Wine carimba o passaporte e vai desembarcar no México

O e-commerce de vinhos escolheu o mercado mexicano para estrear com o clube de assinatura no exterior. A operação, porém, será tocada por parceiros locais e só deve ser internalizada à medida que as vendas avançarem

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Marcelo D’Arienzo, CEO da Wine. Crédito: Celso Doni

A Wine, uma das principais empresas de e-commerce de vinhos no Brasil e que importa mais de 90% de tudo o que comercializa no mercado doméstico, está prestes a começar a vender também no exterior.

A estreia da companhia lá fora será no México, onde a Wine terá, pelo menos por enquanto, somente o clube de assinatura, com a oferta de um plano mensal de entrada, que será lançado neste mês, na Black Friday.

A escolha do México se deu após a empresa analisar uma série de países que não são grandes produtores de vinhos e que, portanto, têm uma demanda por importação.

“Encontramos no México um tamanho de mercado importado parecido com o do Brasil e com situação de competição similar à do Brasil há cinco a oito anos, com poucos players no e-commerce e sem uma oferta forte de custo-benefício como a que podemos oferecer”, afirma o CEO da Wine, Marcelo D’Arienzo, ao NeoFeed.

A expansão para o exterior está sendo feita com parte dos R$ 120 milhões que a Wine captou em uma emissão de debêntures realizada em maio, após a empresa suspender o plano de realizar um IPO na Bolsa.

No início, não haverá uma estrutura própria no México. Todo o projeto será executado por parceiros locais, desde a parte jurídica, tecnologia e também a logística, para atender todo o território mexicano.

A Wine diz que terá um time de duas a quatro pessoas trabalhando no país. À medida que o produto avançar, a companhia pretende fazer contratações e começar a internalizar a operação, em especial os times de marketing, tecnologia e atendimento.

Será, portanto, uma degustação. Até por isso, D’Arienzo ainda não consegue precisar qual será o montante investido no México, uma vez que a empresa ainda está tateando o mercado, em um modelo MVP (minimum viable product). “Estamos testando as águas, para ver se o produto tem aderência no México e se é o produto acertado”, diz o executivo.

Ele também evita fazer projeções de qual pode ser o tamanho do público da Wine no México em um determinado prazo. “Mas temos certeza que o potencial é grande, pois só 30% dos vinhos consumidos no México são mexicanos”, afirma D’Arienzo.

No Brasil, a proporção de vinhos locais é de 53%, mas o CEO da Wine ressalta que a produção brasileira é muito forte em vinhos doces. Já no México, a produção é de vinhos finos.

Em razão dessa distorção, ele prefere comparar o consumo per capita de vinhos importados em cada país. No Brasil, o consumo per capita foi de 0,56 litro em 2019, enquanto os mexicanos registraram 0,71 litro.

“Como a população do Brasil é maior, os números absolutos ficam mais próximos, de 119 milhões de litros para os brasileiros, contra 89 milhões de litros para os mexicanos”.

No início, os consumidores mexicanos terão acesso apenas a um aplicativo da Wine e a um plano de entrada que se desmembra em duas possibilidades: ou o cliente escolhe receber duas garrafas por mês, a 299 pesos mexicanos (R$ 79), ou quatro garrafas, a 399 pesos mexicanos (R$ 105).

Avanço em várias frentes

Este é o segundo movimento de expansão da Wine após a emissão de debêntures. Em maio, junto com o anúncio da captação, a companhia informou que havia comprado a Cantu, focada em venda de vinhos no B2B, como a comercialização para redes de supermercados, por R$ 180 milhões.

Já com a Cantu incorporada, a Wine turbinou a receita registrada no terceiro trimestre, em balanço divulgado nesta terça-feira, dia 16. A companhia teve receita líquida de R$ 161 milhões entre julho e setembro, alta de 68,8% em relação a igual período do ano passado.

“Durante a pandemia, vimos o consumidor de vinho aderir às vendas digitais. Agora, com o cliente voltando a frequentar mais os supermercados para comprar vinhos, a Cantu nos dá a oportunidade de crescer no B2B”, disse o CEO da Wine.

O faturamento da companhia também se beneficiou do aumento do número de assinantes, com 75 mil novos clientes desse tipo em 12 meses, para uma base total de 281 mil. Além disso, a empresa cresceu a sua presença física, com 13 novas lojas nos últimos 12 meses. Agora, são 16.

As unidades da Wine, vale dizer, também funcionam como estoques para distribuição das vendas feitas pela internet. Para o ano que vem, a companhia planeja mais 15 unidades, com um ritmo de uma ou duas aberturas por mês, sempre priorizando as principais regiões metropolitanas do País.

Hoje, a Wine está presente em Vitória, São Paulo, Barueri (Alphaville), Rio de Janeiro, Fortaleza, Goiânia, Campinas, Recife, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre.

Com a expansão física, as vendas “off-line” já representam a maior parte da receita da Wine. No terceiro trimestre, corresponderam a 39,6%, enquanto o clube de assinatura ficou em 36%. O B2B responde pelo restante. “Mas o nosso objetivo é que isso fique equilibrado em um terço para cada”, diz o CEO.

Apesar do avanço nas vendas, a Wine voltou ao prejuízo líquido no terceiro trimestre. No período, a empresa teve resultado negativo de R$ 2,2 milhões, depois de ter tido um lucro líquido de R$ 11,4 milhões no segundo trimestre. No entanto, reduziu em 35,7% o prejuízo registrado no terceiro trimestre do ano passado, de R$ 3,4 milhões.

De acordo com a empresa, o prejuízo no terceiro trimestre se deve ao aumento de despesas financeiras, com apropriação de juros mensais vinculados à emissão de debêntures feita em maio e a expansão do passivo cambial, que saltou de R$ 1,7 milhão para R$ 5,4 milhões em 12 meses, por causa da valorização do dólar no período. Metade do passivo pertence à Cantu.

A companhia, por isso, prefere olhar o Ebitda ajustado, que está mais relacionado ao operacional. No terceiro trimestre, o indicador ficou positivo em R$ 26,8 milhões, alta de 202,2% em relação a igual período do ano passado.

Sobre a possibilidade de voltar ao IPO, D’Arienzo afirma que, para o “curtíssimo prazo”, a empresa está capitalizada, após a a emissão feita em maio. “Mas continuamos observando as janelas de mercado”, ele diz. Outras aquisições também estão no radar e, segundo ele, há conversas em andamento com empresas concorrentes.

No Brasil, o principal concorrente da Wine é a Evino, que no mês passado anunciou a aquisição da Grand Cru, também de comércio de vinhos. A transação, de valor não revelado, vai criar uma empresa com faturamento anual bruto de R$ 700 milhões. O acordo ainda precisa ser aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Além deles, o mercado conta ainda com a Adega, plataforma online lançada em 2018 pelo Pão de Açúcar, maior varejista de vinhos do Brasil, com a venda de 20 milhões de garrafas pelo País em 2020.

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