Estocolmo - Eles não têm a longevidade dos Rolling Stones nem a unanimidade dos Beatles. Mas o quarteto sueco ABBA, surgido em 1972 e desfeito apenas dez anos depois, conseguiu uma proeza rara até em tempos de era digital e seus influencers com milhões de seguidores.
A banda segue fazendo um sucesso estrondoso mundo afora, como se ainda estivesse na ativa, apesar da idade avançada de seus integrantes, hoje entre 76 e 81 anos.
Formado por Agnetha Fältskog, Björn Ulvaeus, Benny Andersson e Anni-Frid Lyngstad, cujas iniciais do primeiro nome tornaram a marca ABBA única no universo pop, o grupo vendeu 385 milhões de discos e atualmente registra mais de 12,7 bilhões de reproduções de suas músicas apenas no Spotify — plataforma onde mantém uma base de 42 milhões de ouvintes mensais.
Parte do sucesso permanente da banda se deve à longevidade de alguns de seus sucessos, entre eles Dancing Queen, espécie de hino da comunidade LGBTQIA+. A canção Mamma Mia!, por exemplo, virou um musical, estreado em 1999 no West End, em Londres, onde continua em cartaz até hoje. Foi assistido por mais de 42 milhões de pessoas, com bilheteria acumulada de US$ 2 bilhões.
O musical, traduzido para mais de 14 idiomas e encenado em outras 450 cidades, fez tanto sucesso que gerou dois filmes — em 2008, com Meryl Streep, e uma continuação em 2018 —, agregando nova gerações de fãs.
A inauguração do ABBA The Museum, em Estocolmo, em 2013, transformou o local em um ponto de peregrinação para fãs do grupo, recebendo cerca de meio milhão de visitantes por ano.
Instalado na ilha de Djurgården, uma das áreas mais turísticas da capital sueca, o espaço reúne um vasto acervo ligado à trajetória da banda: figurinos icônicos usados em apresentações, objetos pessoais, registros fotográficos, cartas enviadas por admiradores, além de vídeos de shows e entrevistas.
Tudo isso é apresentado em um ambiente moderno, interativo e embalado pelos sucessos do ABBA.
A experiência vai além da observação. O público pode experimentar fantasias digitais, participar de quizzes sobre a história do grupo e até subir ao palco para cantar ao lado de representações virtuais dos integrantes, assumindo simbolicamente o papel de “quinto membro” da banda.
Há também conteúdos acessíveis por QR Codes, que permitem ouvir relatos e lembranças narrados pelos próprios artistas. O museu conta ainda com um cinema, onde são exibidos bastidores de turnês e animações relacionadas ao universo do ABBA.
Na Inglaterra, a idolatria do quarteto sueco foi renovada em 2022, com o espetáculo ABBA Voyage — um concerto virtual imersivo em uma arena para 3 mil lugares em Londres, que apresenta avatares digitais hiper-realistas dos quatro integrantes do ABBA, recriados como pareciam no final dos anos 1970.
Esses avatares foram produzidos com tecnologia de captura de movimento de última geração, permitindo que as performances pareçam vivas e fisicamente presentes no palco. Os avatares se apresentam acompanhados por uma banda ao vivo de 10 músicos, o que dá ao espetáculo a energia de um concerto real.
Após quatro anos em cartaz, nos quais foi visto por 3 milhões de pessoas, o espetáculo tem saída de cena agendada para agosto.
Virada
Para o tamanho do sucesso que acumulou, não deixa de ser curioso que o ABBA tenha surgido de forma despretensiosa na Suécia, em 1972, sempre cantando músicas em inglês.
Na época, os quatro integrantes já tinham carreira solo, mas apenas Agnetha fazia mais sucesso como compositora e cantora, além de arrancar suspiros pela beleza.
A música Ring Ring foi o primeiro sucesso do grupo, limitado à Suécia. O ABBA só se tornou mundialmente famoso em 6 de abril de 1974, quando venceu o Eurovision Song Contest representando a Suécia com a música Waterloo.
O evento foi o ponto da virada do grupo. O Eurovision era (e ainda é) um dos festivais musicais mais assistidos da Europa. Waterloo tinha um refrão irresistível, arranjo ousado e uma performance visualmente impactante, com coreografia sensual de Agnetha e Anni-Frid, conhecida como Frida. A vitória deu ao grupo exposição instantânea em dezenas de países, algo raríssimo na época.
