Em um momento em que a alta dos juros pesa sobre a economia brasileira, o Bradesco se mostra tranquilo em relação à qualidade do crédito que vem originando.

Mesmo com alguns analistas apontando o tema como um ponto de atenção no balanço do segundo trimestre deste ano, os executivos afirmam que a instituição vem operando de forma segura e está preparada para enfrentar o atual cenário de mercado.

“Estamos operando com colateral para ter uma qualidade de crédito superior à qualidade do mercado", afirmou Marcelo Noronha, CEO do Bradesco, em entrevista coletiva realizada na quinta-feira, 6 de agosto. “Não estamos fazendo loucura.”

O Bradesco encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido recorrente de R$ 7 bilhões, alta de 16,2% em relação ao mesmo período de 2025, e ROAE de 16,2%.

Mas um dos pontos que mais chamou a atenção do mercado foi o crescimento de 22,6% das despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD) na comparação anual e a elevação da inadimplência acima de 90 dias para 4,3%.

Por conta desses números, os analistas do Banco Safra escreveram que as provisões "ficaram acima do consenso" e que o ambiente de crédito “exige cautela e acarreta maior risco de execução”.

A XP disse esperar que a “pressão sobre os indicadores de qualidade dos ativos persista nos próximos trimestres”, enquanto o Citi apontou que a "atenção poderá continuar focada na deterioração dos indicadores de crédito ao consumidor".

Na coletiva, Noronha atribuiu boa parte da pressão recente sobre provisões e inadimplência a duas carteiras específicas: as operações garantidas pelos fundos governamentais Garantidor para Investimentos (FGI) e Garantia de Operações (FGO), além do crédito rural.

No caso do FGI e do FGO, o banco argumenta que existe uma particularidade contábil. Quando as empresas encerram o período de carência e parte delas passa a apresentar atrasos, a instituição constitui provisões antes mesmo de acionar as garantias dos fundos.

Como o prazo de recuperação pode chegar a 185 dias, essas operações acabam pressionando temporariamente tanto o custo do crédito quanto os indicadores de inadimplência. "Estamos no pico de vencimento dessas carteiras", disse.

O fenômeno é agravado pelo forte crescimento dessas operações. O Bradesco afirmou ter expandido em 64% o estoque dessas carteiras em um ano e alcançado participação próxima de 22% nesse mercado.

“O custo de crédito é natural que cresça se eu crescer a carteira”, disse Noronha, destacando que parte relevante dessa pressão deve ser revertida à medida que as operações completem seus ciclos de recuperação.

No caso do agronegócio, ele reconheceu que a situação está mais complexa, mas destacou que boa parte dos empréstimos possui colateral, sobretudo aqueles originados pelo Banco John Deere, voltados ao financiamento de máquinas, e que a inadimplência segue abaixo da média do mercado.

Noronha destacou ainda que é natural haver algum crescimento do custo de crédito diante da expansão de 11,6% da carteira expandida na comparação anual. Mas ressaltou que o foco permanece em linhas com garantia.

O banco continua reduzindo sua exposição ao crédito pessoal tradicional e mantendo crescimento limitado em cartões de crédito para clientes de renda mais baixa.

Em contrapartida, vem acelerando a expansão em produtos como crédito consignado, financiamento de veículos e operações com garantias públicas, enquanto o crédito pessoal fica restrito à alta renda e a públicos mais selecionados.

"Vejo o mercado mais pressionado por inadimplência e custo de crédito, mas estamos um passo à frente no sentido de que temos carteiras melhores", afirmou Noronha. "E nosso apetite ao risco continua bem mais moderado."

Por volta das 11h18, as ações preferenciais do Bradesco recuavam 2,27%, a R$ 17,64. No ano, os papéis acumulavam queda de 3,02%, levando o valor de mercado do banco a R$ 176,8 bilhões.