O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse, em sua rede social Truth Social, que o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, foi morto neste sábado, 28 de fevereiro, na ofensiva contra o país. A informação ainda não é confirmada por Teerã.
"Khamenei, uma das pessoas mais perversas da história, está morto. Isso não é apenas justiça para o povo do Irã, mas para todos os grandes americanos e para as pessoas ao redor do mundo que foram mortas ou mutiladas por Khamenei e por seu bando de criminosos sanguinários", escreveu Trump, na Truth Social.
Sua morte, se confirmada, no entanto, não significa - de imediato - uma mudança de regime, um dos objetivos da ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã. “O assassinato do líder supremo iraniano não representa uma mudança de regime. Estamos longe disso, pelo menos por enquanto”, escreveu no X Ian Bremmer, presidente da Eurasia.
Bremmer, em um vídeo publicado no YouTube, havia alertado que o sistema político iraniano não depende apenas de figuras individuais. Mesmo com líderes mortos ou incapacitados, o regime pode se reorganizar rapidamente. “Eliminar a liderança não significa eliminar a estrutura de poder”, disse Bremmer.
De acordo com o presidente da Eurasia, a Guarda Revolucionária Islâmica, pilar central do Estado iraniano, segue sendo uma força capaz de manter o controle interno, administrar o país e absorver perdas no comando. “A mudança de regime é o objetivo mais difícil que existe”, disse Bremmer. “E quando ela falha, o custo costuma ser alto.”
De qualquer forma, a morte de Khamenei põe fim a um líder que centralizou decisões, esvaziou cargos eleitos e fortaleceu um aparato de coerção que fez da dissidência um risco de vida.
Ali Hosseini Khamenei nasceu em 1939, na cidade de Mashhad, um dos principais centros religiosos do xiismo no Irã. Era o segundo de oito filhos de uma família modesta, liderada por seu pai, um clérigo local.
Desde a infância, teve formação religiosa tradicional, estudando o Alcorão e, mais tarde, jurisprudência islâmica em seminários de Mashhad, Najaf (Iraque) e Qom, os principais polos do clero xiita.
Durante os anos 1960 e 1970, enquanto o Irã era governado pelo xá Mohammad Reza Pahlavi — aliado dos Estados Unidos e engajado em um projeto de modernização pró-Ocidente —, Khamenei se aproximou do círculo do aiatolá Ruhollah Khomeini, então o principal líder religioso opositor ao regime.
Khamenei participou de atividades clandestinas contra a monarquia, o que levou a prisões repetidas pela SAVAK, a polícia secreta do xá, e a períodos de exílio interno e externo. Esse engajamento o inseriu no núcleo do movimento que culminaria na Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o regime monárquico e instaurou a República Islâmica do Irã.
Após a vitória da revolução, Khamenei passou a ocupar cargos importantes no novo Estado revolucionário. Tornou-se membro do Conselho Revolucionário, vice‑ministro da Defesa e, em 1980, foi nomeado imã das orações de sexta‑feira em Teerã, um posto de grande visibilidade política e simbólica.
Em 1981, Khamenei sobreviveu a um atentado a bomba atribuído a grupos opositores armados. O ataque deixou sequelas permanentes em seu braço direito, mas reforçou sua imagem como figura central do regime.
Pouco depois, ainda em 1981, foi eleito presidente do Irã, após o assassinato do então presidente Mohammad Ali Rajai. Governou até 1989, atravessando praticamente todo o período da Guerra Irã‑Iraque (1980–1988), sempre sob a supervisão direta de Khomeini, que detinha a autoridade suprema.
Durante a presidência, Khamenei não era a figura mais poderosa do sistema — esse papel cabia ao líder supremo —, mas ganhou experiência institucional, construiu alianças e fortaleceu vínculos com o clero e com os órgãos de segurança do Estado.
Com a morte de Ruhollah Khomeini em junho de 1989, o Irã enfrentou uma sucessão inédita. O herdeiro natural, o aiatolá Hussein‑Ali Montazeri, havia sido afastado pouco antes por divergências políticas.
Em uma sessão de emergência, a Assembleia dos Especialistas, órgão constitucional responsável por escolher o líder supremo, elegeu Ali Khamenei como novo líder, mesmo ele não possuindo, à época, o mais alto grau religioso exigido originalmente pela Constituição.
