Um estudo do UBS BB aponta o Brasil como o país com a pior dinâmica de crédito entre os principais mercados da América Latina. Os analistas identificam deterioração simultânea no crédito a famílias e no segmento corporativo — e destacam que o custo de risco dos bancos brasileiros já é “materialmente mais alto” do que o de seus pares na região.

O levantamento avaliou a qualidade dos ativos de bancos do México, Peru, Colômbia, Chile e Brasil — único país, segundo o relatório, em que a piora ocorre de forma simultânea entre pessoas físicas e empresas.

Embora o banco veja sinais de deterioração no México, o país tem mantido um nível controlado de empréstimos não performados, assim como o Chile. Já Peru e Colômbia apresentam tendência positiva, com queda consistente nas taxas de inadimplência desde 2023.

O relatório ancora o diagnóstico brasileiro em dados do Serasa Experian e do Banco Central. São 83,5 milhões de pessoas negativadas no país — e o endividamento das famílias atingiu cerca de 30% da renda, o maior nível da série histórica.

A tendência à frente tampouco é animadora. Com a expectativa de que a Selic se mantenha alta por mais tempo, o custo do crédito pressiona simultaneamente famílias já endividadas e empresas que precisam rolar suas dívidas.

Com exceção do Chile, onde a alavancagem passa pelo crédito hipotecário, o Brasil é o país mais endividado entre as economias da região, com 54,4% de crédito em relação ao PIB. No México, essa relação é de 23%; no Peru, de 31,7%; e, na Colômbia, de 49,5%.

Quanto maior o estoque de crédito na economia, maior o impacto de um ciclo prolongado de juros altos sobre a inadimplência. Mas a tempestade que se forma no mercado de crédito não deverá molhar todos os bancos por igual.

De acordo com o UBS BB, os incumbentes Itaú, Bradesco e Santander Brasil conseguiram manter tendências “relativamente positivas”, sem aumento relevante no custo de risco. Do outro lado, os analistas veem os novos entrantes sentindo mais pressão, ressaltando o aumento de 74% das provisões do Nubank no primeiro trimestre e a deterioração de “quase todos os seus indicadores” no Inter.

O Nubank, inclusive, encerrou o primeiro trimestre com o custo de risco mais alto de toda a cobertura latino-americana do UBS BB, chegando a 19,2%. “O custo de risco no Brasil está materialmente alto”, afirmam os analistas.

Do lado dos incumbentes, o UBS BB destacou a manutenção de tendências relativamente positivas, sem aumento relevante no custo de risco, o que é explicado pelo mix de clientes e produtos.

Para os próximos trimestres, os analistas veem uma tendência “mais benigna” para Itaú, Bradesco e Santander Brasil. O Itaú é o que tem o menor NPL do grupo, de 1,9%, seguido pelo Santander Brasil, com 3,3%, e pelo Bradesco, com 4,2%.

Na bolsa, contraintuição

O Itaú, porém, é o único dos três incumbentes para o qual os analistas têm recomendação neutra. Um dos principais motivos é o preço, uma vez que as ações do banco são negociadas a 2,2 vezes o valor patrimonial, acima de seus concorrentes.

Para o Bradesco e o Santander Brasil, que negociam a múltiplos mais baixos, o UBS BB vê um upside de 34% e 64%, respectivamente, contra apenas 8% para as ações do Itaú.

O potencial de alta do Santander, inclusive, só perde para o do Inter na avaliação do UBS BB, que projeta um preço-alvo de US$ 9,40 para as ações do banco, 68% acima do patamar atual. Os papéis do Inter acumulam queda de 34% no ano e, segundo os analistas, já precificam a deterioração da carteira, o que representaria uma oportunidade de compra.

O UBS BB também tem recomendação favorável para as ações do Nubank, com preço-alvo que implica um upside de 24%. Apesar do alto custo de risco, os analistas esperam um impacto positivo nos próximos balanços do Nu devido ao Novo Desenrola.

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