Quando o sono é tratado como um game em que a vitória é estágio REM

Munidos de smartwatches e apps, consumidores monitoram o sono, avaliam que não dormem bem e podem ficar ainda mais ansiosos em busca da perfeição

0
299
Leia em 6 min

Médicos especialistas têm apontado o uso mais intenso de celulares e tablets como um dos principais culpados pela epidemia de privação de sono em que vivemos. Sem fronteiras entre casa e trabalho, em especial na pandemia e na nova configuração de home office, ficamos mais expostos a luz emitida pelos aparelhos que confunde nosso relógio interno. Para completar o ciclo vicioso, o cansaço acumulado enfraquece nosso autocontrole, e a tentação de passar mais tempo em frente às telas torna-se indomável. 

Segundo a Associação Brasileira do Sono (ABS), a média de horas dormidas da população caiu de 6,6, em 2018, para 6,4, em 2019, sendo que a recomendação para a maioria dos adultos é dormir de 7 a 9 horas por noite. A pandemia só agravou a mania de levar celular, trabalho e notícias preocupantes para a cama, e 74% afirmaram ter adquirido algum problema de sono após o surgimento da Covid-19, em uma pesquisa conduzida pela Royal Philips no Brasil. 

Não é de se estranhar que a tecnologia também seja o ponto de partida para buscar informações e ferramentas para reverter a situação. Se dormir mais não cabe da agenda, então, cada segundo no travesseiro conta e para melhorar a qualidade do sono cada vez mais pessoas recorrem aos smartwatches. Em 2021, foram vendidas 74% mais unidades, segundo a consultoria GFK. 

A questão é que munidos de dispositivos que podem monitorar as várias fases do sono, as pessoas têm se concentrado em atingir um estágio específico quando dormem, quase como se fossem etapas de um game, o almejado sono REM.  Ele surge somente no final de cada ciclo de sono e se repete mais na segunda metade da noite, e é essencial para nossa memória, criatividade e capacidade de aprender.

“Existe um fetichismo em torno do sono REM”, ironiza  o biomédico e pesquisador do Instituto do Sono, Gabriel Pires. “É o estágio mais anedótico, é onde sonhamos com maior frequência, daí o apelo de mídia.”

Assim, as pessoas dormem menos pela intoxicação eletrônica, recorrem a smartwatches e apps para reverter esse processo, e acabam desenvolvendo mais estresse e ansiedade por constatarem via dispositivos que não necessariamente gabaritaram em sono REM. Ou seja, não descansam e nem chegam ao “patamar” necessário para “acordarem com uma ideia genial”. Tipo Paul McCartney que teria despertado um belo dia com a letra de Yesterday pronta. 

Para este fenômeno da busca do sono perfeito monitorada pelos dispositivos, médicos e psicólogos especializados cunharam o termo “ortossonia”. O prefixo “orto”, em grego, quer dizer “correto” e é usado também em outra manifestação que ganhou força nas redes sociais, a “ortorexia”, preocupação exagerada com alimentação saudável.

Já em 2017 um estudo publicado por pesquisadores de Chicago, no Journal of Clinical Sleep Medicine , mostrava que confiar demais no diagnóstico dos relógios da moda poderia levar a situações de risco. Um dos relatos descritos foi o de uma jovem que mesmo após um exame especializado realizado em laboratório (polissonografia) ter revelado que ela havia dormido profundamente, ela não acreditou. “Então por que meu Fitbit diz que eu estou dormindo mal?”. 

De lá para cá a situação só se agravou com a democratização dos smartwatches e com mais consumidores se autodiagnosticando. O biomédico Gabriel Pires conta que existem vários pacientes que chegam nas consultas no Instituto do Sono com a suspeita confirmada, por um aplicativo, de que dormem mal. 

Apesar dos holofotes no sono REM, alerta ele, o estágio mais importante é o do sono profundo, do qual dependemos muito para acordar dispostos. É por isso as informações que o relógio inteligente podem ser indicativas de um problema, mas mais importante são os sintomas que a pessoa tem – sonolência demais durante o dia, dificuldade para pegar no sono e ronco que precisam ser investigados com ajuda do médico. 

Encurtar as horas de sono representa um grande risco a saúde podendo causar diabetes e depressão, por exemplo, e não ajuda na produtividade. A receita já foi tentada pelos bilionários, sem sucesso. Jeff Bezos, por exemplo, estabeleceu como meta dormir o máximo possível como forma de ter “uma performance cognitiva máxima”. Elon Musk, por sua vez, viu sua produtividade cair quando tentou dormir menos de seis horas. E Bill Gates defende hoje um detox de produtos eletrônicos antes de ir para cama e afirma que o sono “melhora nossa aptidão evolutiva”.

Os wearables são os vilões?

Apesar do fenômeno da ortossonia, a Academia Americana do Sono já recomenda, em suas diretrizes, por exemplo, que os médicos não minimizem as queixas trazidas por pacientes com base nos rastreadores e saibam guiá-los na escolha de tecnologias mais confiáveis ou na forma de usá-las. 

De modo geral, o que é possível dizer é que nenhum smartwatch é capaz de distinguir com precisão os diferentes estágios do sono, em particular o REM. Além dos movimentos rápidos nos olhos que a sigla descreve, essa fase é caracterizada por parâmetros de ondas cerebrais, frequência cardíaca e pressão arterial mais próximos aos da vigília, ainda que os músculos fiquem paralisados. 

De modo geral, o que é possível dizer é que nenhum smartwatch é capaz de distinguir com precisão os diferentes estágios do sono, em particular o REM

Seria necessário descartar os wearables disponíveis no mercado? Eles podem sim ser aliados para quem sofre de distúrbios do sono, mas não tratados como aparelhos de diagnóstico. Pires diz que há uma variedade enorme de produtos, com diferentes níveis de acurácia: “Há os bons e os muito ruins, e discernir não é uma tarefa fácil para quem não conhece a tecnologia e o sono”. 

“O padrão-ouro é o paciente dormir no laboratório e passar por uma polissonografia, mas é um exame caro, pouco disponível, desconfortável, e a medida é de uma noite só”, descreve o biomédico. Hoje é possível levar parte da parafernália para casa, o que é mais confortável e barato, mas os resultados são mais limitados e podem funcionar apenas como triagem para o exame na clínica.

Cada um dos relógios e pulseiras inteligentes existentes no mercado tem “o seu algoritmo e usa um tipo de sensor. Não sabemos exatamente como esse monitoramento é feito; e não existe uma padronização”, avalia o otorrinolaringologista especializado em medicina do sono Fernando Balieiro. Mas o uso contínuo permite uma visão mais ampla, que tem valor para os médicos, além de gerar autoconhecimento e estimular o usuário a fazer mudanças para dormir melhor. Como não levar o celular para a cama e parar de tratar o sono como um game de superação. 

Leia também

Brand Stories