A disputa que está botando fogo no bilionário mercado de benefícios

Com um mercado anual estimado em R$ 150 bilhões, hoje nas mãos de Alelo, Ticket, Sodexo e VR Benefícios, o Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) vive a expectativa de mudanças em suas regras, que prometem aumentar a competição na área e abrir espaço para nomes como iFood, Flash e Caju, entre outras

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Um mercado gigantesco e dominado, há décadas, por poucas empresas. Mas que vem assistindo ao avanço de novos nomes dispostos a desafiar o status quo, sob o estímulo de companhias que têm o poder de ditar as regras do jogo.

O Brasil tem sido palco de diferentes versões desse mesmo argumento. Em uma dessas tramas, o Banco Central é o patrocinador da busca pela desconcentração bancária, com iniciativas como o open banking. Já em seguros, esse papel vem sendo protagonizado pela Superintendência de Seguros Privados (Susep).

Agora, ao que tudo indica, esse enredo deve ganhar um novo cenário: o Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), datado de 1976 e que rege benefícios como o vale-refeição e o vale-alimentação concedidos pelas empresas aos seus funcionários.

Desde janeiro deste ano, o PAT está no centro de discussões encampadas pelo Ministério da Economia e pela Secretaria do Trabalho e Previdência, até então vinculada à pasta. E que prometem redesenhar a competição nesse espaço, com a abertura para a escalada de novos atores.

“Esse é um mercado extremamente oligopolizado”, diz João Sabino, diretor de políticas públicas do iFood, ao NeoFeed. “Que movimenta R$ 150 bilhões por ano, envolve dezenas de milhões de trabalhadores e no qual quatro empresas concentram mais de 90% dos negócios.”

O tal menu restrito envolve o quarteto formado por Alelo, Ticket, Sodexo e VR Benefícios. Já no campo oposto do ringue, além do iFood, estão novatas como Flash Benefícios, Caju e Alymente. Todas elas de olho em um mercado estimado em cerca de 300 mil empresas e 22 milhões de trabalhadores.

Com o objetivo de colocar em pauta a modernização do PAT, o Ministério da Economia abriu uma consulta pública entre janeiro e fevereiro deste ano. E, desde então, muitas dessas empresas e associações setoriais vêm alimentando um debate sobre eventuais mudanças nas regras que regem o programa.

Procurado, o Ministério da Economia ressaltou que não trata de projetos em fase de estudo. Mas um conjunto de normas gerado nesse intervalo, ainda em discussão e sem previsão de uma data e formato final de publicação, que trazem as possíveis alterações em análise nessa seara.

Entre as diversas alternativas na mesa, duas, em particular, tratam da proibição de questões que hoje dão o tom em boa parte das relações entre as empresas de benefícios e as suas respectivas bases de clientes. E que são vistas como as principais barreiras de competição pelos novos players.

Bastante comum entre as gigantes do setor, a primeira delas é o fim do rebate, prática que consiste na oferta de descontos a grandes empresas que contratam os seus serviços dentro do PAT, em percentuais que giram, em média, entre 2% e 5%.

O mercado do PAT é estimado em cerca de 300 mil empresas e 22 milhões de trabalhadores

Em um exemplo desse modelo, uma empresa que gasta R$ 2 milhões mensais com a concessão de vale-refeição e vale-alimentação aos seus funcionários, repassa, de fato à operadora dos benefícios, R$ 1,9 milhão no período, a partir de um abatimento de 5% do montante total.

“No fim do dia, quem paga essa conta são os estabelecimentos credenciados, em especial, os pequenos e médios”, afirma Sabino, do iFood. “Enquanto a taxa média de um cartão de crédito fica entre 0,5% e 1,5%, essas empresas cobram entre 7% e 9% pelas transações com seus vouchers.”

Uma fonte do setor segue na mesma linha: “Basicamente, essas companhias tomam dos restaurantes e supermercados para devolverem às empresas”, afirma. “E, na outra ponta, o trabalhador também é penalizado, pois muitas vezes o estabelecimento repassa o alto custo da taxa para o preço da refeição.”

A segunda mudança diz respeito ao fim da oferta de prazos para o repasse de valores por parte dos empregadores. Segundo fontes ouvidas pelo NeoFeed, não é raro que as empresas de benefícios adiantem o montante contratado e concedam mais de 90 dias para que os clientes quitem essa cifra.

“Isso acaba criando uma situação completamente nociva para o mercado”, diz Edson Santos, especialista em pagamentos. “Pois esses players têm condições de oferecer preço e prazo, e de comprar a carteira dos grandes clientes, algo que os pequenos não têm. A concorrência fica inviável.”

Sob essas condições, as “big four” desse mercado têm, de fato, um poder de fogo bem maior do que grande parte das desafiantes do setor. A começar pelo fato de que, donas de um portfólio mais robusto, elas, muitas vezes, têm negócios que vão além dos vouchers com seus clientes.

As fortalezas também incluem os acionistas por trás dessas operações. Com uma base de 100 mil empresas e 8 milhões de usuários, a Alelo, por exemplo, é parte do grupo Elopar, que tem Bradesco e Banco do Brasil entre seus sócios.

Parte da Edenred, empresa francesa avaliada em € 12,1 bilhões, a Ticket tem o Itaú Unibanco entre seus acionistas no País, com uma fatia de 11%, além de atender 130 mil empresas, com mais de 7 milhões de funcionários.

A também francesa Sodexo está avaliada em € 10,3 bilhões e atende cerca de 103 mil empresas, com 5,9 milhões de profissionais. Já a VR Benefícios, controlada pela família Szajman, é um sinônimo da categoria e tem uma carteira de 50 mil companhias, com mais de 3,5 milhões de funcionários.

