fazendo.

“Não sei quem vai puxar essa coordenação, mas isso vai surgir. Mas espero que aconteça o quanto antes”

O senhor disse que falta coordenação. A quem caberia essa coordenação: à iniciativa privada ou ao governo?
Acredito que essa coordenação vai acontecer. E tem de acontecer já. Mas vai acontecer pela necessidade de as pessoas enxergarem que temos um inimigo comum e que ele é necessário ser combatido antes de qualquer divergência de opinião ou política ou de interesses. Vamos ter de combater esse inimigo juntos. Não sei quem vai puxar essa coordenação, mas isso vai surgir. Mas espero que aconteça o quanto antes.

O senhor trabalha com algum horizonte de quanto tempo pode ficar com as lojas fechadas?
Trabalho com cenários. Tem aquele que entendemos que poderia ser o cenário mais provável. E temos também o mais pessimista. Entendemos o mais provável, mas nos preparamos para o mais pessimista também. Temos uma dívida líquida muito baixa e um caixa bastante saudável. Mas, lógico, trabalhamos para que o cenário seja o melhor possível, mas não consigo te afirmar hoje qual é o mais provável. O quanto antes a gente sentar e coordenar ações, menor vai ser esse tempo, na minha opinião. Por isso que tomamos a decisão de fechar logo as lojas, para tentar de forma coordenada encurtar esse tempo.

O que senhor achou do pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro ontem em cadeia nacional de tevê e rádio?
Eu prefiro não comentar. Cada um tem o seu juízo de valor. Não vou comentar um político ou outro. Espero que todos se unam e a gente possa atuar no interesse comum e coletivo, coordenando os esforços. Não sei afirmar quem está certo e quem está errado. Precisamos coordenar esforços e dialogar francamente.

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