Depois do festival, Waterloo entrou nas paradas do Reino Unido, Estados Unidos e praticamente toda a Europa, transformando os integrantes do ABBA em um dos primeiros artistas europeus a conquistar o mercado americano pós-Beatles.
O sucesso de Waterloo foi sucedido por outros hits, mesclando melodias fortes, refrões memoráveis e produção impecável. Entre 1974 e 1982, o ABBA emplacou sucessos além de Mamma Mia! e Dancing Queen, como Fernando, Take a Chance on Me e The Winner Takes It All.
Dancing Queen, de 1976, foi número 1 nos Estados Unidos. No total, o ABBA gravou apenas oito discos em estúdio, entre 1973 e 1981, além do álbum Voyage, gravado entre 2017 e 2021 — um processo longo e sigiloso, que marcou o retorno do ABBA após 40 anos sem lançar material inédito, mas sem se apresentar em público. O disco abriu caminho para o espetáculo com avatares, no ano seguinte.
Duas curiosidades marcam o ABBA. A primeira é que a banda nunca anunciou oficialmente a dissolução depois do último show, em 1982. Isso sempre ajudou a alimentar rumores de que iriam retomar a gravação de discos e as turnês, o que jamais ocorreu. O quarteto rejeitou repetidamente convites para voltar aos palcos, inclusive recusando uma suposta oferta de US$ 1 bilhão para uma turnê europeia, em 2000.
A segunda curiosidade ajuda a explicar o fim extraoficial da banda de forma precoce, no auge do sucesso. Os quatro integrantes formavam dois casais, que se divorciaram pouco antes da saída de cena do ABBA.
Agnetha e Ulvaeus foram casados entre 1971 e 1980 e tiveram dois filhos. Frida e Andersson viveram juntos entre 1978 e 1981. O desgaste do convívio em turnês após os divórcios certamente ajudou a acelerar a dissolução do quarteto.
Carreiras solo
Agnetha foi a integrante do ABBA que melhor personificou a separação da banda. Sua interpretação de The Winner Takes It All ficou marcada menos pela força da canção e mais como um ato de crueldade – com Ulvaeus obrigando sua ex-esposa a cantar uma música que ele havia escrito sobre o recente divórcio, do ponto de vista dela: "Mas me diga, ela beija como eu costumava te beijar?".
De uma beleza estonteante no auge do ABBA, Agnetha sempre foi a mais reservada do quarteto. Além do divórcio, o medo de viajar de avião limitou o número de turnês fora da Europa na fase final do grupo e ela não gostava de ficar distante do casal de filhos que teve com Ulvaeus.
Ela e os demais seguiram carreira solo. Agnetha gravou dois álbuns, em 1983 e 1985, e a partir dos anos 1990 se afastou dos holofotes. Voltou à música com o álbum A, em 2013, com shows esporádicos. Aos 76 anos, recém-viúva do segundo casamento, vive de forma mais reservada.
O compositor e letrista Björn Ulvaeus, de 81 anos, continuou trabalhando com o compositor e pianista Benny Andersson na criação de musicais como Chess, Kristina från Duvemåla e Mamma Mia! e na adaptação cinematográfica de 2008 do musical estreado por Meryl Streep. Também foi idealizador do retorno do ABBA com o álbum Voyage (2021).
Andersson, 79 anos, dedicou-se também à composição de trilhas, musicais e projetos instrumentais. Fundou a Benny Andersson Orkester em 2001, explorando folk e pop sueco. Continua ativo na música e frequentemente aparece em entrevistas sobre novos projetos.
Frida, de 80 anos, voz marcante e elegante no palco nos tempos do ABBA, lançou álbuns solo de sucesso, incluindo Something’s Going On (1982), produzido por Phil Collins. Nos últimos tempos envolveu-se em causas ambientais e filantrópicas.
Os quatro integrantes do ABBA cantaram em público pela última vez em 2016, em uma festa no hotel Berns Salonger, no centro de Estocolmo. Foi apenas uma canção — Me and I — e falaram poeticamente sobre a influência que o grupo teve na música pop.
Nenhum vídeo da apresentação foi divulgado — talvez para não apagar a imagem de jovens dos anos 70 e 80 que os tornaram imortais para uma legião de fãs de três gerações.
O jornalista viajou a convite da SAAB.