Para viabilizar a escolha, o próprio sistema promoveu mudanças constitucionais que reduziram os requisitos formais do cargo. Assim, em 4 de junho de 1989, Khamenei assumiu como segundo líder supremo da República Islâmica do Irã, cargo vitalício e acima de todas as instituições eleitas.
Khamenei, um líder longevo e autoritário
Como líder supremo do Irã, Khamenei construiu um dos reinados mais longevos e concentradores de poder do mundo contemporâneo.
À frente do Irã desde 1989, como líder supremo, ele não foi apenas o sucessor de Ruhollah Khomeini. Foi o arquiteto de um sistema que substituiu o fervor revolucionário por um modelo de controle permanente: político, militar, judicial e simbólico.
Os protestos não eram crises políticas a serem administradas, mas ameaças existenciais a serem esmagadas. Essa lógica se repetiu sempre que a população foi às ruas — em 2009, 2019, 2022 e, de forma ainda mais brutal, nas ondas recentes de contestação.
O roteiro era previsível: manifestações ganhavam corpo, Khamenei rompia o silêncio com um discurso duro e, logo depois, vinham as prisões em massa, a violência letal e os tribunais revolucionários acelerando sentenças. Quando o líder chamava manifestantes de “inimigos” ou “sediciosos”, o Estado entendia como autorização.
O custo humano desse modelo é o ponto mais sombrio de seu legado. Organizações internacionais documentaram milhares de mortos, dezenas de milhares de presos, denúncias recorrentes de tortura e o uso sistemático da pena de morte como instrumento de intimidação política.
Jovens, mulheres e até menores de idade passaram a figurar nas estatísticas de um sistema judicial que, sob sua tutela, confundiu justiça com vingança.
Khamenei nunca comandou tropas no campo de batalha, mas sua autoridade esteve por trás de um Estado que tratou parte de sua própria população como território inimigo. Ao mesmo tempo em que discursava sobre moral, fé e resistência, autorizava um dos mais severos aparelhos repressivos em funcionamento no mundo hoje.
No plano internacional, cultivou a imagem do líder inflexível, avesso ao Ocidente e disposto a sustentar conflitos por meio de aliados regionais. Internamente, porém, sua maior guerra foi doméstica: contra qualquer movimento que ameaçasse a permanência do regime. A retórica de soberania e independência serviu, muitas vezes, para justificar o fechamento do espaço público e a criminalização da crítica.
O paradoxo de Ali Khamenei é que ele sobreviveu politicamente por décadas justamente ao custo de corroer a legitimidade do sistema que dizia proteger. Ao trocar consenso por coerção, estabilidade por medo, deixou um país profundamente fraturado, socialmente exausto, economicamente pressionado e politicamente represado.
Do lado econômico, Khamenei deixa como legado recente uma grave crise econômica, marcada pela desvalorização de cerca de 50% do rial em apenas seis meses e por uma inflação anual em torno de 40%.
As sanções impostas pelos Estados Unidos desde a saída do acordo nuclear, em 2018, sufocaram a economia iraniana, isolando o país do sistema financeiro internacional e impedindo o acesso regular a moedas estrangeiras.
Como resultado, o Estado perdeu o controle efetivo sobre sua própria moeda e sobre as reservas cambiais, passando a operar por meio de um sistema financeiro paralelo, acessível apenas a grupos ligados ao regime.
Apesar de o Irã possuir enormes reservas de petróleo e ser um dos maiores produtores da OPEP, essa riqueza não se converte em bem-estar para a população.
A economia funciona de forma distorcida. A maioria dos cidadãos enfrenta escassez de alimentos, racionamento de água, eletricidade e combustível, além de salários corroídos pela inflação.
Membros do regime, no entanto, se beneficiam de subsídios, contrabando e corrupção, especialmente no mercado de energia. Os preços dos alimentos superam a renda das famílias, forçando a redução do consumo e o esgotamento das poupanças.
Esse colapso econômico atingiu todas as classes sociais, inclusive comerciantes tradicionais do Grande Bazar de Teerã, historicamente aliados do regime, o que deu aos protestos uma dimensão inédita.
Diferentemente de levantes anteriores, as manifestações atuais reuniram pobres, classe média, jovens, idosos e diferentes grupos étnicos, refletindo a percepção generalizada de que a economia iraniana chegou ao limite e que o regime perdeu a capacidade de administrar o país e garantir condições mínimas de vida à população.