Até o investidor mais paciente está perdendo a paciência com o Brasil?

Em evento da Abvcap, Patrice Etlin, sócio da Advent International, admitiu que, pela primeira vez em anos, tem ouvido questionamentos sobre a capacidade de o Brasil entregar bons retornos no longo prazo

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Patrice Etlin, sócio da Advent International

Quando uma nova crise política estoura no Brasil, é esperado que os investidores mais especulativos, preocupados com o curto prazo, retirem dinheiro da Bolsa e passem a apostar em um cenário mais pessimista, com dólar e juros em alta.

Do outro lado do cabo de guerra, a turma do longo prazo costuma levantar a voz para argumentar que não será mais um ruído em Brasília que vai eliminar o potencial econômico do País, apontado como uma terra de oportunidades, com um mercado consumidor de mais de 200 milhões de pessoas e um déficit de infraestrutura.

Dessa vez, porém, as decepções com o Brasil são tantas, que até mesmo o investidor de longo prazo, conhecido pela sua paciência para esperar bons retornos, está começando a soltar a corda e perder as esperanças.

“Há investidores (estrangeiros) que têm uma visão de longo prazo para o Brasil, mas essa visão está começando a ser questionada”, afirma Patrice Etlin, sócio do fundo de private equity Advent International, durante participação em evento online da Abvcap (Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital).

Etlin, responsável por abrir o escritório da Advent em São Paulo, no fim de 1996, lembra que, em outros tempos, já chegaram a lhe perguntar qual era a sua expectativa para o Brasil em um prazo de 50 anos, em uma clara demonstração de interesse pelo País. “Eu mal conseguia saber o que iria acontecer na semana que vem”, brinca.

Ao longo do ano passado, durante o período de captação de recursos para um novo fundo, o executivo recorda que, pela primeira vez, começou a receber a seguinte pergunta dos investidores de private equity: por que eu vou gastar tempo e energia no Brasil e na América Latina?

“Hoje, quando esse investidor olha para a diversificação em emergentes, a Ásia e a China estão num momento muito positivo, sempre com a promessa de grandes retornos. A China está há cinco a sete anos entregando realizações, com IPOs que saem do papel e geram ofertas secundárias”, diz Etlin.

Na avaliação dele, a Ásia e a China estão “dando um banho” no Brasil. “Aqui, contamos nos dedos de uma mão as vezes em que fundos aportam US$ 150 milhões ou US$ 200 milhões em uma transação. Na China, só na região de Pequim, são mil fundos”, ele compara.

“Enquanto isso, o Brasil volta a conviver com juros que caminham para a casa dos dois dígitos, algo que o mercado não esperava que fosse acontecer de novo tão cedo”, afirma Etlin. A taxa básica de juros do País, que caiu para 2% ao ano no início da pandemia, subiu para 7,75% ao longo de 2021 e, segundo as projeções de mercado divulgadas pelo Banco Central (BC), deve chegar a 11% no fim de 2022.

Em relação à atividade econômica, a expectativa é de uma expansão tímida no ano que vem, de 1%. Mas já há quem espere recessão, como é o caso do Itaú Unibanco, que estima retração de 0,5% para o PIB em 2022.

A esse cenário, se soma a incerteza eleitoral e a crescente preocupação do mercado com a questão fiscal, com a possibilidade de o teto de gastos ser furado, após o governo federal propor um auxílio temporário de R$ 400 até o fim do ano que vem.

“Começamos a receber questionamentos de sustentação fiscal, um assunto que tinha morrido em relação à visão de investidores para o País”, diz o sócio da Advent. “Há um sentimento bem negativo em relação ao País e, de maneira mais abrangente, em relação à região da América Latina”.

Tá ruim, mas tá bom

A Advent, porém, não está parada. No ano passado, eles captaram US$ 2 bilhões para um sétimo fundo dedicado à América Latina. “Apesar de todos os percalços, de todos os sobe-e-desce que conhecemos, a Advent é uma anomalia, porque é o único fundo global que tem um programa dedicado à região”, diz.

Segundo Etlin, a casa procura sempre “se isolar do barulho”. Se o País está em festa, é preciso analisar os ativos com cautela. Se existe uma visão de terra arrasada, talvez seja o momento de buscar oportunidades.

A Advent se notabilizou, por exemplo, por ter comprado, em 2018, a operação do Walmart no Brasil (que depois foi batizada de Grupo Big), quando o País vivia sob a incerteza do período eleitoral. A casa se comprometeu a investir R$ 2 bilhões no negócio e, neste ano, vendeu os ativos para o Carrefour por R$ 7,5 bilhões.

Na avaliação de Etlin, o Brasil se destaca no cenário internacional por ter um “mercado muito vibrante” em tecnologia e venture capital, diferente da bolha da internet vivida em 1999 e 2000. “Agora, há empresas que realmente estão resolvendo a dor dos consumidores brasileiros”, ele diz.

Entre as companhias que receberam aportes da Advent, por exemplo, estão o Nubank, que se prepara para abrir capital em Nova York e no Brasil em dezembro, e a CI&T, que em setembro protocolou pedido para IPO na Nasdaq.

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