Uma contradição vem marcando a atuação do mercado financeiro dos Estados Unidos nas primeiras semanas de janeiro.

O S&P 500, o principal índice do mercado de ações americano, atingiu seu melhor resultado em dois anos na semana passada. Na segunda-feira, 22 de janeiro, o rally prosseguiu, com o Dow Jones Industrial Average ultrapassando pela primeira vez o nível de 38 mil pontos.

Enquanto isso, parte de agentes do sistema financeiro global e lideranças políticas de vários países vêm advertindo sobre a escalada de riscos geopolíticos que, em tese, não justificaria essa euforia em Wall Street.

Além da guerra na Ucrânia e o potencial desdobramento do conflito entre Israel e Hamas para outros países do Oriente Médio, o fraco desempenho econômico da China, o aumento de eventos climáticos extremos e outras crises recentes causam preocupação.

Dois desses acontecimentos recentes estão interligados: o fechamento do Canal do Panamá por causa de uma estiagem e os ataques por parte de guerrilheiros do Iêmen pró-Hamas a navios comerciais que utilizam o Canal do Suez na rota entre Ásia e Europa. Somadas, essas crises estão impactando metade do tráfego global de mercadorias.

“Não há dúvida de que enfrentamos o maior risco para a ordem global na era pós-guerra”, advertiu em Davos a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, adotando um tom que chamou a atenção pelo alarmismo. “O mundo entrou numa era de conflito e confronto, de fragmentação e medo.”

O alerta, porém, foi replicado pela Blackrock - maior gestora de ativos do mundo, com mais de US$ 10 trilhões sob sua administração. Em comunicado aos clientes, a gestora citou a crise no Suez e a eventual vitória de Trump nas eleições de novembro como eventos que têm potencial de causar, de fato, uma mudança estrutural na economia global.

“Esses desenvolvimentos aceleraram a fragmentação global e o surgimento de blocos geopolíticos e econômicos concorrentes”, escreveram os analistas da gestora. “E a fragmentação geopolítica é uma das razões pelas quais vemos pressões inflacionárias persistentes – e as taxas permanecem acima dos níveis pré-pandemia.”

Mapeamento

Agentes do sistema financeiro consultados pelo NeoFeed afirmam que o debate é válido, mas deve ser modulado levando em consideração como funciona o mercado de ações, que trabalha com base num cenário de longo prazo e de avaliação de riscos.

Segundo eles, porém, tentar fazer previsões precisas sobre os riscos é um exercício inútil. Por isso, em vez de prever, os agentes procuram mapear todas as possibilidades envolvendo esses riscos e propor opções de investimentos.

Se, por um lado, a percepção do risco pode influenciar o mercado; por outro, também cria oportunidades para apostar em produtos que ajudem a neutralizar eventuais efeitos desses riscos.

João Rômulo, sócio da Arbor Capital, recorre a um jargão popular no sistema financeiro dos EUA para descrever o comportamento dos agentes: “os mercados escalam muros de preocupação”.

Segundo ele, os gestores sempre encontram razões para ficar com medo e vender suas posições, quando na verdade a maior parte dos eventos são ruído e o ideal seria permanecer alocado.

“Os índices de bolsa seguem de forma estrutural, ou seja, no longo prazo, o fundamento das empresas”, afirma Rômulo. “Se os fundamentos das empresas estiverem sólidos e melhorando, a bolsa, mais cedo ou mais tarde, vai acompanhar.”

Avaliação de riscos

Para Leonardo Monoli, sócio e diretor de gestão da Azimut Brasil Wealth Management, a euforia de Wall Street na prática reflete a percepção do mercado financeiro de que o ciclo de inflação e juros altos, o maior em décadas no Primeiro Mundo, está próximo do fim.

“O cenário central é o de que estamos entrando num ciclo de normalização monetária nas economias desenvolvidas, o que já está ocorrendo nos países emergentes”, diz Monoli, citando como mais provável a tendência de o Federal Reserve começar a baixar os juros.

Segundo ele, 2024 será marcado como um ano de transição, com redução do aperto monetário que deixe a economia global rodando mais leve nos anos subsequentes. “Esse é o cenário principal e outros riscos geopolíticos, embora sejam levados em conta, não devem alterar essa tendência”, afirma Monoli.

O otimismo do mercado, segundo o sócio da Azimut, reflete não só os sinais mais visíveis desse cenário principal como os efeitos a longo prazo. “No caso dos EUA, que têm uma economia dinâmica e voltada para a inovação, a queda da taxa de juros deverá impulsionar investimentos de big techs e aumento de produtividade, e isso vai repercutir no preço das ações dessas empresas”, diz Monoli.

O fato de o mundo ter enfrentado e, ao que tudo indica, vencido os efeitos da pandemia - que causou o maior impacto na economia global em décadas - pode ter colaborado para que parte dos gestores do mercado estejam dando um peso menor aos riscos geopolíticos atuais.

Essa possibilidade, porém, é rejeitada pelo economista Alejandro Ortiz, da Guide Gestão. “Não vejo essa relação, mesmo porque os riscos geopolíticos já vinham crescendo antes da pandemia, com a guerra comercial entre os EUA e China promovida por Trump, e até aumentaram nos anos recentes”, afirma Ortiz.

Ele admite que, desde o fim do ano, o mercado financeiro tem ignorado o aumento de margem de muitos dos riscos geopolíticos atuais. Segundo Ortiz, trata-se de uma distribuição de probabilidades: “Não que os riscos geopolíticos estão sendo ignorados, apenas que o mercado considera baixa a possibilidade de que esses riscos levem a um acontecimento negativo relevante.”