A válvula de escape da indústria automobilística brasileira

As vendas domésticas de carros se recuperaram e avançam 32,8% nos seis primeiros meses do ano. Mas as exportações estão crescendo em um ritmo duas vezes maior e já estão, em dólar, acima de patamares pré-pandemia

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O T-Cross, da Volkswagen, é exportado para a Colômbia

A escassez global de peças enfrentada pela indústria automobilística não é a única trava para que a comercialização de carros no mercado brasileiro volte a níveis anteriores à pandemia. As vendas domésticas, apesar de terem avançado, ainda não chegaram a patamares pré-Covid-19.

A solução encontrada pelas montadoras instaladas no Brasil foi buscar uma válvula de escape no exterior. Números publicados nesta quarta-feira, 7 de julho, pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) indicam que as exportações são essa válvula de escape.

No primeiro semestre, as vendas do mercado doméstico cresceram 32,8% (a taxa é alta porque os números de 2020 são baixos). No período, foram vendidos 1,074 milhão de carros. As exportações, por sua vez, avançaram em um ritmo duas vezes maior, a 67,5%.

É bem verdade que as exportações nunca foram o forte da indústria brasileira de veículos. Nos melhores anos, a proporção de automóveis vendidos ao exterior chegou a no máximo 30% da produção. No acumulado de 2021, com 200,1 mil carros exportados, a taxa é de 17%.

O setor se beneficia também da cotação do dólar, que, apesar da desvalorização dos últimos meses, ainda se encontra em nível elevado, acima de R$ 5, o que torna os carros brasileiros mais competitivos no mercado internacional.

O resultado disso é que, em dólares, a exportação de veículos já superou o patamar pré-pandemia. No primeiro semestre deste ano, as montadoras faturaram US$ 3,6 bilhões com as exportações, um pouco acima dos US$ 3,5 bilhões registrados no primeiro semestre de 2019, o último “completo” antes do início da crise do covid-19.

A Argentina é o país que mais compra carros produzidos no Brasil, com uma participação histórica que gira em torno de 70%. Mas como ela tem enfrentado problemas, que vão desde o aumento de contágio do novo coronavírus até uma crise econômica, as montadoras estão buscando novos mercados.

“As empresas estão tentando exportar mais para mercados que estão tendo já uma recuperação pós-pandemia, como Chile, México, Colômbia e Uruguai”, afirmou Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea, em evento no qual apresentou os números dos primeiros seis meses deste ano.

Os países citados pelo executivo são os que aparecem logo atrás da Argentina na lista de principais destinos, segundo dados do Ministério da Economia. A Colômbia é o segundo maior, com US$ 246 milhões em compras de veículos brasileiros no primeiro semestre, e tem crescido em participação desde 2017, quando entrou em vigor um acordo com o Brasil para facilitar o comércio de veículos.

Para poder entrar com mais força nesses mercados, a indústria tem procurado focar em novos modelos de veículos, com maior valor agregado, que mudam o mix de produtos exportados e podem gerar uma receita maior.

A Volkswagen, por exemplo, passou a exportar em 2021 o T-Cross para a Colômbia e o Nivus para o Chile. Os dois modelos, contudo, ainda não desbancam o Gol, que é o veículo mais exportado pela marca alemã, maior exportadora de carros do Brasil.

Enquanto isso, as vendas ao mercado doméstico, embora estejam crescendo, ainda estão abaixo do nível anterior à pandemia. Em junho, a média de vendas por dia chegou a 8,6 mil unidades, ainda bem abaixo do ritmo de 11 mil dos primeiros meses de 2020.

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