Todas as 570 formas de celebrar Gilberto Gil

A edição atualizada que chega às livrarias com todas as letras do artista baiano vai além da comemoração de seus 80 anos de vida. Representa a trilha sonora de mais de meio século da história do País

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“Todas as letras” não é um livro só para fãs de Gilberto Gil, mas um documento de mais de 50 anos de história por meio de canções clássicas ( Foto: Bob Wolfenson)

Pode parecer algo restrito a fãs ler ou consultar as 552 páginas que formam a edição do livro “Todas as letras”, de Gilberto Gil, revista e ampliada, com suas 570 composições, que chega às livrarias neste fim semana pela Companhia das Letras.

Acredite, é só impressão. Primeiro, porque é um volume belíssimo, de impressionante acabamento gráfico. Depois, trata-se de um documento da história do País – política e cultural. Quem conhece ou viveu os últimos 55 anos concorda que Gil compôs a trilha sonora desse tempo, com dezenas de sucessos nas paradas.

Ele esteve presente nos mais relevantes momentos, a marcar a memória de todos com suas canções, em situações boas ou ruins, algumas, aliás, tiveram ele como protagonista. Gil não é um personagem só da cultura brasileira, mas de sua história, portanto. Do perseguido e exilado a ministro da Cultura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a partir de 2003. Até chegar a imortal da Academia Brasileira de Letras este ano.

São composições que fazem parte do imaginário afetivo de todos, sem distinção de classes, religiões ou ideologias políticas. Como Domingo no parque (1967, protestos estudantis contra a ditadura), Aquele abraço (1970, expulso do Brasil rumo ao exílio), Expresso 2222 (1972, volta do exílio), Refazenda (abertura política), Não chore mais (1979, anistia), Tempo rei (1984, campanha pelas diretas) e Parabolicamará (1991, antecipa o novo mundo digital).

As letras são apresentadas em ordem cronológica. O jornalista e compositor Carlos Rennó, organizador da obra, subdividiu-as em oito períodos específicos da produção do compositor: das primeiras canções gravadas em um pequeno estúdio de Salvador à fase tropicalista (1962-66); do tropicalismo à partida para o exílio (1967-69); os dois anos em Londres e os três que seguem à volta ao Brasil (1970-74); a fertilidade da era de Refazenda e Refavela, que segue com a reunião dos Doces Bárbaros (1975-78); abertura para o pop (1979-83); a segunda fase dos anos de 1980 (1984-89); a década de 1990 e os anos 2000, que é a parte nova do seu inventário de canções.

Trata-se de um documento da história do país – política e cultural. Quem conhece ou viveu os últimos 55 anos concorda que Gil compôs a trilha sonora desse tempo, com dezenas de sucessos nas paradas

O próprio artista comenta 200 dessas letras, em textos escritos a partir de conversas com Rennó. Há ainda composições inéditas, recuperadas graças à memória do artista ou levantadas em fontes como seus cadernos de versos, arquivos particulares, registros de shows antigos e acervos de editoras e gravadoras. Para o organizador, sua obra contribuiu para a transformação do conceito estético da letra de música ao lhe dar status de poesia ― cantada e popular.

Com versos de profundidade poética acima da média, combinados com um talento de compor melodias inigualáveis e conhecimento dos processos de arranjos, escolha dos músicos e gravações, ele construiu discos irretocáveis, a maioria conceitual, com faixas que se ligavam ou uniam para compor quase que uma sinfonia, um manifesto musical. Como se toda a sua vida fosse aproveitada para construir uma obra que ainda não parece acabada ou concluída. Isso foi possível graças ao inesgotável talento de se reinventar como artista.

Nos primeiros anos, influenciado pelos conterrâneos Assis Valente e Dorival Caymmi, cantou a Bahia. No tropicalismo, flertou com o pop e se rendeu às guitarras da jovem guarda, depois de se arrepender de fazer passeata contra os malefícios do instrumento na MPB. Do exílio londrino trouxe o psicodelismo colorido da contracultura e gravou discos com elementos da cultura pop, até se voltar para o regionalismo de Dominguinhos e ao maracatu atômico de Jorge Mautner.

Na segunda metade da década de 1970, lançou três obras-primas com títulos iniciados pela mesma sílaba: Refavela, Refazenda e Realce, de uma profundidade simbólica até hoje ainda não devidamente digerida ou assimilada. Uma fase criticada aconteceu nos anos de 1980, auge do chamado Brock (rock nacional), como se fosse um intruso, com músicas como Punk da periferia.

Mas logo veio outro Gil, que cantou a Paz e se abriu para falar com Deus. O amadurecimento existencialista deu lugar a composições bem-acabadas e belíssimas. Irrequieto, em Parabolicamará, de 1991, prenunciou a revolução digital que se aproximava quando ninguém conhecia o termo Internet.

Irrequieto, em Parabolicamará, de 1991, prenunciou a revolução digital que se aproximava quando ninguém conhecia o termo Internet

Aliás, quando fez a primeira versão do livro, com 400 letras, Rennó não tinha à sua disposição ainda todas as facilidades da rede mundial de computadores, que engatinhava, e precisou garimpar em contracapas, encartes ou mesmo transcrever as letras.

Agora, o livro volta ampliado e com 170 novas composições, o que prova que a vivência política em Brasília não atrapalhou seu ritmo de shows, composições e gravações de discos. Sem esquecer que teve também alguns problemas de saúde.

Aos clássicos que compôs sozinho, no livro, juntam-se as letras das parcerias com, entre outros, Caetano Veloso, Chico Buarque e Milton Nascimento, versões que Gil fez para músicas estrangeiras e aquelas que ele e artistas estrangeiros fizeram para músicas de sua autoria.

A nova edição foi revista pelo próprio Gil e por Rennó. Um caderno de imagens reúne fotos que vão da infância do compositor até o ano de 2003, em que Gil começa a ocupar o cargo de ministro da Cultura. Traz também ilustrações inéditas do artista plástico Alberto Pitta.

Rennó destaca Gil como um dos propulsores da revolução musical da década de 1960, em especial, “quando uma estirpe rara de compositores-letristas e letristas brasileiros alterou o conceito estético que se fazia da letra de música entre nós, alçando esse gênero ao status de poesia — cantada e popular: um patamar pouco alcançado, mesmo que de nossa perspectiva tenhamos pela frente o panorama da música popular mundial e de todos os tempos”.

Gil foi uma das figuras máximas daquela geração de artistas, entre os quais se mantém como um de seus mais sensíveis e inventivos músicos-poetas, modelar para as gerações que depois dele vieram, e para as vindouras, destaca o organizador.

Todas as letras vem completar o acervo “O Ritmo de Gil”, disponibilizado em 14 de junho na plataforma do Google, com mais de 41 mil imagens distribuídas em 140 seções, além de 900 vídeos e gravações históricas que foram cuidadosamente digitalizadas. É o maior arquivo digital dedicado a um artista vivo. Portanto, se dependesse só de números para impressionar, Gil estaria bem servido.

Mas essas contagens nunca são feitas quando se fala de sua obra camaleônica e longeva, em que ele foi capaz de se reinventar a cada novo disco. Tanto que, ao falar sobre os 70 anos de Caetano Veloso, em 2012, o designer gráfico e conhecido capista de discos Elifas Andreato sintetizou com propriedade: há meio século, a vanguarda da MPB são Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Serviço:
Todas as letras (Nova edição ampliada)
Gilberto Gil
Carlos Rennó (Compilador)
Companhia das Letras
552 páginas
20.5 x 26.5 cm
R$ 199,90

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