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Negócios

A China está dando um empurrão ao plano de Pedro Parente na BRF

O presidente do Conselho da BRF, Pedro Parente, disse que pode antecipar meta de desalavancagem da empresa em 2019, por conta da melhora do cenário internacional

 

Pedro Parente, presidente do Conselho de Administração da BRF

Quando assumiu a presidência do Conselho de Administração da BRF, em abril de 2018, o executivo Pedro Parente, encontrou uma empresa devastada.

A dívida líquida atingia R$ 15,6 bilhões e representava 5,69 vezes o Ebitda ajustado do segundo trimestre de 2018. Os preços da soja e do milho tinham disparado 18% e 29%, respectivamente.

Não bastasse isso, a companhia sofria o impacto de duas operações policiais (a Carne Fraca e a Trapaça), que afetavam a credibilidade da BRF.

Os mercados internacionais, por conta da operação Trapaça, foram fechados. A empresa viu suas exportações para a Europa caírem de R$ 3,5 bilhões, em 2017, para R$ 1,2 bilhão, em 2018.

A greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, fez ainda com que os estoques da BRF ficassem quatro vezes maiores do que o nível considerado ideal. E os conselheiros viviam em pé de guerra.

Parente, que já havia enfrentado a crise do apagão durante o governo Fernando Henrique Cardoso, em 2001, e foi presidente da Petrobras de maio de 2016 a junho de 2018, sabia que a tarefa de recuperação da BRF não seria fácil.

Parente disse que poderá antecipar a proposta de redução da dívida da companhia para o patamar de 3,65 vezes o Ebitda

Mas o que ele não contava era que a China poderia dar um empurrão para acelerar o resgate da dona das marcas Sadia e Perdigão. Nesta terça-feira, 30 de julho, Parente fez uma reflexão sobre sua gestão à frente da BRF, durante o Agrotools Future 2019, seminário promovido pela Agrotools, em São Paulo.

Efeito China

Atribuir os primeiros sinais de recuperação da BRF à peste suína na China parece que não houve planejamento e que a melhora foi apenas um evento de sorte.

Por trás da sorte, houve muito trabalho. Desde que chegou à empresa, Parente iniciou um plano resgatar a companhia.

O primeiro item era retomar a unidade de food service que havia sido descontinuada. Depois, Parente queria consolidar e ampliar a liderança na Oriente Médio, com a comida halal, onde a BRF tinha uma participação de mercado de quase 40%. O plano de Parente previa ainda que a alavancagem financeira cairia para 3,65 vezes em 2019.

De forma genérica, o road map estabelece que a queda de margem será revertida em 2019. No próximo ano, o plano é retomar as margens históricas para só a partir de 2021 conseguir um desempenho acima do nível histórico.

Em 2017, a margem Ebitda ajustada era de 8,9%. No segundo trimestre de 2018, quando Parente assumiu a BRF, era de 5%. Agora, está em 10,2%.

A alavancagem é ainda um desafio. Mas Parente, deixando claro que não se tratava de um guidance para o mercado, disse que poderá antecipar a proposta de redução da dívida da companhia para o patamar de 3,65 vezes o Ebitda.

“Nossa alavancagem ainda é um desafio, mas à luz dessas possibilidades que temos da China, não só vamos alcançar esse alvo, como temos uma boa chance de antecipar ele”, disse.

Parente frisou, no entanto, que o impacto China deverá ser sentido mais para frente. “Isso se deve à melhoria do mercado internacional, não China neste momento”, disse o executivo.

Mas não dá para desconsiderar o efeito China, cuja peste suína pode reduzir o rebanho chinês em até 50%, segundo previsão do Rabobank.

A China representa 50% de consumo de carne suína do mundo, que é de 114 milhões de toneladas. O país asiático ainda importa 2 milhões de toneladas, que representam 25% do comércio global de carne suína.

“Esse é um evento disruptivo”, afirmou Parente. “Está cada vez ficando mais claro que o impacto será longo, de até três anos.”

Para não perder essa oportunidade, a BRF correu para certificar três novas unidades fabris. Ela também anunciou investimentos de R$ 170 milhões e prevê 30% de aumento nas exportações.

A certificação das novas unidades para exportar para China “é uma questão de semanas, não de meses”, afirmou Parente. Das unidades, uma produz carne suína e de frango e as demais apenas carne de frango.

O mercado tem reagido e premiado os papéis dos principais frigoríficos brasileiros. As ações da BRF avançam 53,9% na B3 neste ano. Em 2018, elas caíram 40,1%.

“Inovar é muitas vezes não complicar e ter disciplina”, afirma Parente

O valor de mercado de R$ 27 bilhões retomou o patamar do começo de janeiro de 2018. Está, no entanto, longe ainda do auge de R$ 60 bilhões, de agosto de 2015.

Até mesmo a malsucedida fusão com o rival Marfrig jogou a favor. O mercado não havia comprado a união e estava penalizando os papéis da BRF. Uma vez que o negócio não foi adiante, as ações voltaram a subir.

Parente sabe que há um longo caminho pela frente. Um dos trabalhos é convencer o mercado de que a companhia já melhorou. O Citi, por exemplo, deixou de recomendar a BRF. A XP, em relatório, afirmou que prefere as ações da JBS e do Marfrig a da BRF.

Paciente, Parente parece não se preocupar, por enquanto, com essas avaliações. E conclui com a sua receita de inovação. “Inovar é muitas vezes não complicar e ter disciplina”, afirmou ele. “Gestão inovadora é a que tem qualidade na execução.” Não parece um provérbio chinês?

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