Dono do maior arsenal entre as empresas que estão desafiando essas líderes – reforçado por um aporte de R$ 1 bilhão recebido nesta semana pela Movile, sua controladora, a Movile, o iFood atende hoje 1,5 mil empresas, com 100 mil funcionários e tem uma rede de aceitação com 270 mil restaurantes.

Com apetite

Ainda distantes desses números, as outras novatas no setor também veem boas perspectivas para avançar no terreno das gigantes, a partir da perspectiva das mudanças no PAT e de um modelo apoiado em parcerias, tecnologia e na oferta de plataformas para facilitar a gestão dos benefícios pelas áreas de RH.

“Nosso apetite já era enorme”, diz Pedro Lane, cofundador da Flash Benefícios, fundada em 2018 e que já atraiu R$ 170 milhões de fundos como Global Founders e Tiger Global. “E agora, com o fim do rebate e do prazo de pagamento, essa ladeira fica menos inclinada e podemos acessar os grandes clientes.”

Pedro Lane, cofundador da Flash Benefícios

Para a entrada no setor, a empresa recorreu a um formato que também deve ficar mais claro sob a nova regulação: o uso de redes de aceitação de parceiros, em um contraponto aos arranjos fechados que dominam o setor, no qual as companhias são, ao mesmo tempo, emissoras, bandeiras e adquirentes.

A Flash usa a rede da Mastercard, com cerca de 2 milhões de estabelecimentos. “É uma capilaridade monstruosa e, pelo menos, quatro ou cinco vezes maior que a rede dos incumbentes”, afirma Ricardo Salem, cofundador da empresa, que tem uma carteira com 200 clientes e 200 mil beneficiários.

Outra startup a apostar nesse formato, também com a Mastercard, é a Alymente. Fundada em 2018, por ex-funcionários da Stone, a empresa entrou em operação, de fato, há menos de um ano e contabiliza mais de 200 empresas em sua base, com nomes como Pernod Ricard e A.T. Kearney.

“Eliminando essas distorções, esses grandes players vão ter dificuldades para acompanhar as empresas de tecnologia que estão entrando no mercado”, observa André Purri, cofundador e CEO da Alymente. “Porque elas são grandes e lentas.”

Desde 2019 no mercado e com investidores como Valor Capital e Canary, a Caju é mais uma a apostar na virada do jogo. “Essas novas regras vão nivelar a competição”, diz Eduardo Del Giglio, fundador e CEO da startup. “Agora, o que vai pesar, é quem tem o melhor produto. No fim das contas, quem vai ganhar é o funcionário.”

Por meio de uma parceria com a Visa, a startup diz ter uma rede de aceitação em mais de 400 cidades e trabalha com clientes como Gympass, Loft, Mercado Bitcoin, Rappi, Wildlife, PicPay e Dafiti.

As ‘big four”

Procuradas pelo NeoFeed, Alelo, Ticket e Sodexo preferiram não se manifestar e direcionaram todo e qualquer posicionamento à Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador (ABBT). A VR Benefícios, que não é filiada a ABBT, também não concedeu entrevista.

“Isso é uma falácia de quem não conhece as inovações dessas companhias”, diz Alaor Aguirre, presidente do Conselho Diretivo da ABBT, sobre as alegações de que as quatro grandes perderiam espaço na briga com as startups nesse novo cenário, especialmente no que diz respeito à tecnologia.

Nessa linha, as quatro empresas destinam, de fato, diversos recursos para a área. Esse é o caso da Alelo, que lançou recentemente uma plataforma própria de software de adquirência, com um aporte inicial de mais de R$ 160 milhões.

Sob esse contexto, Aguirre ressalta que a ABBT enxerga as mudanças como uma oportunidade de aprimorar o programa e cita a proposta da entidade para que os novos players possam utilizar as redes credenciadas das quatro líderes do mercado.

Ele também tece críticas aos arranjos abertos, que possibilitam parcerias com outros players dessa cadeia, em oposição aos arranjos fechados, nos quais uma única empresa responde por todas as etapas da transação.

“Há 45 anos, o PAT é baseado em arranjos fechados por uma razão simples e óbvia. Só assim é possível fiscalizar os estabelecimentos e a recepção indevida do voucher”, diz Aguirre. “Muitas dessas novas empresas estão focadas em volume de transações e não nessas questões.”

Aguirre reconhece que o rebate é prejudicial ao mercado e que deve ser coibido. E observa que essa prática traduziu uma competitividade excessiva do mercado, a partir de um desequilíbrio entre o preço oferecido aos clientes e as taxas cobradas dos estabelecimentos.

Sobre esse último ponto, Aguirre rebate as críticas sobre as taxas cobradas pelas quatro líderes do setor, especialmente aquelas feitas por uma empresa. “Foi muito interessante ouvir nas reuniões com o Ministério que nossas taxas são caras de uma empresa que cobra 27% de restaurantes parceiros”, diz.

Questionado sobre o comentário, uma clara referência ao iFood, Sabino, da empresa do grupo Movile, diz que as taxas cobradas pela companhia em seus serviços de intermediação e logística, no plano do delivery, nada tem a ver com a discussão sobre o mercado de benefícios.

E acrescenta, deixando claro que essa disputa está apenas no começo. “Em benefícios, enquanto a taxa de adquirência das empresas da ABBT é de até 9%, a nossa é zero”, afirma. “E estamos bem confortáveis. Se essas mudanças forem confirmadas, a competição vai ficar mais sadia.”

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