Um dia depois de registrar dois terremotos em sequência, um de 7,2 graus e outro de 7,5 graus na escala Richter, a Venezuela mergulhou em um novo período de caos social e econômico na quinta-feira, 25 de junho, com mais de 30 réplicas de tremor e busca desesperada por sobreviventes em vários prédios destruídos na capital, Caracas.

O número de baixas, inicialmente anunciado em 165 mortos e mais de mil feridos, deve crescer nos próximos dias, agregando um componente trágico à situação econômica da Venezuela, que vive um turbulento processo de reconstrução após a deposição do presidente Nicolás Maduro, depois de uma intervenção dos Estados Unidos em janeiro deste ano.

A destruição causada pelos tremores – os maiores em 60 anos no país –, incluindo interrupções nas comunicações e danos ao principal aeroporto internacional do país, ocorre num momento delicado. O governo venezuelano está em negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para reestruturar sua dívida pública, estimada em US$ 240 bilhões.

Caso se confirme, esse montante configuraria a maior reestruturação soberana da história – superior à da Grécia, de cerca de US$ 200 bilhões em 2012, durante a crise da zona do euro.

A presidente interina, Delcy Rodríguez, anunciou na quinta-feira, 25, a criação de fundos especiais para a reconstrução integral dos territórios afetados e para o atendimento às vítimas. Este financiamento inicial inclui uma alocação de US$ 200 milhões dos ativos do país no FMI, que serão imediatamente redirecionados para a construção de infraestrutura pública, otimização da rede de saúde e construção de novas moradias.

Para bancar a reconstrução e equalizar a dívida, a Venezuela vai precisar aumentar – e muito – a sua produção de petróleo, que começou a cair durante o governo populista de Hugo Chávez (que governou o país de 1999 até a morte, em 2013) e chegou literalmente ao fundo do poço na era Maduro.

Mesmo com o país ostentando as maiores reservas mundiais de petróleo (cerca de 303 bilhões de barris), a Venezuela mantém uma exploração de 1,2 milhão de barris diários, muito abaixo dos 3 milhões de barris diários dos áureos tempos da PDVSA, a estatal de petróleo que foi sendo dilapidada pelo chavismo.

Apenas durante o período de Maduro no poder, a economia do país encolheu 80%, cerca de um quarto da população emigrou e, quem ficou, luta para sobreviver, com mais de 85% dos venezuelanos na linha de pobreza. Em 2019, o país enfrentou uma hiperinflação de 65.000% anuais (hoje está em cerca de 520% nos 12 meses até maio de 2026).

Após a intervenção americana, em janeiro, os investimentos em petróleo foram retomados, em especial após a recente reforma da Lei de Hidrocarbonetos Orgânicos, que permitiu a renegociação de acordos com grandes empresas de energia, como Chevron, Repsol, BP, Shell, Eni, Hunt Overseas Oil Company e Crossover Energy Holding. Isso se soma a outros importantes acordos de investimento com a General Electric.

Aumento de produção

Esta semana, o Banco Central da Venezuela anunciou que as receitas nacionais provenientes das exportações de petróleo atingiram US$ 5,491 bilhões no primeiro trimestre do ano, um aumento de 21% em comparação com o mesmo período de 2025.

As projeções econômicas antes dos terremotos indicavam um crescimento do PIB de 15,2% em 2026, com o PIB do petróleo aumentando 20,8% e o PIB não petrolífero, 13,9% - os números superlativos são ilusórios, pois refletem uma recuperação após anos de colapso.

A presidente interina pretende manter a trajetória de crescimento produtivo de petróleo definida pelo Ministério dos Hidrocarbonetos e pela PDVSA, de 1,4 milhão de barris por dia até o final deste ano.

A boa notícia é que a gigante de petróleo Chevron afirmou que suas operações na Venezuela permanecem em funcionamento e que todos os seus funcionários foram localizados após os terremotos consecutivos que atingiram o país.

“Como empregadora e parceira de longa data na Venezuela, manifestamos nossa solidariedade ao país e ao seu povo neste momento difícil”, afirmou a empresa em comunicado divulgado na quinta, 25. “Continuamos comprometidos em apoiar nossos funcionários e as comunidades que circundam nossas instalações, bem como em garantir a operação segura e contínua de nossos ativos.”

O principal centro de refino da Venezuela, próximo ao epicentro do terremoto em Paraguaná, e o terminal de exportação em Anzoátegui estão operando normalmente, sem impacto no processamento ou carregamento de petróleo.

Resta saber quanto a renegociação da dívida soberana da Venezuela vai impactar na retomada de investimentos na infraestrutura deteriorada da PDVSA. Isso porque, dentro desse pacote de renegociação, os títulos do governo e da PDVSA respondem pela maior parcela, de cerca de US$ 60 bilhões, além de aproximadamente US$ 40 bilhões em juros pós-inadimplência.

Além disso, a Venezuela deve entre US$ 30 bilhões e US$ 50 bilhões a empresas petrolíferas e credores por faturas não pagas, além de mais de US$ 20 bilhões em indenizações judiciais concedidas a empresas após o regime de Hugo Chávez ter expropriado suas propriedades.

O fim do impasse no Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irã durante o confronto com os EUA e recentemente reaberto, deve aumentar a sangria financeira da PDVSA, que vinha engordando o caixa com o aumento da cotação do barril durante o conflito, que oscilou em torno de US$ 100 nos últimos quatro meses.

Esta semana, com o acordo fechado entre EUA e Irã, o barril voltou para a média de US$ 70 de antes da guerra. É neste cenário difícil, em meio aos estragos causados pelo terremoto e perda de receita com a queda do preço do barril de petróleo, que a Venezuela terá de renegociar sua dívida bruta com o FMI.