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A confusão da BRF com os seus dados de endividamento deu um banho de água fria no mercado

A dona das marcas Sadia e Perdigão divulgou seu primeiro lucro anual desde 2015. Mas a forma como mudou seu guidance de alavancagem para 2020 deixou investidores em dúvida se a recuperação é para valer

 

Mascote da Sadia, uma das marcas da BRF

Estava tudo programado para ser uma festa. A BRF alcançava um lucro líquido de R$ 297 milhões em 2019, o seu primeiro lucro anual desde 2015.

Além disso, as margens voltavam a patamares recordes, sinalizando que o pior da crise que envolveu má gestão e problemas relacionados a operações da Polícia Federal, como a Carne Fraca, que afetaram a empresa, tinham ficado para trás.

Mas o que era para ser uma comemoração virou uma grande confusão. A BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, acabou mudando sua meta de endividamento líquido para o fim de 2020, causando estranheza no mercado.

Se, no quarto trimestre de 2019, a alavancagem líquida estava na casa de 2,5 vezes o Ebitda ajustado, agora o guidance sinalizava para um endividamento entre 2,35 vezes e 2,75 vezes o seu Ebtida ajustado no fim de 2020. A dívida líquida, no fim do ano passado, estava em R$ 13,2 bilhões.

O BTG Pactual divulgou, durante a teleconferência de resultados com analistas na manhã desta terça-feira, 3 de março, um relatório que falava em uma reversão de ciclo.

Por volta das 11h45, os papéis ordinários da BRF caíram quase 5% por conta da reação negativa dos analistas com a nova meta de alavancagem líquida da companhia.

No fim da teleconferência, o CEO global da BRF, Lorival Luz, teve de retomar o assunto e explicar as razões pelas quais a BRF estava revendo sua meta de alavancagem.

Luz disse que mais de 60% da dívida da BRF é em dólar. E que, em dezembro, a moeda americana estava em R$ 4. Hoje, está na casa dos R$ 4,50.

Além disso, ele acrescentou que a redução do endividamento no quarto trimestre de 2019 deveu-se aos efeitos extraordinários, como ganhos tributários de R$ 884 milhões, o que não deve ocorrer em 2020.

“Sem o efeito das receitas tributárias recuperadas, o nosso endividamento estaria na casa de três vezes o Ebtida”, afirmou Luz. “Estamos ajustando o guidance para contemplar esse cenário e estou tentando esclarecer para que não gere uma percepção de que o resultado vai piorar ou o ciclo se encerrar.”

Luz não conseguiu acabar com a má impressão dos analistas, que veem ainda um cenário incerto à companhia por conta do câmbio volátil e de custos crescentes, com o aumento dos preços do milho, a principal matéria-prima da companhia.

No começo desta tarde, o Credit Suisse soltou um relatório cujo título era “há ainda longo caminho pela frente” e alertava para diversos pontos que desagradaram os investidores no balanço da BRF.

“Apesar da escassez de proteína no mundo por conta da peste suína africana, a BRF não parece não estar posicionada para ser uma opção interessante”, diz um trecho do relatório assinado pelos analistas Victor Saragiotto e Felipe Vieira.

Os analistas acrescentaram que a operação do Oriente Médio seguirá lutando para ser uma opção e que as exportações de frango seguem abaixo das expectativas. “E prevemos tempos difíceis pelo lado dos custos”, escreveram Saragiotto e Vieira.

Luz, na teleconferência, tentou mostrar otimismo ao dizer que espera gastar entre R$ 2,2 bilhões e R$ 2,5 bilhões em investimentos. O executivo disse também que a empresa ainda não sentiu o impacto do coronavírus nas exportações e a demanda por proteína na China seguirá forte.

Nada disso foi suficiente. As ações aceleraram a queda e fecharam o pregão com uma desvalorização de 7,27%.

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