Uma das empresas de capital de risco mais influentes do Vale do Silício, a Andreessen Horowitz (a16z) tem liderado, ao lado da Sequoia Capital, o boom de investimentos em startups de inteligência artificial (IA). Nesse cenário, uma novata brasileira é o destino de um dos novos cheques da gestora americana.

Operando, há dois anos, em modo stealth, a Segura, dona de uma plataforma de IA para o setor de seguros, está saindo oficialmente da “toca” com um aporte seed de R$ 45 milhões, coliderado pela a16z e a Kaszek, outra protagonista na indústria de venture capital. Nesse caso, da América Latina.

A rodada inclui ainda a Big Bets e investidores-anjo de peso, como Assaf Wand, fundador da americana Hippo; Anderson Thees, sócio da Redpoint eventures; Fersen Lambranho, presidente do board da GP Investments; Marcelo Blay, fundador da Minuto Seguros; e o clã Almeida Braga, controlador da Icatu.

“Todos esses nomes são muito respeitados e bastante criteriosos na hora de se decidirem por um investimento”, diz Luís Alberto Nogueira, cofundador e CEO da Segura, ao NeoFeed. “Então, chegar ao mercado com essas chancelas é um sinal de que estamos no caminho certo.”

A tese que atraiu esse pelotão foi construída por Nogueira, Lucca Buffara e Pedro Nobrega. Amigos do curso de engenharia da PUC-Rio, eles começaram a ter contato com a IA em 2018, na Cyberlabs, empresa que já era focada nessa área e que, em 2021, se fundiu com a PSafe, de cibersegurança.

O mercado de seguros, por sua vez, entrou no radar do trio em 2022, quando Nogueira e Buffara migraram para a Akad Seguros, operação que teve origem na Argo Seguros e que foi rebatizada após a compra, naquele mesmo ano, pela Cyberlabs e pela GP Investments.

A decisão de unir esses dois mundos veio em maio de 2024, quando os três fundaram a Segura. A proposta? Manter os corretores como o elo essencial dessa cadeia – o canal responde por 80% das vendas do setor. Mas, ao mesmo tempo, turbinar o trabalho desses profissionais com recursos de IA.

“A IA vai trazer um novo paradigma para esse corretor, porque, com ela, ele consegue entrar no detalhe de questões que não são estruturadas”, diz Nogueira. “Mas para isso acontecer, é preciso construir uma infraestrutura para ajudar como ele se relaciona tanto com as seguradoras quanto com o cliente final.”

Luiz Alberto Nogueira (em pé, à esq.) e os sócios da Segura
Luiz Alberto Nogueira (em pé, à esq.) e os sócios da Segura

Para aprimorar esses diálogos, a Segura parte de um universo formado atualmente por cerca 150 mil corretores em atuação no País. E da premissa de que esses profissionais lidam, diariamente e manualmente, com uma dinâmica extremamente complexa.

Essa rotina inclui, de um lado, um emaranhado de sistemas de diferentes seguradoras, com todas as nuances de produtos, coberturas, cotações e mudanças constantes de condições. E, na outra ponta, o desafio de encontrar as ofertas mais adequadas ao bolso e às necessidades de cada cliente.

O modelo da Segura se baseia em duas plataformas de IA. Lançada há um ano, a Helena é o canal com as seguradoras que, entre outros recursos, agiliza o acesso a dados das apólices, coberturas e cotações. Além de verificar diariamente mudanças nas condições de cada oferta ou de regulações do setor.

Uma segunda ferramenta mais recente, lançada há duas semanas, é a Conversas, por meio da qual o corretor interage em tempo real com os clientes finais, apoiado por um arcabouço de informações sobre os produtos, apólices contratadas e histórico de interações.

A ideia é que as duas plataformas, integradas ao WhatsApp, ajudem a eliminar tarefas burocráticas e forneçam subsídios para um atendimento mais eficiente e, ao mesmo tempo, mais personalizado. E com bastante autonomia para o corretor definir seu grau de participação em cada etapa desse processo.

“O corretor configura a maneira que esses agentes de IA funcionam”, diz Nogueira. “Ele pode escolher que as assistentes respondam tudo automaticamente, sem precisar da sua interação, ou colocar um guard rail para que elas respondam apenas determinadas questões.”

Entre outras questões, as plataformas permitem ainda que o corretor acesse, por exemplo, informações como quais são os clientes da sua base com renovações de seguro próximas. Ou quais deles têm seguro auto, mas não um seguro residencial.

Nesse modelo, a startup é remunerada pelas seguradoras e, para os corretores, o acesso às plataformas é gratuito. Em operação, de fato, há um ano, a Segura já contabiliza uma base de mais de 3 mil corretoras, que, em sua maioria, são formadas por dois a sete profissionais.

De olho em abocanhar uma fatia mais ampla de um mercado que anualmente movimenta cerca de R$ 250 bilhões em prêmios, a empresa tem como meta chegar a 10 mil corretoras em sua carteira até o fim de 2026.

No caminho para tornar esse número realidade, a Segura já tem bem definido o uso dos recursos captados. Um primeiro destino será reforçar o seu time, formado atualmente por 25 profissionais. Mais do que quantidade, o foco será qualificar ainda mais a equipe.

“A orientação é seguir trazendo os melhores talentos, mas não necessariamente ampliar muito essa equipe”, afirma Nogueira. “Nosso plano inicial era chegar a 50 pessoas até o fim do ano, mas com tudo o que está acontecendo em IA, o que estamos vendo é que os times vão ser cada vez mais enxutos.”

O segundo será a infraestrutura de tecnologia. “Uma coisa é fazer vibe coding e botar um produto no ar. Outra é ter isso em escala, de maneira precisa e assertiva, o que exige uma construção bem cara”, diz. “E essa é uma indústria de confiança. Então, boa parte dos recursos será direcionada a essa frente.”